Espigas Douradas – Uma Homenagem à Nossa Tradição Rural Portuguesa

Olha, deixa-me contar-te uma história que se passou há mais de vinte e cinco anos, quando eu ainda era uma miúda cheia de sonhos e verdades absolutas. Naquela altura, o médico de família decidiu, contra a minha vontade, internar-me no serviço de medicina interna do hospital.

Eu tinha acabado de fazer vinte e três anos, o meu marido, o Joaquim, já com vinte e seis, trabalhava como engenheiro numa empresa em Lisboa e eu estava quase a terminar a licenciatura. Já andávamos casados há dois anos, mas ainda não tínhamos filhos fraldas e babygrows não faziam, para já, parte dos nossos planos.

Sempre achei que era uma esposa perfeita, exemplar até, só que cada vez via mais defeitos no Joaquim. Achava que ele passava demasiado tempo com a vespa dele e pouco comigo. E eu acreditava, de peito feito, que conseguiria mudá-lo. A verdade? Enganei-me. Era eu que tinha de mudar.

Depois de uma época de exames infernal, o meu corpo rebentou dores fortíssimas no estômago, enjoos sem fim, não conseguia comer nem beber nada.

Filha, olha que a saúde não se brinca disse-me o Dr. António, ajeitando os óculos na ponta do nariz e não te ponhas a discutir comigo, Margarida. Vais fazer exames a sério e ficas internada uns dias, está bem? Agora já não é problema meu, é da equipa da enfermaria.

Lá me deu ele o papel, e eu, chorosa e de lencinho na mão, fui dar entrada no hospital.

O quarto era partilhado com mais três senhoras duas já com os seus cinquenta e muitos, e uma velhota franzina e encolhida de idade indefinida, sempre com um lenço de algodão branco com bolinhas na cabeça. Chamava-se Dona Guilhermina, e os nomes das outras já me escapam.

Não me apetecia falar com ninguém, sentia que o mundo me devia tudo, especialmente o meu marido, que na minha cabeça só queria ver-se livre de mim e não fez força para que eu tratasse o estômago em ambulatório.

Deitada de lado na cama estreita, agarrada à barriga, deixava-me afogar na minha mágoa, amaldiçoando tudo e todos.

Leva as tuas caixinhas e frascos, não quero nada disso mandava eu ao Joaquim, quando ele aparecia com sacos de comida caseira.

Magui, o médico disse que peixe cozido faz-te bem, tenta ao menos provar respondia ele, paciente olha que eu esforcei-me! Pelo menos umas batatinhas, vá lá.

Nem penses respondia-lhe atravessada dá isso aos gatos da rua, que nem eles vão tocar nisso.

Ele dava um suspiro e saía, cabisbaixo, e eu ainda lhe atirava palavras azedas só para descarregar.

Não voltes cá mais, ouviste? sussurrava eu, cada vez que ele saía.

Mas o Joaquim aparecia sempre, antes e depois do trabalho, e todas as manhãs encontrava os frascos bem embrulhados num cobertor de flanela para manter a comida quentinha. E eu, que nunca fui de agradecer nada, não valorizava nem o amor nem a dedicação do meu marido.

Pergunto-me agora quando é que ele arranjava tempo para me cozinhar tanta coisa! Hoje reconheço o esforço… na altura, nem dei importância.

O tratamento não resultava, comprimidos e soros não faziam nada. Fui definhando, perdi peso, as faces encovadas, olheiras do tamanho de Alentejo. Depois de muitos exames, o diagnóstico: gastrite crónica. Achas doença grave? Eu dei comigo a provar-me.

Depois de acabar todos aqueles procedimentos chatos, só queria ficar deitada a olhar para o tecto. Ninguém se aproximava de mim só emanava má disposição e eu sabia, mas não conseguia evitar.

Um dia, ficámos só eu e a Dona Guilhermina, as outras tinham ido a casa.

Não dormes, Margarida? perguntou-me ela, voz baixa.

Não, dói-me a barriga respondi-lhe seca, enroscada para o outro lado.

