Há muitos anos, quando relembro esses tempos, parece um outro mundo.
A minha filha, Leonor, casou-se, e infelizmente nunca tivemos muita sorte com o nosso genro, Tomás, nem com os pais dele. Enquanto sempre demos tudo de nós para os filhos, eles não faziam questão de ajudar. Já se passaram oito anos desde o casamento e ainda hoje me recordo das dificuldades que enfrentámos devido àquela família.
Quando surgiu a questão da casa, os pais do Tomás logo se excluíram da responsabilidade disseram que nada tinham a ver com o assunto. Fomos obrigados, eu e o meu marido Manuel, a vender o nosso apartamento acolhedor em Lisboa, feito de pedra antiga, para podermos comprar um pequeno T1 no Lumiar para os nossos filhos. Não nos apetecia deixar aquela casa cheia de recordações e calor, mas o mais importante era garantir um ninho para eles. Renovámos o apartamento, comprámos móveis novos, tudo sem o mínimo apoio financeiro dos sogros da minha filha.
Ainda hoje ajudo com os netos. A Leonor está de licença de maternidade com o bebé, e o mais velho, o Henrique, já anda na escola primária, e sou eu, muitas vezes, quem o leva de carro. A filha não consegue dar conta de tudo sozinha; seria irrealista acordar a ambos, vestir, levar o mais velho à escola, tudo isto em menos de uma hora. Por isso, eu e o avô revezamo-nos nas tarefas; ambos ajudamos a criar os nossos netos com muito amor.
Os pais do Tomás, contudo, sempre mantiveram a distância, como se a situação nada lhes dissesse respeito. Olhar para eles tão alheios faz-me perguntar: que espécie de avós podem ser tão indiferentes?
Isto não é de agora; sempre foi assim. Imagine-se não dar ao filho sequer um tostão para o casamento! Antes de casarem, liguei-lhes e sugeri reunirmo-nos para conversarmos sobre os planos dos nossos filhos. E a resposta deles foi:
Para quê? E se eles se divorciarem ao fim de um mês? Hoje em dia, a maioria dos casamentos acaba cedo, são as estatísticas!
No fim, fui eu e o Manuel quem organizou o casamento. Oferecemos aos jovens um apartamento. Os sogros apareceram à festa como simples convidados e presentearam os noivos com um miserável envelope de 100 euros, como se nem fizessem parte da família.
Mesmo assim, Tomás sempre tinha pedidos.
Há oito anos, comprámos aquele apartamentinho na altura, perfeito para dois. Agora, com dois filhos, é evidente que está apertado. Acho que o Tomás deveria esforçar-se mais. Digo-lhe: Se não consegues ganhar mais, talvez os teus pais possam ajudar-te um pouco?
Mas ele responde sempre que não, que não lhes pode pedir nada.
Eu não lhes posso pedir isso! diz com convicção.
Ofereci-me para abordar o assunto com os sogros, mas Tomás proibiu-me mesmo de falar disso. Fiquei incrédula: tem vergonha de pedir aos próprios pais, mas não se importa de aceitar tudo dos meus? Durante oito anos, foi sempre a recorrer a nós. Por que não tenta resolver ele próprio? Há gente que arranja outra casa por esforço próprio. Digo-lhe: És novo, de certeza que consegues encontrar uma oportunidade. Procura um trabalho extra, ou vai para o estrangeiro trabalhar, como tantos portugueses têm feito.
O mesmo comportamento, infelizmente, tem para com a minha filha. Já nem ela me diz muito até já me pede para não me intrometer; diz que os sogros são assim por natureza, que não mudam e ponto final.
Fico revoltada eles vivem folgadamente, vão a termas no Norte, tiram férias, e tu nem uma palavra podes dizer-lhes. Parece que Tomás protege os pais de tudo, não é capaz de os incomodar. Mas pena de mim e do Manuel, nunca tem.
Assim eram os tempos, e assim se passaram esses anos aprendendo a dureza de sermos nós a dar tudo, enquanto do outro lado, reinava a indiferença.







