Não me venho dizer que vou acabar os meus dias ao lado de uma ruína, gritou Manuel.
Chega! Basta! E com uma força inesperada, Manuel bateu com a gaveta da cómoda, fazendo tremer todos os frascos de água-de-colónia. Já não aguento ouvir falar em articulações e remédios! Quero viver, não sobreviver num hospital em casa!
Madalena estava à porta do quarto, observando o marido a atirar para dentro do saco o pouco que lhe pertencia. Trinta e dois anos juntos, cabendo num só mochila e num saco de sapatilhas. O pensamento trespassou-lhe mais fundo que qualquer mágoa.
Manuel, começou ela em voz baixa, a mãe, depois do AVC, não pode ficar sozinha. Estás a perceber?
A tua mãe é tua responsabilidade! Não tenho intenção de acabar velho e caído, ladrou Manuel, sem levantar os olhos do saco. Tenho cinquenta e oito, não oitenta! Não quero transformar a minha casa numa enfermaria!
Madalena estremeceu. Nos últimos meses juventude e velhice tornaram-se pedras no sapato. Manuel resolveu pintar as canas de cabelo, comprou uma bicicleta e um casaco de cabedal. E depois apareceu Dalila a vizinha, recém-divorciada, do quinto andar, com trinta e cinco anos.
Vais mudar-te para a casa dela? Madalena já sabia a resposta, mas perguntou à mesma.
Manuel virou-se abruptamente. Um sombra de vergonha nos olhos, que logo se converteu em teimosia:
Sim, para ela. E sabes porquê? Porque com ela esqueço a idade. Ela não conta os meus cabelos brancos, não me lembra do coração fraco. É… livre. Compreendes?
Livre. Foi como um murro no peito. Madalena olhou para o espelho o rosto cansado, novas rugas junto à boca. Houve um tempo em que Manuel lhe chamava sua bela. Agora…
Manuel, vais fazer sessenta, sussurrou Madalena. Achas mesmo…
O quê? Ele irrompeu. Que não mereço felicidade? Uma vida nova? Olha que muitos com a minha idade…
Fogem para os braços das meninas novas? ironizou Madalena. A estatística é triste.
Manuel encolheu os ombros, irritado:
Lá vens tu a lançar lama! Eu só quero respirar fundo, percebes?
Fechou o saco com um gesto brusco. O som do fecho passou como uma condenação.
Dá cumprimentos à tua mãe, desejo-lhe saúde, murmurou, a caminho da porta. Que fiquem bem. Duas… engasgou, mas disse Duas velhas amigas.
A porta bateu. Madalena ficou sentada na cama, olhando para um ponto fixo. Ecoava-lhe na cabeça: duas velhas amigas. Mas ela tinha só cinquenta e três anos. Será isso velhice?
De outra sala, chegou um murmúrio:
Madalena? Aconteceu alguma coisa?
Nada, mãe Madalena ergueu-se com dificuldade. O Manuel foi… tratar de uns assuntos.
Mentir sabia-lhe mal, mas não conseguia dizer a verdade. Faltava que a mãe, com oitenta anos, se culpaste do fracasso do casamento da filha.
Os dias seguiram, uns após os outros, como rio sem cor. Madalena manteve os rituais cozinhava, limpava, tratava da mãe. Pensava: quando? Quando se ergueu o muro entre os dois?
Lembrou-se de Dalila. A vizinha cruzava-se sempre nos correios, nos elevadores, e Madalena a achava cheia de energia, rindo alto nos seus vestidos floridos. Até sentira pena dela criar o filho sozinha não era fácil.
Mas depois começou a notar os olhares de Manuel. Como parava à janela quando Dalila passeava o cão. Como coincidia junto ao prédio quando ela vinha do trabalho. Como se demorava na garagem…
Filha, a voz da mãe puxou-a de volta. Estás há meia hora a lavar uma caneca. Vem sentar-te.
Madalena olhou em redor. Sim, estava parada à banca, com uma caneca na mão, e olhos no vazio.
Já acabo, mãe.
Madalena, a mãe sentou-se, agarrada à cadeira, eu sei o que se passa. Não finjas comigo.
Mãe…
Ele deixou-te, não foi? Foi com aquela lá de cima?
Madalena assentiu, as lágrimas a ferverem-lhe nos olhos.
Um tolo, disse a mãe, com filosofia. Sabes o que acontece aos homens ao chegar aos sessenta? Parece que lhes entra o diabo pela cabeça procuram juventude onde nunca existiu.
Mãe, chega.
Chega? a mãe soltou uma gargalhada surpreendente. O teu pai fez igual aos cinquenta e dois. Deu-lhe a coisa de que perdia a vida.
O pai…? Nunca contaste.
Para quê contar? deu de ombros. Dois meses depois voltou. O rabo entre as pernas. Mas já não o esperava.
A sério?
Ora, ora, piscou-lhe o olho. Nesses dois meses percebi a vida não acabou. Fui às aulas de bordado. E o ar parecia mais leve sem ele.
Pausou, observando as mãos velhas pele fina, nódoas, mas ainda hábeis.
Sabes, Madalena, os anos não são tudo. O que importa é o coração. Tenho oitenta e cinco, mas por dentro sou rapariga.
Madalena sorriu. Era verdade a mãe era vida pura, apesar das dores. Sempre atraía gente.
