Então, a certidão de casamento ainda é mais forte que a união de facto? – Os rapazes zombaram da NádiaMas Nádia, com um sorriso irônico, respondeu que o amor verdadeiro não precisa de papéis, só de respeito mútuo.

Não vou até os trinta e poucos anos terminar o instituto, depois fico deprimida. Que os que foram todos os anos passem, não percebem como mudaram grita Lurdes ao telefone, a única amiga que lhe liga.

E tu, como estás agora? Por que tens medo? surpreendese Margarida. Parece que há cinco anos nos encontrámos e tu eras normal, nada de especial. Será que emagreceste demais?

Não, não é nada disso, só não quero, basta, não me convenças, Rita!

Lurdes tenta terminar a conversa, esperando que Rita a entenda e depois ligue para outras da lista. Mas a amiga a segura com um aperto de ferro:

Lurdes, as filas já estão a encolher.

O quê, alguém entregou a alma ao Senhor? Lurdes quase se assusta. Ela ainda se sente relativamente jovem, mas não tanto para que os colegas já estejam a viver em outro mundo.

Não é isso, é só que alguém do país desandou. E o falecido André Costa, há vinte e cinco anos ainda era muito jovem, já te falei.

Então não te preocupes, o nosso lote vai ser quatro turmas, mas no fim só vão ser trinta pessoas. Já casaste o teu filho? Então dá um jeito de te distrair um pouco.

Margarida continua a falar, e Lurdes lembrase de novo de André Costa. Ele tinha sempre círculos escuros sob os olhos e um olhar cansado; os rapazes do grupo o consideravam fraco.

Descobriuse que o coração de André era fraco. Ele estudava bem, sonhava em construir uma ponte de cabos na sua vila, mas nunca chegou a concretizar nada. E o que Lurdes conseguiu?

Apaixonouse por Simão, chefe de equipa na construção onde ela começou a trabalhar depois do diploma. Simão era vigia na fábrica da sua cidade e depois ia para casa.

Eles namoram há muito tempo, Simão até a chama de esposa perante todos. Diz que o casamento civil prova o verdadeiro amor. As pessoas vivem por amor, não por ter um certificado.

Quando Lurdes descobre que está grávida, Simão não aparece no seu turno. Surge que tem três filhos e a esposa está doente. Simão pede demissão por motivos pessoais, sem avisar Lurdes.

Lurdes percebe que não pode exigir nada a um homem com três filhos e uma esposa enferma.

Ela também deixa a construção, antes que alguém perceba o que se passa. Um dos operários brinca no final:

Então, o certificado de casamento ainda vale mais que a convivência?

Mas Lurdes já nem se importa. Vai trabalhar numa mercearia perto da sua casa, graças a uma vizinha do prédio que a recomenda. Concordam que, mesmo quando Lurdes for mãe, ela trabalhará dois dias por semana.

A mãe aceita cuidar do pequeno Diogo, afinal a filha é considerada desleixada por ter perdido um bom emprego.

És tu que me criaste assim! grita Lurdes quando a mãe a atira.

Esperava que fosses decente, mas a tua formação universitária te fez carregar um peso, e tu, Lurdes, és ainda mais desleixada! replica a mãe.

O que planta, colhe, não foi o que esperaste? responde Lurdes, arrependendose imediatamente.

Abraçamse e choram juntos, mas já não sabem para onde ir.

Quando, cinco anos antes da formatura, Rita a chama para o encontro, Lurdes normalmente não vai.

Lá vão falar de família, de trabalho, mostrar fotos, enquanto Lurdes limpa o chão em três locais: nos corredores do prédio, na escola e no jardim de infância. O que dizer a eles?

Na verdade, o que eles podem dizer a ela

Por causa de Diogo, Lurdes está disposta a tudo; ele é o seu único consolo.

Além disso, quando Diogo começa a ir ao jardim de infância, a mãe sente que cumpriu o dever e viaja para a aldeia da irmã, alegando sentirse mal na cidade e precisar de ar puro.

Alguns anos depois, Lurdes tem uma sorte inesperada: recebe um contrato a meio tempo como engenheira. Diogo já está a frequentar o ensino básico e Lurdes consegue fazer tudo sozinha, ainda pegando o filho depois do almoço, despertando a inveja de muitos.

Um colega de trabalho tenta conquistar Lurdes, mas ela recusa imediatamente. Ela tem um filho, e um tio estranho em casa não lhe serve. Um pai não pode ser substituído; só se evitam novos problemas.

No trabalho, Lurdes surpreende, e quando o filho cresce, passa a ganhar bem, chegando a tempo integral como engenheira.