Sabes, minha filha, eu venho cá três vezes por ano, só para manter o controlo. Também tenho esta gastrite, igual à tua, e trato disso em casa.

Vai dar-me uma palestra sobre alimentação saudável? disparei eu, malcriada não perca tempo, que já ouvi isso tudo antes.

Não querida, não vou. Foste tu que me fizeste lembrar de mim própria, há muito tempo… eu também era assim, irritadiça e teimosa.

Aos poucos, começava a ouvi-la. Pela primeira vez repara bem nela pequenina, com costas arqueadas, parecia uma personagem saída de um conto antigo. Mas que calor humano! Os olhos azuis irradiavam luz, quase translúcidos.

Lembrei-me que a Dona Guilhermina estava sempre a receber visitas pessoal de outras camas, enfermeiros, até médicos. Falavam-lhe dos seus problemas, ela ouvia, acenava compreensiva, dava um conselho na hora certa e despediam-se mais aliviados, uns a sorrir, outros a chorar, mas gratos. Ela recebia pequenas ofertas bolachas, iogurtes, tabletes de chocolate ou fruta, que ela agradecia sempre com sinceridade, como se fosse presente de rei.

Se estiveres disposta a ouvir, conto-te uma história minha disse, sorrindo só com os lábios, mas com olhos tristes. E havia tanto pesar neles que me senti envergonhada pela minha atitude mimada.

As rugas desapareceram por instantes e pareceu-me ver uma miúda indefesa ali sentada.

Peço desculpa, Dona Guilhermina. Quero mesmo ouvir a sua história.

Mas antes, prova da sopa de almôndegas disse, apontando para o frasco embrulhado.

Obedeci, cheia de desconfiança. Mas logo à primeira colherada, senti o estômago acalmar. A sopa estava boa! Acabei com meia taça e até agradeci.

Não comas muito de uma vez, já maltrataste o estômago que chegue. Pouco e muitas vezes, está bem? E lembra-te de respeitar quem tens em casa, especialmente o Joaquim. Ele ama-te. Não o fulmines com essas birras. Bom, chega de lições. Prometi-te a minha história, não foi?

A Dona Guilhermina bebeu um pouco de chá por uma caneca de alumínio e ensopou nela um pedaço de pão seco.

Cresci numa família enorme, éramos sete irmãos. O meu irmão Faustino morreu pequeno de tuberculose, a mais véla, Estrela, levou-a o tifo quando eu tinha uns sete anos começou o pai trabalha na moagem, a mãe ficava em casa a tratar de nós, era costureira e vestia meio povo lá da aldeia.

Adorava estudar, estava sempre de olhos nos livros e, quando acabei a escola, fui para o magistério formar-me professora. Mal terminei, voltei à terra e comecei a dar aulas. Tive muitos pretendentes, mas recusava todos com desdém.

Oh mãe, aquele Basílio, tratador de cavalos? Jamais. Cheira a feno, sempre sujo! E o Zé, alcoólico? E o Rodrigo, o tocador de concertina, ainda pior! Bem podiam pedir-me menos Eu dizia para a minha mãe que antes ficar solteira toda a vida que ser mulher de homem reles.

Os pais abanavam a cabeça, mas nunca conseguiram demover-me.

Até que chegou à aldeia, vinda de Lisboa, um jovem director de escola, o Dr. Ramiro alto, elegante, olhos claros. Conquistou o meu coração à primeira vista. As crianças adoravam-no, era paciente e muito justo. Dava explicações sem cobrar nada.

Casámo-nos depressa.

A mãe sempre a avisar-me: Guilhermina, não insultes o teu marido, sê dócil e esquece esse orgulho.

Mas eu teimava.

Trabalhámos juntos na escola. Três anos depois nasceu a nossa primeira filha, Rosa, muito frágil, problemas cardíacos. Aos onze anos, morreu, pouco antes da guerra. Segunda filha, Beatriz, igualzinha ao pai, linda e habilidosa.

