— Eu sei das tuas escapadelas — disse a mulher. Victor gelou. Não, não estremeceu. Nem empalideceu …

Sei das tuas aventuras disse a minha esposa. Fiquei gelado.

Não estremeci. Nem empalideci embora por dentro tudo se tivesse encolhido, como papel amarrotado antes de ir para o lixo. Fiquei simplesmente paralisado.

A Leonor estava junto ao fogão, mexia qualquer coisa na panela. Postura normal costas voltadas para mim, avental com pintinhas, cheiro a cebola alourada no ar. A imagem habitual de casa. Conforto. Só a voz destoava. Voz de quem lê o jornal das oito.

Por um segundo pensei: ouvi mal? Talvez tenha dito que sabia onde havia bons tomates no mercado? Ou falava do vizinho do segundo andar, que quer vender o carro?

Mas não.

De todas as tuas aventuras repetiu ela, sem se virar.

Foi aí que o frio me gelou mesmo. Não havia histeria nem mágoa no tom dela. Não havia aquilo que sempre temi: lágrimas, acusações, pratos partidos. Era factual. Como quem diz: acabou-se o pão.

Cinquenta e dois anos de vida. Vinte e oito com esta mulher. Conheço-a melhor que a palma da mão: a pinta no ombro esquerdo, o trejeito com o nariz quando avalia o sal da sopa, os suspiros matinais. Mas aquele tom nunca lhe tinha ouvido.

Leonor… tentei começar, mas a voz falhou-me.

Tossi, tentei outra vez.

Leonor, do que é que estás a falar?

Ela virou-se. Olhou-me. Demoradamente, tranquila, como se me visse pela primeira vez. Ou melhor, como quem contempla uma fotografia antiga que já perdeu as cores.

Da Maria do escritório, por exemplo disse ela. Dois mil e dezoito, não me engano?

Quase perdi o chão. Não era força de expressão era como cair num poço e ficar suspenso no ar.

Meu Deus. Maria?!

O rosto dela mal consigo recordar. Foi qualquer coisa talvez num jantar da empresa? Uma história curta. Rien de grave. Jurei a mim mesmo: nunca mais.

E da Filomena, também prosseguiu a Leonor, indiferente. Aquela que se aproximou de ti no ginásio há dois anos.

Abri a boca. Fechei.

Como é que ela sabia da Filomena?!

Leonor desligou o fogão. Tirou o avental, dobrou-o sem pressas. Sentou-se à mesa.

Queres saber como descobri? perguntou. Ou importa-te mais saber porque calei?

Fiquei calado. Não era por não querer responder era incapaz.

A primeira vez começou Leonor foi há dez anos, talvez. Chegavas tarde do trabalho. Mais às sextas. Entravas com outro brilho no olhar. Cheiro a perfume.

Sorriu, amarga.

Pensei: deve ser impressão minha. Talvez alguma colega nova no escritório. Convenci-me durante semanas. Até encontrar um talão do restaurante no bolso do teu casaco. Jantar para dois. Vinho. Sobremesa. Nós nunca fomos lá juntos.

Quis falar justificar-me, mentir, como sempre. Mas as palavras ficavam trancadas na garganta.

Sabes o que fiz? Leonor fixou-me os olhos. Chorei na casa de banho. Depois lavei a cara. Preparei o jantar. Recebi-te com um sorriso. À nossa filha não disse nada tinha quinze anos. Exames. Primeiros amores. Para quê dar-lhe a conhecer que o pai…

Calou-se. Passou a mão sobre a mesa, como se limpasse poeira invisível.

Achei que passava. Coisas de homens crise de meia idade, parvoíces. Voltavas. O importante era manter a família.

Leonor… consegui sussurrar.

Não cortou. Deixa-me terminar.

Cedi.

Depois veio a segunda. A terceira. Até perdi a conta. Nunca puseste senha no telemóvel. Achavas que não via? Li mensagens. Aqueles “tenho saudades”, “és o melhor”. Vi fotografias: abraços, sorrisos. A voz dela tremeu pela primeira vez, mas recompôs-se.

Fui-me perguntando: para quê? Para quê viver com alguém que não me ama?

Amo-te! saiu-me. Leonor, eu…

Não, respondeu, firme. Gostas de comodidade. De uma casa limpa. Jantar quente. Camisas passadas. De uma mulher que não faz perguntas.

Levantou-se. Olhou pela janela, mergulhada na noite.

Sabes quando decidi? falou nas costas Há um mês. A nossa filha veio passar o fim de semana. Estávamos na cozinha, chá nas mãos. “Mãe, estás diferente estranha, calada, como se não fosses tu.” E percebi: ela tinha razão. Deixei de viver para mim há dez anos.

Olhei-a, as costas direitas, tensas e percebi: estava a perdê-la. Não “posso perder” estava a acontecer. Ali mesmo.

Não quero divorciar-me disse, rouco. Leonor, por favor.

