“Este ano não temos dinheiro para ir ao Algarve”, disse o meu marido, e foi para Lisboa em trabalho. No dia seguinte, vi uma foto dele na praia… abraçado à minha irmã.
Teresa, por favor, não faças mais contas à vida! Tu és contabilista, uma mulher inteligente. Vê com os teus próprios olhos. A prestação do carro está a tirar-nos mil e quinhentos euros todos os meses. O empréstimo da casa, outros dois mil. As obras na casa da tua mãe, ainda mais quinhentos mensais, senão aquela cobertura vai dar-nos problemas e aquilo apodrece tudo. Que praia, que férias em Cabo Verde? Não temos hipótese! Queremos viver de quê, arroz e feijão?
João andava pela nossa pequena cozinha nervosamente, abrindo e fechando armários, fazendo barulho com a loiça, servindo água e voltando a despejá-la no lava-loiça. Nem sequer me fitava nos olhos, desviava o olhar como se eu fosse uma inspectora de finanças.
Eu estava sentada à mesa, encolhida, a olhar para o site da agência de viagens aberto no meu portátil. O ecrã chamava-me com águas azul-turquesa, areia branca e palmeiras a inclinar-se sobre uns bangalôs. Não era só uma imagem; era um Sonho. Um sonho que me alimentava há três anos, como boia de salvação ao afogar-me na rotina e nas contas.
João murmurei, tentando controlar a voz para não tremer. Eu poupei. A sério. Não gastei o prémio do trabalho. Levei marmita todos os dias. Fiz trabalhos extra passei noites a fechar contas de pequenas empresas, enquanto tu dormias. Tenho três mil euros numa conta à parte. Dá perfeitamente para irmos. Fiz as contas O carro pode esperar, a casa da tua mãe não desaba em duas semanas, o telhado ainda aguenta. Nós precisamos de férias. Não vamos para fora há cinco anos, desde que fomos para a casa nova. Andas nervoso, descarregas por tudo e por nada. Eu já quase não durmo, o olho não pára de tremer. Precisamos destes dias, João. Precisamos de nos lembrar que somos marido e mulher, não só dois desconhecidos a pagar dívidas juntos.
O problema não é só o dinheiro! gritou, e a chávena ressoou no pires No trabalho está tudo caótico! Entregas, exigências novas, o chefe não me larga. Não posso largar tudo e ir apanhar sol assim do nada! Ainda me metem na rua e adeus férias e casa!
Mas ainda a semana passada tu disseste que ia acalmar…
Mudou tudo! O cliente mudou os planos, trabalho novo, mil problemas! Teresa, fica decidido: este ano não há praia. Em Maio vamos ao campo ajudar a minha mãe com o quintal, damos um jeito na estufa e grelhamos uns enchidos. Ar puro, natureza, floresta. Não chega para descansar?
Eu não quero ir para a aldeia da tua mãe sussurrei, a sentir lágrimas a ferver Lá não descanso, trabalho a dobrar! De enxada na mão, a cozinhar para a tua família toda. Só queria não fazer nada, ficar deitada na praia!
Sempre a mesma coisa, só pensas em ti! bateu com o punho na mesa Egoísta! Para mim, mais uma missão: tenho de ir a Lisboa, duas semanas. Inspecção às obras, o patrão manda, não há que discutir. E já agora, empresta-me dinheiro da tua conta das férias para a estadia e viagens.
Para quê? Não pagam as deslocações?
Reembolsam depois, sabes que as empresas tardam… Preciso de pagar hotel e despesas antes hotel de quatro estrelas, jantares de negócios, sabes como é, não posso ir pedir água da torneira na Baixa.
Quanto?
Dois mil euros.
Dois mil euros?! João, isso é mais de metade de tudo o que poupei para as férias!
Depois devolvo tudo, com os extras! Não confias no teu próprio marido?
O olhar que ele me lançou foi de tal mágoa que senti-me quase errada.
Claro Ele ia trabalhar, para o nosso futuro. A dar o corpo ao manifesto, enquanto eu sonhava com praia.
E eu transferi o dinheiro: dois mil euros. Mãos a tremer Enviar.