O marido ia a Lisboa a reuniões e trazia-me tecidos, a mãe fazia-me vestidos. Fui sempre das mais arranjadas da aldeia, mas nunca estava satisfeita. Queixava-me da cor, do padrão, do tecido Nunca estava bem para mim.

Veio a fome de trinta e três. Dividíamos a comida do mês em minúsculas porções para durar. É por isso que hoje ainda guardo sementes de melão e melancia, não desperdiço nada.

Todos os dias, uma ou duas batatas para todos, um punhado de arroz, cebola, cenoura, alguma semente, um bocadinho de banha. Escondíamos tudo muito bem. Se comessemos tudo de uma vez, estávamos perdidos, como muitos vizinhos nossos.

Atrás da aldeia havia um campo de trigo, sempre guardado. A tentação de apanhar umas espigas era enorme, mas também o medo do castigo prisão se te apanhassem a roubar do campo do Estado.

Uma noite, com a barriga a dar horas e as crianças pedindo comida, eu e o Ramiro aventurámo-nos a ir buscar umas espigas.

De repente ouvimos passos e o tropel de cavalo era o guarda-do-campo! Largámos tudo e atirámo-nos para trás de um arbusto, no meio dos lilases. Por sorte, não nos descobriram.

Quando regressámos a casa, dei pela minha saia em falta. Caíra algures no campo. Era a única, toda a gente na aldeia reconhecia aquela saia Se a encontrassem, ficava feita. O pânico tomou conta de mim.

Chorei, e as meninas acordaram. Os três a chorar.

Basta! disse o Ramiro, seco vão para a cama, amanhã vejo isso.

De manhã, ele lá encontrou a minha saia. Salvou-me da prisão.

A Dona Guilhermina parou, secou uma lágrima e aconchegou-me o cobertor, continuando:

A partir desse dia respeitei o meu homem. Só mais tarde percebi o quão valioso era.

E depois? perguntei.

Depois? Continuámos a lutar, a passar dificuldades. Quando veio a guerra, o meu Ramiro foi voluntário para a frente e fiquei eu com a Beatriz. Os nazis ocuparam a aldeia, queimaram a nossa casa porque não colaborei. Fizeram horrores a minha menina morreu de desgosto. Estava grávida, perdi o filho.

Vi a Dona Guilhermina chorar baixinho. Dei-lhe um abraço apertado. Ficámos assim até de manhã.

Mais tarde, contou-me que após a guerra nunca encontrou o marido veio um papel a dizer desaparecido em combate. Andou de aldeia em aldeia, trabalhou em várias escolas de província. Quando se reformou, foi viver com a sobrinha em Lisboa, num T1. De vez em quando aparecia no hospital: era tratada, a sobrinha descansava e ainda poupava uns euros. Com a reforma, havia sempre um chocolate ou um agrado para a Tamara, a sobrinha, que dizia sempre que não precisava de nada, mas ficava contente como uma criança.

E eu ali, a olhar para ela, quase sem acreditar como era possível uma pessoa tão frágil ter tanta força, tanto amor e bondade acumulados. Tanta coisa que ela passou! E ainda assim dava força aos outros. Se lhe dissesse, ela achava normal. Mas eu? Sempre insatisfeita, com tudo o que preciso marido fantástico, família unida.

Pouco depois comecei a recuperar. O estômago sossegou, comi melhor. Passou um ano, e nasceu o nosso primeiro filho, o Miguel. Quatro anos depois, veio a menina, que chamámos Guilhermina em homenagem.

Sabes, desde então, parece que caiu finalmente a venda dos olhos. Passei a ver o meu Joaquim com outros olhos trabalhador, carinhoso, paciente. Tive de mudar (e muito!) para lhe dar o devido valor.

Quando passo-me da cabeça com o marido, lembro-me sempre das palavras da Dona Guilhermina e de como o Joaquim cuidou de mim, naqueles dias maus. E sabes que mais? Desde que comecei a ajudar outras pessoas, sou bem mais feliz.

Às vezes penso, amiga, se calhar o meu estômago é que não aguentou tanto amuo Que dizes?

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