Apesar disso, sentese incompleta, como se estivesse sempre a faltar algo. Vestese modestamente, não pinta o cabelo, e aos quarenta já tem alguns fios grisalhos.

Pensa que não tem direito a ser feliz, vivendo ao lado de um marido casado, quase tirando o pai de três filhos.

Não pode vestir roupas chamativas, colorir o cabelo, ou chamar a atenção, pois alguém pode julgála.

Já não crê que um relacionamento trará felicidade. Por aí, tudo são casamentos desfeitos, e ela não se sente melhor, talvez até pior.

Diogo cresce agradecido, a dedicação da mãe não o corrompeu.

Passa o verão na aldeia da avó Iria e da irmã, ajudando em tudo.

Cava canteiros, planta batatas, beterrabas e cenouras com as duas avós, rega, e no outono escava as batatas e ajuda a fechar as conservas.

Desde pequeno, Diogo é forte, corta lenha e empilha toras no celeiro. Até a mãe já lhe diz que tem muita sorte por ter um filho assim, e a irmã única Lúcia tem um neto amado.

Então, o café e o reencontro dos colegas de turma dos trinta anos do instituto

Todos esses pensamentos habituais voam pela cabeça de Lurdes em segundos.

E ela ouve Margarida a perguntar insistentemente:

Lembraste? O café em frente ao dormitório, na sextafeira que vem, às três da tarde. Vem, preciso de alguém para conversar, já não tenho com quem, vais?

A voz de Rita treme inesperadamente e Lurdes, sem saber bem porquê, concorda:

Sim, eu irei

Coloca o telemóvel na mesa e já se arrepende da promessa. Aproximase do espelho, pega no telemóvel outra vez. Precisa ligar à Rita para dizer que foi um engano.

Mas o número da presidente da turma está sempre ocupado, e Lurdes sentese incómoda.

Já é noite; abre o armário e tira o vestido azul que o filho lhe comprou para o seu casamento.

Diogo e Natália quase a convencem; a nora levaa ao centro comercial e a cansa com provadores.

Finalmente, o vestido azul agrada a todos, até a própria Lurdes. Escolhemlhe também sapatos, e Natália levaa ao salão, onde pintam o cabelo e fazem um penteado.

Foi há um ano; Diogo e Natália vivem separados e são felizes.

Os fios grisalhos voltam a aparecer; não há quem a ajude a arrumarse, sentese estranha a embelezarse.

Ainda assim, prende o cabelo e coloca o vestido azul que está na gaveta. Tinta ligeiramente os lábios, mas depois limpa com um guardanapofica ousado demais.

O café está barulhento e cheio quando Lurdes chega no horário. Rita notaa de imediato e corre ao seu encontro:

Lurdes, que linda! Que prazer verte!

Margarida parece mais magra, mas isso não a afeta; pelo contrário, parece mais jovem.

Conversam à mesa; então Rita é distraída por alguém e Lurdes apenas bebe sumo, observando ao redor e ouvindo a música.

Alguém fez um esforço especial e tocam canções da época em que eram estudantes. Ainda jovens, sonhavam com o futuro brilhante.

Posso convidarte para uma dança? ouve Lurdes, por entre a música alta, uma voz familiar.

Erguese a cabeça e reconhece o locutor.

Sou o Luís Sêvedo, da turma paralela. Caseime no terceiro ano, e Lurdes, lamento não ter ido ao teu casamento, gostava de ti então.

Lurdes, que linda estás! Esta é a primeira reunião de excolegas e não reconheço mais ninguém, mas a ti reconheci à primeira vista!

Luis estende a mão; Lurdes aceita, levantase e vai dançar, percebendo o olhar surpreso de Rita que volta ao seu lugar.

Dançam vários bailes, silenciados. De repente, Luis pergunta:

Lurdes, posso acompanharte até casa? Digo logo, estou divorciado há tempos, mas se houver alguém a espera, deixote, já é tarde

Luis acompanha Lurdes até à porta, mas no dia seguinte voltam a encontrarse e não se separam mais.

Natália ajudoua a escolher o vestido e os sapatos para o casamento. Lurdes já está um pouco mais cheia, e em breve será avó. Sentese estranha por ser a noiva.

Lurdes permitese ser feliz.

Natália sussurra:

Lurdes, quem diria! Estamos tão felizes por ti e pelo Diogo; a felicidade não tem idade, não há proibição!

E, de fato, ao sentarme à mesa do casamento, olho o meu marido Alexandre e penso que talvez eu também mereça.

Lurdes finalmente perdoase e permitese ser feliz

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