Acreditei nele. Dez anos juntos, apoio mútuo, nunca me faltou antes.
No dia seguinte ele partiu. Eu ajudei na mala.
Não tenhas saudades, Tété! riu, vestindo o casaco, perfume caro que lhe ofereci no Natal (poupando em mim própria). Prometo ligar, mas já sabes: obras, más redes, talvez não consigas sempre dar comigo
Protege-te, veste-te bem, ainda está frio em Lisboa.
Eu levo roupa quente.
E porque raio levaste os calções de banho? perguntei, reparando num par guardado na mala.
João hesitou mas logo inventou:
O hotel tem piscina e sauna aquecida! Vamos descontrair ao fim do dia.
Era plausível. Assenti.
E partiu, com a mala, levando o meu dinheiro e as minhas esperanças.
O apartamento ficou num silêncio pesado.
Continuei os meus dias de trabalho, voltava a casa à noite para jantar sozinha em frente à televisão, a ver séries onde a vida parecia sempre melhor noutro lado.
Senti uma solidão cortante.
Lembrei-me de ligar à minha irmã, Inês.
Ela é o oposto de mim: loira, extrovertida, influencer, cheia de energia, saltando de festa em festa, romances à parte. Cinco anos mais nova mas parece viver num mundo só dela.
Nós nunca fomos próximas, mas sempre tive carinho e ajudei sempre que precisei, inclusive quando precisou de dinheiro enquanto estudava.
Tentei ligar-lhe.
Cliente temporariamente indisponível ou fora da rede.
Estranho. Inês está sempre online, sempre a partilhar: A comer salada, No Uber, Nova maquilhagem.
Procurei nas redes sociais. Última publicação, há uma semana (no dia da viagem de João).
Foto da mala (claro, cor-de-rosa e cheia de autocolantes), legenda: A preparar-me para uma viagem de sonho! Adivinhem para onde? Dica: é quente! Missão secreta! #Trip #Dream #Segredo.
Pronto… alguém a levou para Itália ou Marrocos.
Passou-se uma semana.
O João ligava pouco de dois em dois dias. Muito stress, reuniões, a rede não dá.
Estava bem-disposto ao telefone, até demasiado, pelas circunstâncias: voz leve, quase divertida, e ao fundo aquele som… que não era vento nem trânsito.
Ouviam-se ondas?
E música, algo tropical, africano.
João, que som é esse? Onde é que estás afinal?
Hã? Rádio do táxi! Estamos a caminho da obra, o motorista está a ouvir kizomba!
E as ondas?
Barulho do vento, mulher! Lisboa é assim, muito vento no Tejo! Beijinhos, Tété. Tenho de desligar. A rede está a morrer.
Toque-toque-toque.
Sexta-feira à noite não conseguia dormir, o coração inquieto.
Sentada na cozinha, chá frio na mão, rolei pelo feed das redes sociais interditas, usando VPN, claro.
Comida, gatos, filhos de amigos de infância tudo igual.
De repente…
Notificação lá em cima. Pisca e some.
Inês Rocha marcou-te numa foto.
O coração disparou. Inês? Finalmente?
Toquei no alerta.
A foto demorou a carregar.
Primeiro, azul vivo. Céu.
Depois, turquesa. Mar.
A seguir, areia branca.
E pessoas.
Praia. Praia das minhas pesquisas. Cabo Verde. Conheci logo aquele ângulo, aquela palmeira torta e o pontão logo ao fundo. O Resort que eu sabia de cor!
Em destaque, num espreguiçadeira às riscas, estava a Inês. Num biquíni vermelho mínimo, óculos enormes, cocktail com chapeuzinho. Dourada do sol, radiante, absolutamente feliz.
E mesmo ao lado dela
Ao lado dela um homem de braço peludo à vista, com um relógio Casio igual ao que lhe dei anos antes, a abraçá-la pela cintura.
Nos mesmos calções de palmeiras.
O João.
O meu marido João.
O que estava em Lisboa, a trabalhar debaixo de vento e pó.
A rir-se como não o vi há anos. Um sorriso aberto, apaixonado. O olhar que nunca me dedicou em tanto tempo.
