Estado de Alma
Maria da Conceição sentava-se à mesa da cozinha, a olhar pela janela. Lá fora, despontava a primavera, a chuva lavava as ruas de Lisboa, mas no seu peito era ainda um outono profundo. Três anos se passaram desde que o Manuel partiu, e o vazio não diminuía. Habituou-se à solidão, aceitou-a, mas dentro de si era como se alguém lhe tivesse tirado a engrenagem mais essencial: o relógio ainda marcava o tempo, mas aos solavancos.
Os filhos estavam longe. O António vivia no Porto, a Catarina em Braga. Os netos cresciam, cada um com a sua vida. Ligavam apenas nos aniversários ou enviavam fotografias pelo WhatsApp. Maria olhava para as imagens, esboçava um sorriso, e voltava a sentar-se junto da sua janela, de olhar perdido no bairro.
As vizinhas lá tentavam convencê-la a sair para um passeio, mas conversar sobre doenças num banco de jardim não lhe dizia nada. Antes, quando o Manuel estava vivo, passeavam juntos no Jardim da Estrela, ao domingo iam ao cinema ou à casa de amigos. Agora, sentia que já não havia motivo, nem companhia.
No frigorífico, só o essencial. Para uma pessoa só, precisava-se de pouco. Na televisão, telenovelas de amores perdidos e vidas complicadas, que apenas lhe davam mais saudade.
Maria, tu assim vais acabar mal suspirava a sua amiga Lurdes, que a visitava religiosamente uma vez por semana. Devias ir a um clube, inscrever-te em dança ou no grupo sénior! Aquilo é animado, pá!
Danças, Lurdes? Maria soltava um gesto de desdém. Dançar com quem? E para quê?
A Lurdes abanava a cabeça e partia. Maria voltava ao seu posto de vigia, à espera de não se sabe o quê.
***
No fim de maio, apareceu a neta, Matilde. Universitária do segundo ano, cheia de energia, sempre com os headphones pendurados ao pescoço. Entrou no apartamento, disruptiva como sempre:
Avó! Que saudades! Vim passar o verão contigo. Cansei-me de Lisboa. Quero silêncio e bolinhos teus!
Maria renasceu. A casa encheu-se: rissóis, sopa de feijão, pastéis de bacalhau. Matilde comia, ria, contava histórias da faculdade, das amigas, de um tal Simão que lhe roubava o sono mas não percebia indirectas.
E tu, avó, como vais? perguntou ela uma noite, entre goles de chá e colheradas de doce de abóbora.
Eu? suspirou Maria, Olha, cá continuo. Amanhã talvez lave as janelas.
Estás com saudades?
Muitas, Matilde. O teu avô faz-me falta.
Matilde olhou para ela com um brilho decidido:
Avó, que tal descarregarmos uma aplicação de encontros para ti?
Maria quase engasgou com o chá.
Estás doida, rapariga? Aos sessenta e oito, encontros? Não tenho idade para isso!
Mas há lá idade… Matilde respondia com a leveza própria da juventude. Aquilo está cheio de gente da tua geração. Quem sabe, pelo menos encontras alguém para dar um passeio.
Bobagens, Matilde. Quarenta e cinco anos com o teu avô e agora ia à pesca de homens no telemóvel? Que vergonha!
E quem é que precisa de saber? Matilde riu-se. É segredo. Anda lá, avó, só por graça!
Maria fingiu que não queria saber, mas, nessa noite, enquanto Matilde saiu para ir ter com as amigas, ela não resistiu. Pegou no telemóvel, instalou a aplicação. Pôs uma foto antiga cortou o Manuel de lado e escreveu: Maria, 68 anos. Procuro companhia para passeios e conversas.
E deixou estar.
***
Na manhã seguinte, o telefone apitou. Maria espreitou: mensagem na aplicação.
Olá, Maria. Sou a Júlia, tenho 64 anos. Também procuro companhia para caminhadas. Adoro passear nos jardins, mas falta-me alguém. Vamos conversar?
Leu a mensagem duas vezes. Júlia. Uma mulher. Não estava à espera.
Matilde! chamou. Vem cá, enviaram-me uma mensagem.
Deixa ver, avó! Olha que giro, é uma senhora da tua idade, convida-te para ir ao jardim.
E o que faço eu agora? Maria parecia perdida.
Vais, claro! Vai-te fazer bem.
Três dias depois, encontraram-se no Jardim do Príncipe Real. Maria nervosa como uma miúda, trocou de vestuário três vezes antes de sair mas foi como sempre: discreta.
Júlia era baixa, magra, com olhos vivos e gargalhada fácil. Atacou logo o silêncio:
Maria, isto de viver fechada em casa é uma má sorte. Vamos conversar! Fui casada também. O meu filho está na Suíça, só o vejo pelo Natal. Vamos ser amigas!
Falaram durante três horas: passearam, sentaram-se a um banco, depois mais voltas pelo jardim. Júlia também bordava, também via filmes antigos, também sentia saudade. E também não sabia como encher os dias.
Que tal voltarmos a encontrar-nos? propôs Júlia.
Pode ser sábado? respondeu Maria, surpreendida a sorrir de verdade.
***
Um mês depois, viam-se quase todos os dias. Jardim, cafés, passeios à beira-rio em Belém, tardes de conversa à volta do chá. Júlia tinha sempre uma ideia nova.
Olha lá, Maria, e se chamássemos mais alguém? Esta aplicação está cheia de mulheres como nós, sozinhas. Fazemos-nos companhia.
Companhia como? Maria estranhou.