O teu Manuel, continuava, não foge de ti. Foge dele próprio. Da idade. Acha que com uma nova ao lado rejuvenesce.
Defendes-o? Madalena sentiu a mágoa a crescer.
Nada disso, abanou a cabeça. Só tenho pena. Não encontrará lá o que busca. Do tempo, não se foge.
Nesse instante, uma gargalhada ecoou da rua. Madalena olhou. Manuel e Dalila passeavam, ele trazendo-lhe os sacos. Ela gesticulava alegremente, ele fitando-a com um entusiasmo que doía.
Não te massacres, a mãe afastou-lhe a vista da janela. Vamos beber chá. Trouxe bolos de mel.
Que bolos, mãe? vacilou Madalena.
Ele é tolo, repetiu a mãe. Mas cada um tem o seu caminho. Tu também deves procurar o teu. Olha: amanhã vamos ao Jardim da Estrela dizem que está maravilhoso após as obras.
Madalena quis dizer que não lhe apetecia, mas a voz da mãe tinha um brilho que a fez calar. E se a mãe tinha razão? Talvez fosse hora de viver.
O Jardim surpreendeu. Novos trilhos, fontes, bancos acolhedores. No centro, um pequeno auditório, música no ar.
Olha, a mãe parou frente a um painel inscrições para clube literário. E uma escola de dança. E yoga para séniores!
Mãe, Madalena fez careta, não me digas que…
Porque não? piscou-lhe o olho. Na minha idade ainda faço boa figura!
E, como quem prova, rodou o braço com elegância. A bengala caiu com estrondo.
Ai, corou a mãe.
Permita-me, ouviu-se uma voz suave.
Um senhor de meia-idade recolheu a bengala e devolveu-á com um sorriso cordial.
Sou o João Baptista. Organizo as tertúlias literárias por aqui. Estavam a ver os cartazes?
Sim! a mãe cortou, minha filha escreve uns poemas lindos. Chegou a publicar no jornal da faculdade.
Mãe! corou Madalena. No século passado…
A poesia é intemporal, disse João Baptista. Se quiserem, podem vir à nossa sessão agora. Vamos debater novos textos.
E assim Madalena foi ao grupo literário. Nem percebeu como só queria acompanhar a mãe, mas entrou no espírito. O cheiro dos livros, as conversas calmas, os rostos atentos ali ninguém falava de rugas ou idade. Só sentimentos e ideias.
Depois veio a noite de poesia íntima, mas Madalena tremia como numa oral.
Leu versos sobre amor, sobre perdas, sobre vida que não termina na dor. E em cada linha sentia-se livre, mais leve.
Na volta, cruzou-se com Manuel. Vinham de casa de Dalila, mas parou, hesitante como um rapaz arrependido.
Madalena, estás ótima.
Ela olhou-lhe nos olhos. Estranhamente, agora não havia dor, só cansaço sereno.
Obrigada, disse, calma. É só isso?
Não, espera… aproximou-se. Queria explicar… Quero dizer, percebi.
Que te arrependeste? ergueu as sobrancelhas. Que a Dalila não era perfeita?
Manuel fez uma careta:
Não é isso. Ela é jovem, bonita, claro, mas… engasgou-se. Não há nada para conversar.
Achavas que aos trinta e cinco elas falam de cinemas antigos e literatura? riu Madalena. És mesmo ingénuo.
Não era por aí… franziu o cenho. Madalena, fiz asneira. Talvez…
Não, recusou ela. Agora, talvez nada. Sabes, até agradeço.
Agradeces? Ele ficou parvo.
Por me teres deixado. Por me mostrar que há mais vida para além da cozinha.
Madalena, percebi tudo. Quero voltar. Podemos arranjar tudo.
Ela suavemente recuou:
Não, Manuel. Não queres voltar para casa. Porque aquela Madalena já não existe. E não conheces esta. Provavelmente vais temê-la.
Porquê?
Porque ela vive para si.
Nesse momento, a mãe aproximou-se sem bengala, apoiada no braço de João Baptista.
Ora, Manuel, disse ela, olho frio. Ainda aqui estás?
Boa tarde, Dona Rosa Maria, gaguejou ele. Já vou.
Fazes bem, assentiu. Quando te der de fugir da idade, pensa melhor: talvez a questão seja o medo em ti.
Manuel estremeceu, como se apanhado. Virou-se e saiu acelerado.
Mãe! Madalena murmurou, Não devias…
Porquê não devia? encolheu os ombros. Dizer a verdade? Aliás, João Baptista convidou-me a liderar o grupo de Contos da nossa infância para crianças. Vai ser divertido!
Dona Rosa Maria é uma contadora nata, sorriu João Baptista. Os miúdos vão adorar.
Madalena olhou para a mãe, renovada, olhos brilhantes, e pensou: será que é isto a sabedoria não combater a idade, mas aceitá-la como oferta? Como oportunidade de se reinventar?
Dois meses depois, Manuel largou Dalila. Diziam que ela já estava com alguém mais novo. Um mês depois, Madalena recebeu dele uma mensagem trapalhona, cheia de remorsos, a pedir desculpa. Não respondeu.
Para quê? Agora tem vida própria. Duas vezes por semana, encontro literário. E sabem que mais? Aos cinquenta e três, Madalena sente-se finalmente jovem. Porque juventude é coragem de ser quem se é. Pele lisa é secundário. O essencial é estar viva, em qualquer idade.