Legenda da foto:
A felicidade gosta de silêncio… Mas não resisto a partilhar! O meu amor ofereceu-me um paraíso! O meu tigre! O meu herói! Obrigada por este sonho! #CaboVerde #Amor #MeuHomem #Férias #DesculpaIrmã
Hashtag #DesculpaIrmã (bem portuguesa).
E marcou-me. No rosto do João.
Por acaso? Não.
Feito de propósito. Só para magoar de vez. Eu ganhei. Sou melhor. Sou mais nova, mais bonita. E tu pagaste o nosso festim.
Olhei para o ecrã e quase apaguei.
O meu marido.
E a minha irmã.
Com o meu dinheiro.
Aqueles dois mil euros fora o que mais deve ter pedido emprestado, grande vida em Cabo Verde não é barata dinheiro poupado à força, sem mear collants.
Roubaram-me o sonho. A vida.
Não mereces férias, fica em casa.
Egoísta.
Não há dinheiro.
As frases do João misturavam-se na cabeça, agora em tom de gozo.
Vomitava de raiva.
Olhei-me ao espelho.
Uma mulher cansada, olheiras e pequenas rugas. Uma tiazorra.
E ali, a Inês: jovem, leve, sem problemas.
Claro, quem ia escolher?
A festa era com a Inês. E quem a pagava era a Teresa.
Voltei ao computador. As mãos tremiam mas a cabeça ficou fria.
Fiz capturas do ecrã. Guardei tudo.
Fui ao banco.
Verifiquei os saldos.
O crédito automóvel estava em meu nome. Saldo em dívida: vinte mil euros. Apesar de ser ele a pagar, eu era a titular do empréstimo.
A casa, ambos com o nome, mas basicamente o empréstimo era maioritariamente no nome dele.
A conta onde transferi os dois mil euros? Esvaziada para a agência de viagens “Turismo do Atlântico”.
Chorei sem som, afundada num pano de cozinha.
Morreu ali uma Teresa ingénua, de fé na família e no amor.
Nasceu outra. Fria, calculista, sem medo de nada.
De manhã já era uma mulher diferente.
Senti apenas um gelo dentro de mim. E sede de vingança.
Eles estavam em paraíso, a rir de mim. Parva não morre, muda de dona.
Pois bem.
Faço-vos viver um verdadeiro inverno, mesmo no sol do Equador.
O João esqueceu um pormenor muito importante.
A procuração.
Há um ano ele passou-me uma procuração total sobre o carro. Para poderes tratar do seguro, inspecção, ou se for preciso vender em caso de urgência. Três anos, poderes totais.
O carro era o fetiche dele: Toyota Land Cruiser. Um tanque negro. Era a vida dele.
Vesti um fato, salto alto, batom vermelho (aprendi com a Inês para provocar).
Levei todos os papéis: livrete, declaração, chave suplente (sempre esteve comigo).
Fui directa ao stand de um antigo colega meu, o Diogo.
Diogo, preciso vender o carro. Para ontem.
Caramba, Teresa! Um carro destes? Que aconteceu? O João sabe?
O João está em Cabo Verde, a fazer asneiras. Precisa de dinheiro. Dívida de jogo.
Arregalou os olhos.
Isso é grave. Bom, posso dar-te 40 mil euros, em dinheiro limpo. O normal seria uns 55 mil, mas pronto, urgência…
Feito.
Poucas horas depois, saí de lá com o dinheiro todo, um saco pesadíssimo.
Fui ao banco, quitei de imediato o crédito do carro.
Os restantes 32 mil euros ficaram numa conta só minha aberta em solteira, sem qualquer ligação ao João.
Segui para casa.
Chamei uma transportadora.
Arrumei todos os bens do João em caixas: fatos, coleção de canas de pesca, consola, portátil, até a caneca de estimação.
Entregar onde?
Arraiolos, Rua da Figueira, casa da Dona Amélia (sua mãe).
Que fique a respirar ar puro, como queria.
Mudei as fechaduras do apartamento.
Algum azar?
Maus ratos. Preciso trancas fortes.
Mas faltava a cereja no topo.
Eu sabia a password do João para o email (a minha data de aniversário, claro).