Um clube! Caminhadas, chá, filmes, bordados. Quero experimentar marcha nórdica, diz que faz bem! Sozinha não tenho vontade, mas juntando-nos todas…
Maria ainda hesitou, mas Júlia puxou por ela. Em pouco tempo juntaram mais duas mulheres Filomena e Rosalina. Passadas semanas, já eram seis.
Assim nasceu o clube Passo Leve. O nome foi ideia da Filomena, antiga professora, que adorava organizar tudo.
Marcha nórdica à segunda, quarta e sexta! ordenava ela. Terças, chá e livros; quintas, cinema ou exposições. Fins-de-semana, livre, mas se apetecer, há sempre programa!
Maria começou apenas por participar. De repente, dava por si a gerir o grupo no WhatsApp, a inscrever novas sócias, a ser eleita coordenadora (graças à Filomena!).
Maria, tu tens jeito para liderar! elogiava Júlia. Sem ti nada acontecia.
Maria encolhia os ombros, mas por dentro sentia-se quente, viva.
***
O clube ficou famoso cá no bairro. Um jornalista jovem veio ouvi-las, fotografou-as, fez perguntas. Passados dias, saiu no jornal: Envelhecer Ativa: Seniores de Campo de Ourique não param!
Maria olhou o jornal desconfiada a sua foto, ao centro, de bastão em punho, um sorriso inesperado. Sorriso de juventude.
Depois, ligaram da televisão local.
Dona Maria, queremos fazer um programa sobre o vosso clube. Aceita?
Era contra, muito contra, mas Júlia e Filomena insistiram:
Maria, é importante, outras pessoas verão, pode mudar-lhes a vida! És a nossa inspiradora.
E aceitou.
As filmagens duraram três horas. A repórter, Sofia, simpática, perguntou de tudo desde o início do clube, às rotinas, ao sentido de comunidade.
Sabe disse Maria, olhando para a câmara , quando se perde alguém de quem gostamos, parece que a vida termina. Que já não fazemos falta. Os filhos longe Mas, na verdade, somos precisas. Se não para os outros, para nós mesmas. Encontrámo-nos aqui, e agora já temos motivo para levantar cedo: um passeio, um encontro, um novo dia.
O programa passou nas notícias regionais. O telefone de Maria não parou vizinhas, antigos colegas, até familiares esquecidos. Em pouco tempo, o grupo dobrou; chegaram vinte novas associadas.
***
Maria ia fazer setenta anos. Não queria festas. Que sentido fazia festejar a idade? Mas o clube não pensou assim.
Vamos fazer-te uma festa! anunciou Júlia. Música, danças, bolo. Tu és a nossa estrela!
Maria protestou, mas ficou sensibilizada. Comprou até um vestido novo azul, com pequenas flores, como usava em rapariga. Uns sapatos com pouco salto.
Nessa noite, o António ligou do Porto:
Mãe, vamos todos ao teu aniversário! Eu, a Ana e as crianças.
Mas como? O trabalho, a escola…
Tiramos uns dias. Queremos estar contigo, há muito que não nos vemos.
Nessa véspera, Maria adormeceu tarde, a pensar em tudo. Quando o filho entrou com a família, percebeu que os netos já eram adultos: o mais velho tinha dezoito, a mais nova quinze. Cresceram, mudaram tanto.
Avó! a neta atirou-se aos seus braços. Estás tão diferente… Pareces mais nova!
Maria riu-se:
Claro! Agora temos clube de envelhecimento ativo. Não há tempo para tristeza.
A festa foi num restaurante. Vieram quase todas as do clube vestidos alegres, flores, lembranças. Vieram vizinhos e antigos colegas. Júlia apresentou, Filomena leu poesia, Rosalina trouxe a guitarra para cantar fados.
O António olhava para a mãe, incrédulo. Três anos antes, era uma sombra. Agora
Mãe, és tu mesmo?
Sou, filho. Antes estava sozinha. Agora tenho amigas, tenho obrigações, acordar faz sentido novamente. Percebes?
Percebo, sim. Desculpa virmos tão poucas vezes…
Não te preocupes, a vida é vossa. Eu agora também tenho a minha.
Matilde ligou por videochamada:
Parabéns, avó! Lembras-te quando te falei da aplicação? Disseste que era disparate?
Disparate, sim senhora. Mas há disparates que mudam a vida.
***
Epílogo
Um ano depois, o clube Passo Leve era conhecido em Lisboa. Foram convidados a falar em conferências, a reportagens, organizavam clubes de bordado, pintura, até um pequeno grupo de teatro sénior.
Maria da Conceição tornou-se coordenadora-mor. Tinha ajuda, um calendário preenchido, planos até ao Natal.
O António e a família visitavam-na mais. Os netos mandavam fotos, pediam conselhos, partilhavam novidades pelo WhatsApp. Matilde, já licenciada, foi estagiar para um jornal local quer escrever sobre seniores ativos como a avó.
Avó, és o meu exemplo! dizia ela.
Maria sorri, do alto da sua varanda. Agora, já não vê o outono lá fora, só primavera de esperança.
A vida continua. E é bela.
Maria ainda guarda a tal aplicação no telemóvel. Por vezes espreita os perfis, mas já não procura mais ninguém. Já encontrou o mais importante: ela mesma. O resto vem por acréscimo.
Meninas diz às novas associadas, tímidas nos primeiros encontros , o segredo é não ter medo. A vida é longa, mais do que imaginamos. Podemos sempre recomeçar, em qualquer idade, mesmo quando parece tarde demais.
E todas acreditam. Porque à frente delas está uma mulher cheia de vida e alegria, que aos setenta se tornou a estrela do bairro. Que provou: a idade é só um número, e a vida é um estado de alma.







