Espera um instante disse ele. Saí da estação da sua gente por um segundo e, quando tornei ao comboio, a minha bagagem já não estava. Olhei pela janela e vi um sujeito a caminhar com a minha mala. Lançeime atrás dele, mas desaparecera antes que o alcançasse
E por que não regressaste ao comboio antes de resolver o assunto? indagou Lurdes, ainda ofegante.
Entende, eu ainda procurava o ladrão, e o meu comboio partiu
Lurdes voltava cansada do seu turno. Trabalhava numa pequena floricultura no coração de Lisboa. Sempre havia clientela, sobretudo na época do Natal, quando a cidade se enche de luzes e de gente à procura de buquês e ramos festivos.
O inverno era rigoroso; a neve caía todos os dias. Lurdes avançava pela calçada, enrolada num casaco de lã quente.
Ainda não havia tido tempo de sentar. Passava o dia a andar, a sonhar com o momento de chegar a casa e deitar na cadeira e fechar os olhos.
Perdeu-se em pensamentos e nem percebeu quando um desconhecido se aproximou. Parou, virouse e fitou o homem à sua frente.
Era um sujeito de uns quarenta anos, vestido de maneira algo excêntrica. Lurdes deu um passo ao lado, tentando contornálo.
Com licença, poderia ajudarme? perguntou o estranho, de súbito.
Ela ficou surpreendida.
Eu o homem balançou a cabeça e fechou os olhos por um instante. Vim de comboio para encontrar a minha filha. E aconteceu isto
O homem parou um segundo e lançoulhe um olhar triste. Lurdes tentou novamente desviarse.
Aguarde disse ele. Desci da estação por um minuto; quando voltei ao vagão, as minhas coisas já tinham sumido. Olhei pela janela e vi alguém a levar a mala. Corri atrás, mas o homem desapareceu
Por que não voltou ao comboio para depois tratar do caso? perguntou Lurdes.
Enquanto procurava aquele sujeito, o comboio partiu
Então devia ter pedido ajuda a alguém começou a irritarse Lurdes.
Pedi ajuda por todo o lado. Disseramme esperar. O próximo comboio só chega dentro de algumas horas. Não queria ficar à espera na estação. Dentro da mala tinha tudo roupa, documentos, dinheiro Precisava lavarme e aquecerme Tudo irei devolverlhe implorou o homem, fitando Lurdes com olhos suplicantes.
E se lhe desse as chaves do apartamento? rebeliu Lurdes.
E lá vai estar também. Todos fogem de mim. Senhor, por que ninguém me crê? ergueu a cabeça, lançandolhe um olhar melancólico ao céu, tão triste que Lurdes sentiu pena dele.
Ela avaliouo com um olhar crítico.
Mal vestia Talvez realmente tivesse coisas na mala Mas falava e comportavase normalmente.
Muito bem. Venha comigo, senão vai ficar sem se aquecer. Vou ver o que consigo fazer com a roupa.
Obrigado. É muito amável. Ninguém me ouve respondeu ele, seguindoa.
Entraram no apartamento e Lurdes sentouse numa pequena cadeira no corredor. O sono puxavaa.
Vá ao banho acenou Lurdes na direção da porta estreita. Enquanto isso procuro a roupa para si. Como se chama, a propósito?
Mário respondeu ele, fechando a porta do lavabo.
Logo ouviuse o som da água a correr.
Lurdes suspirou. O descanso que tanto almejava foi adiado.
Não se preocupe, não vai faltar nada disse, recolhendo o que precisava. O meu irmão tem parte da roupa aqui em casa.
Colocou as peças numa cômoda do corredor, encheu um prato de sopa e pôsa no forno microondas. Sentouse na cadeira e começou a refletir. Se a mãe chegasse agora, poderia interpretar tudo mal. E se, ao aquecer a comida, alguém a visse na casa a lavarse?
Senhor, que a minha mãe se atrase na loja ou na casa da amiga rezou Lurdes em silêncio.
Mas o Senhor parecia ocupado com outras coisas e não ouviu.
O fechar da porta fezse ouvir.