Cedo encontrei os vouchers do Turismo do Atlântico, voos, reservas em Cabo Verde.
Telefonei ao hotel.
Boa tarde, falo do departamento financeiro da empresa onde o Sr. João trabalha. Os custos das reservas vão ser anulados. O cartão utilizado foi bloqueado por suspeita de fraude, e os fundos reverterão para o banco. Recomendo que desalojem imediatamente os hóspedes, sob pena de problemas legais.
Do outro lado, hesitação.
Mas, senhor…
Basta verificar. E digam ao hóspede: O descanso acabou, cumprimentos da Teresa.
Uma hora depois, notificações do banco (tinha acesso ao telefone dele): Pagamento de 2.000 recusado. (O hotel tentou garantir o restante valor).
Outra hora
João a ligar não atendi.
Depois a minha irmã. Também não.
Uma enchente de mensagens.
Teresa, explica! O cartão morreu, estamos a ser expulsos! Eles querem dinheiro! Não tenho um cêntimo!
Teresa, atende, por favor, estamos sem quarto sob 35 graus à sombra! Inês está a chorar!
Teresa, não é o que pensas! Só foi coincidência nada aconteceu! Atende! Transfere uns trocos, não temos para o táxi até ao aeroporto!
Vendeste o meu carro?! O Diogo telefonou-me! Mas estás louca?! Vou acabar contigo se regressar!
Eu ri-me. Riam-se de mim?
Enviei-lhes uma imagem. A tal captura do story.
E escrevi: A felicidade gosta de silêncio. Aproveitem o silêncio. E vão a pé para Lisboa. Carro vendido por procuração, dinheiro para as necessidades da família (os meus danos emocionais). Coisas a caminho da tua mãe. Fechaduras mudadas. Processo a caminho do tribunal. Adeus, amigos.
João chegou passados três dias.
Teve de pedir dinheiro emprestado a conhecidos (a quem mentiu também) só para comprar o voo de regresso. No hotel, aguentaram-nos no lobby até implorarem por transferência de criptomoeda de alguém.
Chegou com ar de poucos amigos, queimado do sol, sem um tostão no bolso.
Bateu à minha porta.
Abre! É minha casa!
É casa a pagar ao banco e já meti processo de separação, respondi através da porta nova. O que te calhar é só uma dívida. Aqui não voltas. Tenho ordem do tribunal (menti, mas o polícia, Sr. Manuel, meu vizinho, fazia-me companhia com ar de poucos amigos).
Vai-te embora, João, disse o Sr. Manuel. Ou ainda ficas cá dentro quinze dias.
João ainda protestou, mas acabou por ir.
O divórcio foi público, barulhento.
A questão do carro meteu-se em tribunal: gritou, chorou, mas o juiz viu a procuração.
Procuração pública? Está válida. Poderes para venda incluiam? Sim. Dinheiro foi para pagar empréstimo do próprio carro? Sim.
O resto?
Foi para despesas do agregado, paguei comida, contas de casa e… médico (depressão, nervos fraquejaram).
Ele nada comprovou. Sem faturas.
Com a minha irmã não falei mais.
Os meus pais tentaram interceder.
Teresa, é a tua irmãzinha! Ela não sabia, era jovem, o João é que a enrolou! Perdoa
Para mim, deixou de existir irmã.
Inês deixou o João logo depois de regressar. “Sem dinheiro nem carro, não me serve”. Arranjou outro “príncipe”. Desta vez em Milão.
Quanto a mim…
Peguei nos meus dois mil euros poupados (que não entreguei ao João), e nos 32 mil do carro.
Comprei uma viagem.
Cabo Verde. O mesmo resort. O bangalô ao lado.
Sozinha.
Agora estou deitada ao sol, bebo uma Piña Colada, olho o mar-turquesa.
Dizem que o Atlântico cura. É verdade.
Respiro a fundo.
Estou livre. Rica (os 32 mil euros dão segurança). E nunca mais darei poder a ninguém para decidir se mereço ou não ser feliz.
Eu mereço tudo.
E aprendi a maior lição da vida: quem não se valoriza, será sempre apenas o patrocinador da festa dos outros.






