Eu e o Oleg vivemos juntos durante 12 anos. Neste tempo, não comprámos casa ao banco, mas tivemos um carro, ambos empregos estáveis e um filho na quinta classe.

Eu e o Rui vivemos juntos durante doze anos. Nesse tempo, nunca comprámos casa, nunca fizemos contrato de empréstimo ao banco, mas tínhamos um carro, ambos tínhamos empregos estáveis e um filho no 5.º ano de escolaridade. Aos olhos dos outros éramos a família modelo, perfumada e bem arrumada, sem dramas nem escândalos. Sempre acreditei mesmo que a felicidade conjugal nascia das coisas mais simples: um jantar quente ao chegar do trabalho, camisas passadas, armários em ordem, idas obrigatórias a casa dos pais dele ao domingo. Ser o porto seguro era, para mim, o verdadeiro papel de esposa. Mas afinal, o Rui tinha uma ideia diferente sobre o que lhe faltava.

Naquela noite ele regressou a casa com uma inquietação estranha. Recusou jantar, vagueou pela casa, mudava objetos de sítio, como se não encontrasse o seu lugar. Sentou-se finalmente à minha frente e falou, sem olhar nos olhos:

Margarida, estou cansado. A rotina, o emprego, os TPC do nosso filho, as tuas novelas ao serão. É tudo igual. Tenho trinta e nove anos, mas sinto-me velho.

Fiquei paralisada, a segurar ainda na toalha da cozinha.

O que queres dizer com isso? Há algo que não te faz feliz?

Não suporto esta previsibilidade disse ele. Preciso de emoção, de silêncio, de perceber quem sou fora disto tudo. Quero viver sozinho.

Queres o divórcio? perguntei baixo.

Não, não é isso. Só uma pausa. Vou viver umas semanas em casa do Nuno, que está fora em trabalho. Só para mim. Acordar sem horário, comer rissóis, jogar PlayStation até de madrugada. Preciso de reset. Não me peças satisfações, por favor. Se começares a chorar ou a fazer escândalo, então é que nunca mais volto.

Na manhã seguinte, Rui encheu um saco de desporto com as coisas essenciais e saiu. Despediu-se com um beijo na bochecha quase cerimonioso e prometeu vir buscar o nosso filho ao sábado. A primeira semana foi de puro terror para mim. Chorava durante a noite, repassava a conversa na cabeça, culpei-me, achei que tinha deixado de ser interessante, que estava a engordar, que era aborrecida. Esperava pelo telefonema dele como quem espera pelo milagre. Ele até ligava, mas pouco. A voz soava leve, até animada. Contava como era bom beber uma imperial ao balcão, dormir até ao meio-dia no sábado.

Olha cuida-te, dizia com desdém. Aproveita para te preocupares contigo. Ainda não decidi se volto, dou notícias quando souber.

Veio a segunda semana e vi coisas estranhas acontecerem. O cesto da roupa já não transbordava em dois dias. Antes lavava quase todos os dias, porque o Rui trocava de roupa de manhã, à tarde, ao jantar. Agora, a máquina de lavar descansava. Os alimentos não desapareciam do frigorífico em dois dias. Uma panela de sopa durava três dias para mim e para o nosso miúdo. Já não passava a noite na cozinha a inventar jantar. Casa limpa, sem meias pelo chão, sem migalhas no sofá, sem barulho insuportável da televisão quando só me apetecia silêncio. Ao deitar o meu filho, preparava o meu chá, punha um filme e sentia um prazer estranho naquele sossego. Ninguém me exigia atenção, ninguém comentava o meu penteado ou me roubava a tranquilidade.

Após três semanas percebi: não tinha saudades. Nem um bocadinho. Ao contrário, imaginar o Rui de regresso metia-me medo. Antevi a rotina dele ocupar cada canto com exigências, lamúrias, conversas sobre o “dia da marmota”, ciclo repetido que ele próprio alimentava sem mexer um dedo. Então percebi o cansaço não era do casamento. Era dele, vazio dele próprio, onde anos de cuidadosa dedicação minha só criavam mais buraco e fadiga. Sem essa preocupação, comecei a respirar melhor.

Na sexta-feira à noite, tocou o telefone.

Olá, Margaridinha! saudou ele, todo contente. Ouve lá, este fim de semana passo aí? Apetecia-me um pratinho do teu cozido. Depois logo volto, que ainda não estou pronto.

Estava a transformar-me na opção cómoda, doméstica, quando lhe apetecia mimo e comida caseira. Queria vir comer como se fosse à cantina, receber conforto e desaparecer.

Não, Rui respondi calma mas firme. Não venhas.

Como assim?

Assim mesmo. Está decidido.

No sábado acordei antes do sol. Tirei os sacos de quadrados azuis e comecei a fazer a mala dele. Casacos de inverno, sapatos, ferramentas, canas de pesca, até a caneca preferida dele. Tudo organizado e arrumado. Sem drama, nem lágrimas, apenas uma lucidez fria. Chamei a táxi-carrinha e mandei tudo para a casa do amigo. Quando o motorista confirmou que deixou os sacos à porta (o Rui não estava), enviei só uma mensagem:

Rui, querias liberdade, vida sozinho. Respeito. As tuas coisas estão à porta da tua nova casa. Não precisas regressar, nem ao domingo, nem daqui a um mês. Percebi que também gosto muito de estar sozinha. Adeus.

Ficou uma semana a ligar, à porta, a pedir conversa, a jurar que eu percebi tudo mal, que era brincadeira, teste, impulso do momento. Não abri a porta nem uma vez. Vi que podia ter finalmente uma vida de silêncio e equilíbrio, sem chantagem emocional, sem birras de adulto. Não ia voltar a ser a esposa em stand by.

A sua retirada teatral para encontrar-se acabou por ser só um truque. Destes que fazem para a mulher ter medo e aceitar qualquer condição só para não ser deixada. Ele achou que estaria à espera, inquieta, pronta a abrir mão de tudo. Mas esqueceu que toda aquela rotina que ele desprezava, só era possível porque eu movia tudo sozinha. A ausência dele não destruiu o meu mundo tornou-o leve.

Não fiquei na espera a aceitar ser provisória. Ao juntar-lhe as coisas, transformei a pausa numa decisão final. Casamento não é hotel, para ir e vir segundo o capricho. Ao tomar conta da situação, saí desta história com dignidade, sem gritos nem humilhações.

E tu, se o teu parceiro pedisse para fazer uma pausa e viver sozinho para testar sentimentos, esperavas… ou fechavas a porta de vez, como eu fechei?

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Eu e o Oleg vivemos juntos durante 12 anos. Neste tempo, não comprámos casa ao banco, mas tivemos um carro, ambos empregos estáveis e um filho na quinta classe.