Adoro imensamente o meu filho e, desde o seu nascimento, fiz tudo ao meu alcance para lhe proporcionar o melhor que a vida podia oferecer.
Eu e a minha esposa sempre satisfizemos todos os seus desejos. Vestia-se sempre com as roupas mais elegantes que Lisboa podia oferecer, inscrevêmo-lo em todas as atividades que desejasse, dos passeios no Tejo às aulas de guitarra na escola do bairro. Apesar de nunca lhe ter faltado nada, o respeito por nós, seus pais, foi sempre inabalável, como se o amor familiar fosse um manto feito de névoa que todos sentíamos, mas ninguém via.
Trabalho de sol a sol, trocando o tempo e o sono por euros, mas esse esforço nunca me pesou. Por estranho que pareça, sempre encontrei minutos escondidos entre as horas para lhe dar atenção sempre que era necessário.
O meu filho sempre foi um rapaz extraordinário e, cedo ou tarde, sabia que se iria interessar por raparigas. Tanto eu como a minha mulher esperávamos por esse momento com um misto de ansiedade e nostalgia e um dia, como num sonho com cheiros a sardinha assada, lá chegou ele. Não imaginávamos que seria tão jovem, mas recebemos a sua namorada com os braços tão abertos quanto as muralhas de Óbidos numa noite de verão. Só impusemos um pedido: que ela viesse jantar connosco, à nossa mesa, rodeada de azulejos azuis.
O meu filho aceitou, sorrindo, e prometeu trazer a rapariga na próxima visita. A minha esposa achou a ideia maravilhosa; ambos, embalados pelo fado da dúvida, queríamos renovar a certeza de que ele escolhera bem afinal, o coração de um rapaz ainda é tão frágil como uma peça de barro de Barcelos.
Quando finalmente a conheci, ela apareceu como uma personagem saída dos sonhos: um sorriso doce, gestos delicados, falava com mansidão ensonada, quase flutuando. Porém, à medida que as palavras dançavam entre nós, fui percebendo que havia algo de desfeito no seu olhar ondulante uma tristeza estranha, como um quadro de Amadeo de Souza-Cardoso esquecido numa loja.
Sou inspetor na PSP, e, num recanto da minha memória, surgiram ecos do nome dela associados a histórias de burlas e lume-palavras. Lembrava-me de ver em relatórios que ela seduzia rapazes pela internet, inventava que era órfã, pedia-lhes dinheiro às vezes apenas uns trocos em euros, outras vezes quantias maiores , e depois desaparecia nas sombras do ciberespaço, deixando corações partidos por Lisboa fora.
Contei ao meu filho o que sabia, mas as regras do sonho não seguem lógica: ele não me reconheceu, perdeu o rosto e, num grito estranho, acusou-me de querer destruir-lhe a felicidade. Fez as malas entre cenas sobrepostas e saiu de casa como quem salta de um elétrico em movimento, indo viver com ela onde a névoa cobre tudo.
Há já um mês que o silêncio se instalou na nossa casa, feito vento frio de Sintra. Pergunto-me agora, perdido no meio deste enredo surrealista, se não terei cometido um erro e se, entre as dobras do sonho, a rapariga mudou ou talvez alguém a tenha levado àquele papel. Talvez nunca se descubra.
O que farias tu, se fosses eu, nestes trilhos de sonho português?







