Então És Tu Quem Deve Pedir Desculpa

Compraram uma casa com empréstimo? exclamou Dalila, euforia derramando-se pela sala. Que maravilha, minha filha! Simplesmente fantástico!

Catarina riu do outro lado da linha, e Dalila ouviu o genro dizer algo ao fundo.

Mãe, não grites tanto, os vizinhos vão ouvir…
Que oiçam! sorriu Dalila, um brilho nos olhos. Então, quando posso ir ver? Hoje? Amanhã? Faço aquele bolo de maçã que o Tomás adora.

Catarina hesitou um instante.

Vem sábado, até lá arrumamos a mobília.

No sábado, Dalila rodopiava no centro da sala iluminada, olhos atentos ao pé-direito alto, às janelas largas, ao reboco fresco nas paredes. O prédio novo cheirava a tinta e madeira húmida.

Cozinha enorme, imaginas? Catarina conduziu a mãe pelo corredor. E a varanda já está envidraçada, depois dá para deixar lá o carrinho do bebé.
Uma beleza, Dalila passou a mão pela parede. Tomás, fizeste um bom trabalho!

Ele apenas encolheu os ombros.

Fazemos os possíveis, dona Dalila.

Durante o almoço, quando pegou na segunda fatia de bolo, Dalila deixou escapar aquilo que mastigava desde o amanhecer:

Preocupei-me tanto convosco, não imaginas. Catarina grávida de sete meses, vocês num apartamento alugado onde a senhoria podia pedir-vos para sair a qualquer momento. Isso não é vida!

Catarina trocou um olhar rápido com Tomás, e Dalila reparou nos lábios apertados da filha.

Mãe, dávamo-nos bem.
Dávam-se… Dalila pousou o garfo. Mas eu, de noite, sem dormir, só a pensar como haveria de ser se algo acontecesse. Uma criança precisa de estabilidade, de uma casa sua.

Tomás tossiu, afastando o prato.

A prestação é puxada. Mas fizemos bem as contas.
Muito puxada? Dalila aguçou o ouvido.
Normal, atalhou Catarina. Para Lisboa, um valor normal.

Dalila olhou a filha, os ombros tensos, e Tomás fixo no padrão da toalha. Percebeu então que ambos sentiam receio, mesmo sem admitirem.

Ouçam, disse Dalila séria. Eu vou ajudar, nem se discute. E os pais do Tomás também vão ajudar, não vão?
Prometeram, confirmou Tomás. A minha mãe disse que todos os meses nos dá o que conseguir.
Vês? Dalila recostou-se na cadeira. Vão conseguir, juntos. Ninguém está sozinho no mundo.

Catarina sorriu de leve mas a preocupação não se dissipou dos olhos…

O Gustavo nasceu em março, robusto, barulhento, vigoroso. Dalila ia lá todas as semanas, cozinhava sopas, lavava fraldas, passeava o neto no carrinho novo pelos jardins do prédio.

A vida voltou à rotina. Tomás recebeu uma promoção, e Catarina começou a falar num segundo filho.

Dois anos depois veio a Matilde, e o apartamento encheu-se de risadas, brinquedos espalhados, noites sem dormir. Dalila olhava a felicidade da filha e sentia que tudo estava no lugar.

Depois, Tomás foi despedido.

Dalila não soube logo. Catarina fugia ao assunto, dizia que estavam só cansados. A verdade caiu por acaso, quando Dalila apareceu de surpresa e encontrou a filha perdida em lágrimas, cercada de papelada.

Não conseguimos, mãe, confessou Catarina em voz baixa. Três meses em atraso. O banco liga todos os dias.

Dalila ajudou quanto pôde, juntando euros entre familiares e conhecidos, mas não bastava. Os pais de Tomás mal se aguentavam depois do sogro ter ido parar ao hospital.

Seis meses depois, o banco tomou-lhes a casa…

Dalila sentava-se em casa da amiga Graça sem conseguir tocar no chá.

Vivem agora num T1, apertava a chávena nas mãos. Dois miúdos, Graça. O Gustavo com quatro anos, a Matilde com dois. Não têm onde crescer, correr, andam em cima uns dos outros! Quatro pessoas, uma só divisão!

Graça abanou a cabeça.

Meu Deus, Dalila, que tormento!
Disse-lhes que conseguiam, Dalila limpou uma lágrima. Prometi ajudar. Que posso eu? A reforma é uma miséria, os biscates aparecem pouco. Fui eu que os convenci que tudo ia correr bem!
Ninguém sabe o que a vida reserva.
E isso muda alguma coisa? Dalila deixou de lado a chávena. Fica mais leve para as crianças? Para a Catarina?

Escondeu o rosto nas mãos. Pensava que a vida da filha, da família, estava reconstruída. Mas só pioraram. Antes, ao menos, viviam sozinhos num aluguer. Agora, eram quatro, apertados.