Lurdes, já está em casa? chamou a mãe, do outro lado da cozinha. Pensei que fosse você no lavabo. Quem será então quem se lava ali? ela fitou a filha, franzindo a testa.
Mãe, não grite. O homem ficou retido no comboio. Vai arrumarse e depois vai embora tentou Lurdes explicar suavemente.
Você já lhe preparou a roupa do filho? O que aconteceu?
Já disse, ficou retido no comboio. As coisas desapareceram.
Senhor! E ainda o trouxe para casa? Você nem o conhece! Não pensou nas consequências? Se eu não tivesse voltado cedo Devo ligar para alguém? a mãe agitouse.
Mãe, não fale disparates. Ele já esteve em todo o lado. Esperar o comboio demora. Vai lavarse e parte repetiu Lurdes, mais calma.
O som da água cessou. A porta abriuse e fechouse outra vez.
Pegou a roupa deduziu Lurdes.
A mãe sentouse, de frente para a entrada, a aguardar.
Poucos minutos depois, Mário apareceu na cozinha. Cumprimentouse timidamente, com um ar de culpa. Lurdes percebeu que ele tinha ouvido a conversa.
Diga, como é que pode acontecer a um homem tão forte e saudável? indagou a mãe, olhandoo nos olhos.
Peço desculpa por incomodar. Eu vinha para o casamento da minha filha em Porto. E agora não tenho telefone, nem documentos, nem dinheiro gesticulou ele, desesperado.
Mas como é que chegou até aqui? Não vivemos perto da estação perguntou a mãe.
Mãe! Dê-lhe algo para comer. Por que tanto interrogatório? retorquiu Lurdes, irritada. Sentese à mesa, Mário, a sopa está quente.
Quando eu era pequena, recolhia gatos e cachorros nas ruas; agora levo homens para casa a mãe se afastou, abrindo espaço na mesa.
Coma, Mário. Mas seja cuidadoso. Se agradar a minha mãe, não sairá daqui Lurdes respondeu, com um toque de sarcasmo.
Passas o dia no trabalho, sem vida pessoal. Vais fazer trinta anos logo, é hora de casar. Como não me preocupar se não estás comprometida comigo? brincou a mãe.
Mãe, basta. Mário vai pensar que o vamos casar de verdade zombou Lurdes.
Não se preocupe tranquilizou Lurdes o homem.
Ah, deixemnos em paz abanou a mãe, dirigindose ao quarto.
A sua mãe é séria comentou Mário, ao deixar o prato.
Foi ela quem me criou sozinha com o meu irmão. Teme que eu fique sozinha com um filho nos braços, como ela.
Entendo. Onde trabalha?
Na floricultura. Mas como é que compra o bilhete sem passaporte e sem dinheiro? indagou Lurdes, curiosa.
Prometeramme ajuda. Posso usar o telefone? Quero chamar a filha, avisar que não chegarei ao casamento, e também o amigo
Agora respondeu Lurdes, a caminho do quarto.
Mãe, o que está a fazer? gritou a mãe, tirando de uma caixa uma aliança de ouro e alguns bijuterias.
Calate sussurrou a mãe. E se ele Não sei quem? Levoa para a tia Marta e saiu para o corredor.
Lurdes não a impediu. Era inútil.
Lurdes colocou o telemóvel sobre a mesa à frente de Mário e ficou junto à janela.
Mário ligou à filha; o semblante dele mostrou que a jovem estava desapontada por ele não ir ao casamento.
Depois telefonou a alguém e pediu o endereço da casa.
Olha, o motorista já vem. Não devia ter vindo de todo. A esposa não queria que eu a apresentasse ao novo marido. A filha convidoume. Foi tudo à toa lamentou Mário.
E quem é você, se o motorista vem? perguntou Lurdes, intrigada.
Mário começou a lhe agradar. Mesmo com a roupa do irmão, parecia apresentável, embora fosse um pouco magrelo.
Tenho uma pequena empresa de reparação de eletrodomésticos com um amigo. Só o amigo me impediu de ir de carro, dizendo que não conhecia bem o Porto e que, no casamento, não seria adequado.
