– Então, vocês vão me mandar de volta ao orfanato?

Então, vão-me devolver ao lar de acolhimento? A tia disse que foram precipitadas, levaramme antes de saber que ia nascer um bebé. Eu não sou da família

Mariana estava ao lado do fogão, a fazer panquecas. Em breve o marido chegaria do trabalho e toda a família ia jantar junta.

Era estranho o Tiago estar tão quieto no seu quarto hoje. Normalmente, quando Mariana preparava as suas panquecas favoritas, o filho girava ao lado dela, fitavaa nos olhos e pedia:

Mamã, posso mais uma?

Mariana davalhe, Tiago parecia já satisfeito, mas logo voltava, com um sorriso enorme, a esfregar cada dobradura da panqueca e repetia:

Mamã, mais uma, por favor!

Mariana percebia que Tiago já estava cheio; ele só queria continuar a ouvir aquela palavra quente e extraordinariamente bela mamã. Antes, ela deixava a espátula e as panquecas de lado, pegava o filho nos braços; ele ainda não era muito pesado, Tiago tinha só cinco anos. Dizia-lhe:

Então, meu amor, vamos receber o papá do trabalho?

E Tiago respondia, radiante:

Sim, mamã, vamos receber o papá! nos seus olhos brilhava o entusiasmo, ainda não habituado a essas palavras maravilhosas; nunca fora antes filho de mãe e pai, e agora, enfim, tinha-os.

Tiago agora tinha o seu próprio quarto e a sua cama. O pai lhe comprara ainda uma parede de diversão com baloiços! Também havia carrinhos, um robô, um conjunto de construção e muitas outras brincadeiras, tudo só dele, Tiago, e de ninguém mais. Ao cair da noite, a mãe lia-lhe histórias, acarinhava-lhe a cabeça e dizia que o amava. Tiago já estava quase saturado desse amor e quase se esquecia do que havia antes.

Mariana tentou chamar o filho, mas o miúdo empurroulhe de repente a barriguinha.

Mariana colocou a mão e o bebé empurroulhe outra vez.

Senhor, Mariana reza todos os dias por este presente inesperado, que tudo corra bem. Já tinham escolhido um nome para a menina, Nuno sugeriu: Catarina. O avó da mãe chamavase Catarina.

Contavam a Mariana que ela não poderia ter os seus próprios filhos e que ela e Nuno levaram Tiago ao lar de acolhimento; um ano depois, apareceu a menina, prestes a nascer!

Mariana sonhava acordada e quase se esqueceu de virar a panqueca. Chamou o filho:

Tiago, meu filho, vem logo, por que estás tão calado hoje?

Mas o silêncio permaneceu. Será que não ouvira?

Mariana desligou o fogão e foi para o quarto da criança.

Estranhamente, nem a luz do quarto estava acesa. Onde estaria Tiago?

Então, ouviu um barulho. Acendeu a luz e viu Tiago sentado no sofá, com casaco e chapéu. Nas mãos trazia uma mochila totalmente cheia dos seus carrinhos favoritos.

O que fazes na escuridão? exclamou Mariana, rindo. Levantate e tirate o casaco, vais fugir? Vamos comer as panquecas com natas e leite condensado, vem, Tiago, o que se passa?

Tiago não sorriu; fitava um ponto fixo com olhos de adulto e, de repente, perguntou:

Posso levar estes brinquedos comigo? Ela não vai precisar das carrinhas?

O que dizes, Tiago? O que se passa, filho? As palavras escaparam de Mariana e as mãos caíram. Será que era uma má mãe e Tiago não sentia o seu amor? Talvez estivesse com ciúmes da irmã que ia nascer? Estranho, porque ontem ainda se alegrava.

Então, vão me devolver ao lar de acolhimento? A tia disse que foram precipitadas, levaramme antes de saber que ia nascer um bebé. Eu não sou da família

Os olhos de Tiago brilhavam de lágrimas, quase a perder o controlo, olhando para o lado.

Tiago, filho, que é isso? Que tia? Lembrouse Mariana de ter encontrado a vizinha nos últimos dias. Começou a dizer que, graças a Deus, o bebé ia nascer logo, mas ficou a mastigar as palavras e lançoulhe o olhar. Foi precipitado, Mariquinha, foi precipitado!

Mas Mariana sabia que Tiago ainda não compreendia. Despediuse da vizinha sem discutir. Tiago, porém, tinha entendido tudo.

Pensou então que era estranho sentirse estranho, só.

Mariana abraçou o rapaz rapidamente; no início ele a empurrava, mas depois desabou nos braços dela e chorou.

Filho, não tens de entender agora, essa tia não sabe nada. O papá e eu amamos-te muito e nunca te entregaremos a ninguém!

Tiroulhe o chapéu e o casaco; ainda abraçados, ficaram em silêncio no sofá.

Quando Catarina nasceu, Tiago e o pai ficaram sozinhos a cuidar da casa, depois foram buscar a mãe e a irmãzinha.

Tiago ficou preocupado, temendo não agradar à irmã.

Mas ao ver o quão pequena ela era, riuse com ternura. Mamã, como pode estar tão pequeninha sem um irmão maior? Vou ensinála a brincar com os carrinhos; vamos divertirnos juntos!

Agora Tiago não larga a irmã, espera ela crescer, e os pais vão mudar Catarina para o seu quarto.

Por enquanto, ele é o primeiro ajudante da mãe

Naquela tarde, a mãe chamouo:

Filho, Tiago, arrumei a Catarina, vamos receber o papá mais depressa.

Tiago já estava vestido, pronto na porta:

Mamã, seguro a porta, sai com a carrinha!

Desceram de elevador e, ao sair, a mesma mulher entrou no prédio.

Tiago apertou a mão de Mariana como se quisesse protegera.

Filho, tu és o homem da casa, ajuda a tia, chama o elevador, tem as malas pesadas.

Claro, mamã! Tiago, orgulhoso, viu a mulher com as malas, chamou o elevador e correu atrás da mãe.

No fim de semana iriam todos ao parque. Era uma pena que Catarina ainda fosse pequena, mas cresceria e iriam juntos nos carrosséis. Tiago, como irmão maior, seguraria firme a irmã se ela se assustasse. Afinal, eles são irmãos para sempre.

**Lição:** A família não se mede pelo laço de sangue, mas pelo amor e pela atenção que damos uns aos outros. Quando cuidamos dos pequenos com o coração aberto, construímos laços que duram toda a vida.

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– Então, vocês vão me mandar de volta ao orfanato?