— Espere — disse ele.

Querido diário,

Hoje o fim de tarde chegou gelado, como se a Serra da Estrela tivesse decidido invadir as ruas de Lisboa. A neve que raramente vemos cobriu as calçadas, e eu, que ainda não me acostumei a usar o casaco de lã que a Inês compra para mim, caminhei com o nariz vermelho e as mãos dentro dos bolsos.

Inês aquela moça de nome só nosso, raramente ouvido fora de Portugal terminou o turno no pequeno floricultivo da Rua da Moeda, bem no coração da cidade. O comércio estava lotado, especialmente antes do Ano Novo, quando todo o mundo procura buquês para presentear. Ela ainda não teve tempo nem de sentar; só pensava em chegar a casa, colocar os pés no sofá e cair no sono.

Enquanto avançava apressada, perdeu a noção do tempo e não percebeu o homem que surgia ao seu lado. Era um senhor de quarenta e poucos anos, vestindo um sobretudo meio fora da moda. Inês tentou desviar, mas ele a interrompeu:

Desculpe, poderá ajudar-me?

Ele parecia perplexo, como se estivesse a procurar algo que já não tinha.

Eu começou a dizer, balançando a cabeça, fechando os olhos por um instante. Estava a caminho da filha, de comboio. E aconteceu isto

Ele fez uma pausa, fitando Inês com um olhar triste. Ela, ainda desconfiada, deu um passo para trás.

Espere continuou ele, a voz tremendo . Saí da estação da Santa Apolónia por um minuto, voltei ao comboio e os meus pertences desapareceram. Olhei pela janela e vi outro homem a caminhar com a minha mala. Corri atrás, mas ele já tinha sumido.

E não pôde simplesmente voltar ao comboio e depois resolver? indagou Inês.

Enquanto procurava aquele ladrão, o comboio partiu respondeu ele, visivelmente irritado. Fui a todas as bilheteiras; disseramme para esperar. O próximo comboio só chega daqui a algumas horas. No meu saco estavam roupa, documentos e o dinheiro: 120 euros. Preciso de um banho, de me aquecer Devolverei tudo a você, se puder ajudar.

E as chaves do apartamento? protestou Inês, a paciência a escassear. Por que ninguém acredita em mim? o homem lamentou, olhando o céu como se lá estivesse a resposta.

Olhei o seu vestuário, todo desalinhado, mas percebi que não era um trapaceiro. Decidi então ser prática:

Muito bem. Venha comigo, caso contrário vai ficar ainda mais frio. Vou tentar resolver o seu problema de roupa.

Ele agradeceu, ainda com um ar de quem não encontrava ajuda em mais ninguém. Dirigiuse ao meu pequeno apartamento, e eu sentei-me num banquinho no corredor, exausta e à beira do sono.

Vá ao banheiro indiquei, apontando para a porta estreita enquanto procuro algo para vestiro. Como se chama, aliás?

Miguel respondeu ele, fechandose na casa de banho e ligando o chuveiro.

O som da água começou a ecoar. Inês suspirou, pois o seu descanso tinha de esperar. O meu irmão, que vive em Paris, ainda não me enviou roupas, mas prometeu que chegariam logo.

Quando o banho cessou, Miguel saiu e eu coloquei a roupa que tinha preparado no armário do corredor. Fiz o jantar: uma sopa de legumes que aquece o coração. Enquanto a aquecia no microondas, imaginei a reação da minha mãe se ela chegasse agora. Rezei, silenciosa, para que a mãe ficasse presa na farmácia ou na casa da amiga.

De repente, o telefone tocou. Era a mãe, a voz cheia de preocupação:

Inês, já estás em casa? gritou do outro lado da porta da cozinha. Pensei que eras tu no banheiro! Quem está a ensaboarse aí?

Tentei explicar com calma:

Mãe, o homem atrasouse ao comboio. Vai organizarse e partirá.

Será que lhe preparaste a roupa do teu filho, Alexandre? O que aconteceu?

Digolhe que o comboio foi embora e que tudo foi perdido.

Meu Deus, e ainda o trouxeste para casa? Nem o conheces! Não pensaste nas consequências? Cheguei a tempo de voltar, mas deveríamos talvez chamar a polícia?