Eu quero respondeu. Já dei entrada nos papéis. Daqui a um mês temos audiência.

Porquê agora?! explodi.

Leonor virou-se. Olhou-me, demoradamente. Sorriu, triste.

Porque percebi: tu nunca me traíste, Tomás. Só se trai quem nos importa. Para ti, eu só… estava. Presente, como o ar.

E aquilo era verdade.

Fiquei sentado no sofá, encurvado, com dez anos a mais de repente. Leonor, junto à porta. Entre nós, vinte e oito anos de casamento, uma filha, a casa onde cada canto tinha lembranças dos dois. E um abismo. Imenso.

Sabes murmurei sem ti vou perder-me.

Não vais, vais vivendo atalhou. De alguma forma.

Não! Levantei-me, fui na direção dela. Leonor, mudo! Prometo! Nunca mais…

Tomás ergueu a mão. Não tem nada a ver com elas. Nada.

Então com quê?

Silêncio. Procurava palavras aquelas que sempre quisera dizer, mas calara, por medo ou por não se sentir digna de ser ouvida.

Sabes como me senti? Sempre que vinhas de outra Maria ou Filomena deitava-me a teu lado sentindo-me uma sombra. Nem te davas ao trabalho de esconder: o telefone, camisas para lavar com batom no colarinho. Tinhas certeza de que era ingénua. Que não via.

Abanei, como se me tivessem dado um soco.

Nunca quis fazer-te mal.

Nunca quiseste? Aproximou-se. Os olhos brilhavam não de choro, de raiva antiga, finalmente liberta. Simplesmente… Nunca pensaste em mim. O que te passava pela cabeça enquanto beijavas outra? “A Leonor nunca vai saber?” Ou “qual é a diferença?”

Fiquei mudo.

A verdade doía mais.

Nunca pensara nela. Existia, simplesmente. Acreditei que nunca sairia dali. Sempre ficaria.

Chegavas a casa dessas escapadelas e tudo continuava igual. No teu mundo, nada mudava. Eu, presente. A família, completa.

Ela afastou-se.

Mas eu não estava nesse teu mundo. De todo.

Dei um passo, tentei tocar-lhe o ombro. Segurá-la, aninhar, impedir a queda.

Leonor esquivou-se.

Não disse, cansada. Agora é tarde.

Agarrei-lhe as mãos.

Leonor, suplico! Dá-me uma oportunidade! Juro que mudo!

Olhou para os nossos dedos entrelaçados. Para o meu rosto contorcido, assustado. De repente percebeu: eu estava realmente assustado. Não de a perder.

De ficar sozinho.

Sabes disse, libertando-se também tive medo. De ficar só. Sem ti. Sem a família. Mas percebes o que descobri?

Pegou na mala e nas chaves.

Já estou sozinha. Há muito. Contigo ao lado, mas sozinha.

E saiu pela porta.

Passaram três semanas.

Sentei-me nesta casa vazia Leonor foi logo viver com a nossa filha e folheei o telemóvel. A Maria da contabilidade. Filomena do ginásio. Mais uns nomes nos contactos, gente que em tempos me quis.

Liguei à Filomena.

Desligou à primeira.

Mandei mensagem à Maria leu, não respondeu.

As outras nem chegaram a abrir.

Curioso: com família, todas se aproximavam. Agora, supostamente livre…

Ninguém me queria.

Sentado neste sofá neste apartamento, agora tão estranho e vazio pela primeira vez em cinquenta e dois anos senti-me verdadeiramente sozinho.

Peguei novamente no telefone. Procurei “Leonor”. Fitei o nome. Mãos trémulas.

Composei mensagem. Apaguei. Escrevi de novo. Apaguei.

Por fim, escrevi: “Posso ver-te?”

Demorou uma hora a resposta: “Para quê?”

Fiquei a pensar. O que escrever? “Desculpa”? Tarde demais. “Volta”? Ingénuo. “Mudei”? Mentira.

Escrevi apenas a verdade:

“Quero tentar tudo de novo. Podemos?”

Os três pontinhos apareceram. Desapareceram. Voltaram.

A resposta surgiu:

“Vem sábado. A casa da nossa filha. Duas da tarde. Falamos.”

Suspirei.

Não sabia o que esperar. Se me perdoaria. Se voltava. Se eu merecia sequer um novo começo.

Olhei as alianças no dedo.

E, pela primeira vez em muitos anos, queria mesmo recomeçar.

Se ela quisesse.

Hoje, ao lembrar tudo isto, percebo que há coisas que só damos valor quando perdemos. E, por orgulho ou medo, deixam-se amores morrer aos poucos como se o silêncio e a rotina fossem suficiente para manter alguém a nosso lado. Mas ninguém merece viver sozinho junto de quem devia ser porto seguro. Fica a lição: não basta ter uma família, é preciso cuidar dela todos os dias.

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— Eu sei das tuas escapadelas — disse a mulher. Victor gelou. Não, não estremeceu. Nem empalideceu …