Acabei por pegar o comboio. Melhor teria sido ir de avião. Aguardem mais algumas horas e partirei argumentou, tentando convencerse a si próprio e a Lurdes.
Lurdes observava Mário e lembravase de que a mãe tinha razão. Se ela chegasse a casa depois do trabalho e fosse recebido por um homem, talvez os filhos esperassem por ela. A vida teria mais sentido.
Quase tinha trinta anos e ainda vivia com a mãe, sem perspectivas à vista.
Lembrome de Leonor, o amor que terminou antes do casamento. Quando a encontrara, ela estava com a amiga Perdeu o noivo e a amiga ao mesmo tempo.
Você tem bondade. Vai ficar tudo bem disse Mário, interrompendo o seu devaneio.
E você? Como pode estar só, quando tudo parece estar ao seu lado? Até negócio tem respaldo.
Ah, percebi que fui ao casamento sozinho. Também sou esperto. Não saiu como planeado. Divorciado, não encontrei nada igual ao que tem. As mulheres de hoje são cautelosas, e os homens ainda mais. Está cansada do trabalho e eu não lhe dei descanso. Peço perdão. Foi um golpe ao seu destino.
Conversaram ainda por muito tempo. Do lado de fora, a noite escurecia quando o telemóvel voltou a tocar.
Sou eu. O Sasha deve ter chegado desculpouse Mário, pegando o telemóvel de Lurdes.
Irá embora e nunca mais o verei. Os dias monótonos voltarão pensou ela.
A carrinha está ao nível da rua. Muito obrigada pôs o telefone na mesa e levantouse.
Anotei o número. Caso precise, pode contar comigo. Vou devolver a roupa, não se preocupe. Peça perdão à sua mãe por mim; ela deve achar que sou alguém sinistro Mário olhounos olhos tristes, e Lurdes quase chorou.
Um estranho casual, porém ela não queria que ele partisse. Quem eram eles um do outro? Lurdes sorriu.
Não se meta em situações assim novamente.
Não. Daqui para frente viajo só de carro ou avião. Nada de comboios Mário riu.
Lurdes observou, entre as sombras do inverno, Mário sair do portal, parar junto ao carro, acenar pela janela.
É isso. Amanhã nem se lembrará de mim
Deixouo ir? perguntou a mãe, ao voltar ao corredor.
Está a reprovar o fato de eu têlo trazido para casa e agora perguntar por que o deixei ir Lurdes tentou não demonstrar a tristeza.
Ele é um bom homem. Dá para ver.
Por que então escondeu as bijuterias?
Porque fui tola suspirou a mãe.
Três semanas se passaram. Na véspera do AnoNovo, Lurdes já achava que Mário lhe aparecia em sonhos.
Tudo parecia surreal.
No dia 31 de dezembro, trabalhou até tarde na floricultura. O proprietário pediu desculpas, prometendo ajudar pessoalmente, pois a clientela seria enorme.
Lurdes olhou pela janela e viu, ao lado da loja, um verdadeiro Pai Natal.
Vestido de vermelho, com chapéu, barba branca e um saco enorme, distribuía doces aos transeuntes.
A porta abriuse e ele entrou. A voz tinha um timbre familiar para Lurdes.
Sabia que trabalhava aqui, então decidi animarlhe o espírito. Aconteceu? disse ele, esperançoso.
Aconteceu riu Lurdes.
Vejo que hoje terei de trabalhar sozinho o proprietário suspirou exageradamente. Vá, Lurdes, vá para casa com o Pai Natal. Eu consigo aqui. Aproveite a vida.
Lurdes não precisou de persuasão.
Um mês depois, abandonou o emprego e mudouse para o Porto, para ficar com Mário
A mãe ficou feliz.
A filha encontrou uma posição, agora pode ficar tranquila. Quem mais vai cuidar dos netos? A avó?
Tudo o que é mau costuma chamarse destino, e o que é bom, sorte. Normalmente, um não vem sem o outro.
Gostei da sua bondade. Tudo vai acabar bem disse Mário, encerrando a história que eu ainda lembrava com o coração apertado.