Mãe, não fale nonsense. Já procureio por toda a parte. O comboio ainda não chegou. Ele vai lavarse e depois irseá repeti, mais baixa.

O barulho da água já não se ouvia. As portas abriramse e fecharamse de novo. Inês pressentiu que Miguel tinha pegado na roupa.

Logo, Miguel entrou na cozinha, visivelmente envergonhado, mas ainda tentando parecer educado. Inês percebeu que ele tinha ouvido a nossa conversa.

Então, como é que um homem forte e bemfeito chega a esta situação? perguntou a mãe, a olhar-lhe nos olhos.

Peço desculpa por incomodar. Eu ia à Lisboa para o casamento da minha filha em Ovar, e agora não tenho telemóvel, documentos, nem dinheiro ele gesticulou, desesperado.

Como é que chegou aqui? Não mora perto da estação indagou a mãe.

Mãe! Deixame comer algo. Por que insistes em me interrogar? protestou Inês, irritada. Sentese à mesa, Miguel, a sopa está quente.

Quando era pequena, recolhia gatos e cães da rua, e agora levo homens para casa comentou a mãe, afastandose para abrir uma cadeira.

Coma, Miguel. Mas cuidado. Se a minha mãe gostar de ti, talvez nunca partas mais disse Inês, num tom de sarcasmo disfarçado.

Depois de um breve debate sobre a sua vida de solteiro e a pressão da idade, a mãe saiu, deixandonos a nós dois.

Miguel explicou que trabalhava numa pequena oficina de reparação de eletrodomésticos com um amigo. O comboio que o deveria levar de volta a Ovar só chegaria de madrugada, então ele preferiu ficar aqui, mesmo que fosse incómodo.

Inês, ainda cansada, pensou nas suas próprias perspectivas: quase trinta, ainda vivia com a mãe, sem grandes projetos. Recordou o antigo amor, Leonel, que a abandonou no dia do casamento, junto com a sua melhor amiga. Sentiu o peso da solidão.

Miguel, ao perceber o clima, tentou aliviar:

Você é muito boa. Vai ficar tudo bem.

Ele então recebeu uma chamada. Era o seu filho, a chamaro de volta ao casamento. Miguel pareceu triste, mas aceitou a situação:

Vou partir amanhã. Não volte a usar comboios; prefiro carro ou avião. Não quero mais esse tipo de peripécia.

Ao anoitecer, enquanto a nevasca diminuía, Miguel saiu do prédio, despediuse da janela e acenou. A mãe, ao voltar ao corredor, perguntou:

Deixouo ir embora? Olhoume, buscando resposta.

Sim, deixei respondi, tentando não demonstrar tristeza. Foi a melhor decisão.

Três semanas depois, na véspera do Ano Novo, Inês ainda se lembrava de Miguel como se fosse um sonho. No dia 31 de dezembro, trabalhei até tarde na floricultura; o proprietário pediume que continuasse a atender sozinha, pois os clientes eram poucos mas exigentes.

Ao olhar pela janela, vi alguém alta, vestida de vermelho, com barba branca e um saco enorme nos ombros o verdadeiro Pai Natal, trazendo doces para as crianças da rua. Ele entrou na loja, cumprimentou o dono com uma voz que me pareceu familiar.

Sabia que trabalhas aqui, e decidi trazer um pouco de alegria disse ele, sorrindo.

Obrigado, trouxeme mesmo ânimo respondi, rindo.

O dono, ainda cansado, exclamou:

Hoje vou trabalhar sozinho. Vá para casa, Inês, e aproveite a noite.

Não precisei de mais convites. No mês seguinte deixei o emprego e mudeime para o Porto, onde encontrei Miguel novamente, desta vez como um parceiro de vida, e a mãe ficou feliz ao vernos juntos, afinal, a filha encontrou estabilidade.

Aprendi que, por mais inesperados e desconfortáveis que sejam os encontros e as perdas, a vida sempre oferece novas portas basta ter a coragem de abrilas.

Hoje, ao fechar este diário, percebo que a paciência e a empatia são os maiores presentes que podemos dar a nós mesmos e aos outros. A lição que levo comigo é simples: quando surgirem obstáculos, não fuje da situação para evitar o desconforto; enfrenteos, pois é no meio do caos que se constrói a nossa força interior.

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— Espere — disse ele.