O tempo passou…

Finalmente, Catarina e Tomás pagaram o que deviam ao banco. Aquela notícia foi o melhor respiro em anos.

E agora? perguntou Dalila.
Voltamos a poupar para a nossa casinha, confessou Catarina. Talvez algo mais modesto desta vez.
Que seja, Dalila assentiu, mesmo sem a filha ver. O importante é que seja vosso.

Mais dois anos passaram. Gustavo fez seis, e Dalila apareceu na festa do neto com uma caixa gigante debaixo do braço. Passara três horas a escolher um brinquedo: encontrou finalmente o tal, que vinha com carrinhos e garagem, sonho do Gustavo desde dezembro.

Avó! o pequeno saltou-lhe ao pescoço. É para mim?
Para ti, meu amor, e pousou-lhe um beijo no cabelo. Espera, há mais.

Tirou do saco um envelope e estendeu-lhe. Gustavo espreitou e arregalou os olhos.

Quanto é?
Mil euros, Dalila agachou. Querias um telemóvel novo, não era? Agora podes começar a poupar. A avó ajuda.

O rapaz correu a mostrar os presentes à Matilde. Catarina observava de longe, imóvel, mas Dalila não notou o estranho lume no olhar da filha.

Duas semanas depois, Dalila ligou ao neto. Ele atendeu ao terceiro toque.

Olá, avó!
Olá, querido! Como estás? Tudo bem?
Bem! despejou Gustavo. Compraram-me roupa nova de verão, calções, t-shirts e ténis que brilham!

Dalila ficou alerta.

Roupa? E como é que arranjaram dinheiro?
A mãe usou aqueles que me deste! disse, descontraído. Ela disse que o telemóvel fica para depois, roupa era mais preciso.

Dalila petrificou; algo quente e pesado inflamava-lhe o peito.

Chama a tua mãe, pediu baixinho.
Está ocupada.
Está bem, querido. Um beijinho.

Desligou e ficou imóvel, minutos e minutos. Ia ser preciso dar umas lições à filha outra vez…

No dia seguinte, logo cedo, bateu à porta de Catarina.

Como foste capaz? indignou-se Dalila. Dei aquele dinheiro ao Gustavo! Era dele, não teu!

Catarina suspirou, olhos cansados.

Mãe, acalma-te.
Como? arquejou Dalila. O miúdo queria o telefone! Dei-lhe para ele juntar! E tu gastaste tudo!

O rosto da filha tornou-se uma máscara.

Agi como achei necessário.
Necessário? Dalila quase se engasgou. Gastar o dinheiro do miúdo nos calções?!
O rapaz precisava de roupa de verão, respondeu Catarina, sem se alterar. Não havia dinheiro de sobra.
Não podias ter falado comigo? Dalila deu um passo. Perguntado?
Não, mãe, Catarina abanou a cabeça. Na minha casa, eu uso o dinheiro como entendo. Isso não te diz respeito.
Não me diz respeito? Dalila levantou o tom. Não interessa como usam o dinheiro? Já falharam o empréstimo, perderam a casa! Claramente são irresponsáveis!

Catarina ficou pálida, mas calou-se.

Agora andas a tirar dinheiro até ao miúdo, Dalila não se conteve. Vergonhoso! Que vergonha!
Vai-te embora, mãe, murmurou Catarina. Por favor, vai.

Dalila saiu sem se despedir, tudo a queimar-lhe por dentro. A filha agira mal e ainda por cima a expulsava! Ainda haveria de voltar, pedir perdão!

Mas passou um mês, e Catarina não ligou. Ignorava todas as mensagens.

Dalila voltou a casa da amiga Graça, amarfanhando um guardanapo.

Renegou-me, Graça, balbuciava Dalila. A minha filha! Não posso ver os netos, nem atende o telefone.

Graça encheu-lhe a chávena.

E que lhe disseste tu, nesse dia?
Disse-lhe a verdade! Dalila endireitou-se. Que não sabem mexer no dinheiro, que são uns irresponsáveis! E não é verdade?

Graça ficou calada, olhando o Tejo pela janela.

Dalila, tu deste o dinheiro ao teu neto?
Dei, claro.
Então era dele, já não era teu.
Mas era para o telemóvel!
E foi para roupa a Graça encolheu os ombros. O miúdo precisava de se vestir para o verão, não de juntar para gadgets.

Dalila ia responder, mas Graça prosseguiu.

Também não devias ter falado do empréstimo. Eles pagaram o que deviam, trabalham, criam os filhos. E tu chamaste-lhes irresponsáveis.
Foi pelo melhor… murmurou Dalila. Eu preocupo-me com eles.
Preocupas-te, assentiu Graça. Mas acabas por feri-los. Porque não lhe ligas tu? Pedes desculpa?

Dalila cerrou os lábios e desviou o olhar para as azulejos da cozinha. Não. Ainda não. Ela é a mãe, só queria o melhor.

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