Olha, tenho que te contar o que me aconteceu, porque ainda estou a digerir tudo. Estive numa relação com a Mariana durante cinco anos. A sério, cinco anos! Morávamos em cidades diferentes por causa do trabalho eu em Coimbra, ela em Braga mas falávamos todos os dias, sempre mensagens, chamadas, partilhas da vida. Tínhamos planos, sabes? Eu já pensava a sério em pedi-la em casamento, só para acabarmos com isso de distância. Sempre confiei nela, nunca me deu razões evidentes para desconfiar de nada.
Um dia, toca-me o telemóvel de um número desconhecido. Atendi, quase distraído, e do outro lado estava um homem super calmo, educadíssimo, com um tom sério mas nada agressivo. Ele apresenta-se e diz-me logo:
Olha, não quero confusões, mas acho que deves saber disto.
Ele explicou-me que era engenheiro informático e que há pouco tempo tinha começado a sair com uma mulher. Nada de sério ainda aquelas coisas, mensagens, uns cafés, aquele flirt normal do início quando ainda estamos a conhecer a pessoa. O estranho é que ela nunca lhe tinha dito que tinha namorado. Tudo lhe parecia bem, até que começou a notar umas coisas que não batiam certo.
Ele comentou com um amigo, que também andava a sair com alguém, e disse-lhe o nome dela. O amigo ficou logo em silêncio, pediu-lhe uma foto. Quando viu a foto, disse-lhe quase sem hesitar:
Sai daí já. Essa mulher tem namorado há cinco anos!
E pelos vistos, aquilo não era rumor: era daquelas histórias que meio mundo sabe nas redes sociais. Descreveram-me que vivia noutra cidade, que ela estava lá a trabalhar e por isso se permitia certas coisas. Mais grave: disseram ao tipo que ela ainda andava a sair com outro engenheiro esse segundo senhor também sabia da minha existência mas, pelos vistos, não estava nem aí.
Foi então que o tipo percebeu o que se passava: não era engano nenhum, a Mariana mantinha três relações ao mesmo tempo comigo, com este engenheiro que sabia de mim, e com ele, que não sabia de nada.
Ele disse-me que quando se apercebeu da confusão toda, sentiu que era justo avisar-me. Afinal, se há solidariedade entre mulheres, tem que haver solidariedade entre homens, certo? Disse que não queria fazer parte de uma situação destas. Encontrou o meu número no Facebook e preferiu ligar-me do que mandar mensagem. Ainda acrescentou:
Se precisares de provas, diz que eu mando-te tudo. Não tenho nada a esconder.
Eu disse-lhe que sim, que queria ver. Mal desliguei, começou-me a enviar tudo: conversas, áudios, fotos, prints de encontros marcados. O mais estranho é que a maneira como ela lhe falava era igualzinha à que usava comigo. Mesmas frases, mesmos elogios, as mesmas promessas vazias.
Senti uma coisa a apertar-me o peito, parecia que me faltava o ar. Eu amava-a, já estava a pensar trocar de cidade, fazer vida com ela ao meu lado. Liguei-lhe, confrontei-a e ela nem tentou muito negar. Primeiro tentou desvalorizar, depois ficou furiosa porque alguém se estava a meter na vida dela, depois caiu-lhe a ficha e começou a chorar. Disse-me que estava confusa, que não sabia o que queria, que pensava que eu nunca ia saber daquilo assim.
Desliguei o telefone. Fiquei a olhar para o teto, em choque. Percebi em definitivo que não são só os homens que traem. Há mulheres que também mentem com estratégia, que conseguem estar com várias pessoas ao mesmo tempo e sabem exatamente o que estão a fazer.
Sim, já não estou com a Mariana. Mas agradeço mesmo ao homem que teve coragem de me ligar. Se ele não me avisasse, provavelmente hoje estava noivo de alguém que levava uma vida dupla ou tripla sem remorsos nenhuns. Ainda me custa acreditar, mas olha é melhor assim do que continuar enganado.







