Esta cerca é o único refúgio que não me afasta. Às vezes sinto que me apeguei…

30 de outubro Diário

Hoje o ritmo da cidade parecese com o som de uma marcha sem fim. As pessoas passam ao meu lado na Rua da Alfândega, umas apressadas, outras vagarosas, quase sem parar para notar o que se esconde entre o ferro oxidado da velha cerca e o calçada gastada. Sinto que os dias já não têm diferença; se todas as manhãs começam e terminam do mesmo jeito, os números perdem o sentido. Aqui, junto ao portão enferrujado, a única distinção entre o alvorecer e o crepúsculo é a maneira como a luz se infiltra nos entremeios da ferrugem.

A chuva e o vento já se tornaram tão familiares quanto a fome e o silêncio. Ainda assim, não me afasto. Essa cerca é o único ponto que não me empurra para fora. Por vezes sintome ligado a ela como antes estava ao velho lar da minha família. Ainda espero por algo por quem? Não sei ao certo.

A estreita faixa de terra onde a cerca range entre a rua e o passeio está coberta de lama misturada com água, e a chuva escorre lentamente pelos trilhos enferrujados. Os transeuntes seguem seu caminho: alguém corre, alguém caminha devagar, mas quase ninguém se detém. Quando lançam um olhar, é apenas por um instante, cansado ou indiferente. Para eles, eu sou apenas mais um cão abandonado, deixado à mercê da rua.

Mas eu me lembro de outro mundo. Um mundo onde o amanhecer cheira a pão recémassado. Uma pequena cozinha onde, ao me mover sob os pés, tentava alcançar a mesa. O calor do fogão no inverno, a risada da senhora da casa quando tropeçava no próprio pé. A mão macia que acariciava a minha cabeça.

Tudo começou a mudar lentamente. Primeiro, olhares frios e raros. Depois, uma tigela que ficava vazia com mais frequência. Gritos, palavras ásperas, empurrões. E, de repente, encontrei-me do lado de fora do limiar, sem despedida, sem explicação. A porta fechou-se de golpe e eu fiquei para fora.

Ai, pensei que fosse engano. Pensei que me chamariam logo. Mas a porta não se abriu, lembro-me de miar em pensamentos.

A rua tornouse minha escola: as lições eram golpes, arranhões, escavações entre pedras, migalhas encontradas à porta dos mercados. Às vezes conseguia roubar um pedaço de pão ou arrancar um osso de alguém gentil. Mesmo quando cruzava o olhar de um pedestre, guardava a esperança de que alguém dissesse: Vamos para casa?

O dia em que tudo mudou foi frio e úmido. A chuva caía desde a madrugada, o vento arrancava as folhas das oliveiras. Encolhido, sentia o frio percorrer cada osso. Foi então que ouvi passos. Uma mulher de sobretudo cinza avançava lentamente, como se não soubesse para onde ia. Quando me viu, parou.

Meu Deus pequenino, quem te fez sofrer assim? sussurrou ela.

Olhas para mim de forma diferente. Não como aqueles que passam ao acaso. Teus olhos têm calor, como os da dona que um dia chamei de patroa.

Ela se abaixou, mas não me tocou imediatamente. Tirou do saco um pedaço de pão e uma linguiça.

Aqui, come.

Hesitei, como se o chão pudesse desaparecer sob minhas patas. Peguei a comida e mastiguei devagar, saboreando cada pedaço como se temesse que fosse o último. Ela não se apressou; sentouse ao meu lado e observou.

Vamos murmurou, quase como um sussurro. Dentro está quente. Ninguém mais te machucará.

Você pode ser? E se amanhã a porta fechar novamente?

Mesmo com dúvidas, segui-a. O portão rangeu ao abrir e entramos num pequeno quintal. A velha cerca, agora caída, um pomar de macieiras desfolhado, a casa exalando o perfume de sopa e pão caseiro. O aroma foi tão intenso que, ao chegar ao limiar, meu coração congelou. A mulher estendeu uma manta sobre o chão, encheu um copo com água limpa e preparou uma tigela de papinha morna.

Este é o teu lar disse, acariciando-me a cabeça com delicadeza.

A noite quase me adormeceu. Deiteime, ouvindo o ranger dos passos dela pela casa, o tilintar dos utensílios na cozinha. Ela passava por mim vezes sem conta, ajeitando a manta e sussurrando:

Estás em casa, ouves?

Casa Temo tanto que nunca mais ouça essa palavra.

Os dias passaram de forma diferente. Ela já me esperava na porta, trazendo a bola gasta de quando eu ainda era filhote. Deitouse ao meu lado enquanto tomava chá, e eu escutava sua voz, mesmo sem compreender todas as palavras. Meu pelo ficou novamente macio, meus olhos claros.

Às vezes, ao passar pela velha cerca, paro e encaro o nada, como se ali ainda estivesse o antigo eu molhado, faminto, perdido. Ela se aproxima, coloca a mão no meu pescoço e diz:

Vamos para casa.

Sim agora sei exatamente onde fica.

Fecho este registro com o coração mais leve. Talvez ainda haja sombras ao longe, mas aprendi que há quem estenda a mão e ofereça mais que pão: um refúgio, um nome, um sentido. Amanhã, ao acordar, contarei ao mundo que, finalmente, encontrei meu lar.

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Esta cerca é o único refúgio que não me afasta. Às vezes sinto que me apeguei…