Ele foi embora com outra, e eu fiquei sozinha

– Lúcia, preciso conversar contigo.

Lúcia Maria Figueiredo estava em frente ao fogão, mexendo uma panela de caldo verde. A voz de seu marido soava daquele jeito sério que usava quando algo corria mal no trabalho ou quando precisava admitir um gasto a mais. Um tom ligeiramente tenso, um pouco culpado, mas com uma firme determinação de dizer o que tinha a dizer.

– Diz lá, respondeu ela, sem se virar, cuidando para não queimar a sopa.

– Vou-me embora. Tenho outra mulher.

Ela pousou a colher na bancada. Virou-se para ele. Manuel estava à porta da cozinha, de blazer, embora já fosse noite e em casa nunca usasse esse tipo de roupa. Devia ter vestido só para aquela conversa, como se desse um ar mais oficial ao momento.

– Há quanto tempo? perguntou ela.

– Oito meses.

– Entendi.

Manuel pareceu esperar outra reação. Lágrimas, um grito, perguntas. Mas ficou ali, trocando o peso de um pé para o outro.

– Lúcia, não quero que fique tudo mal entre nós. Para mim, sempre foste… o meu porto seguro. O meu apoio. Valorizo isso.

Lúcia Maria olhou-o longamente, como quem observa um objeto estranho em casa sem entender quem o colocou ali e para quê.

– Porto seguro, murmurou. Está bem. Vais jantar?

– Como?

– O caldo já está pronto. Vais jantar ou não?

Manuel ficou visivelmente desconcertado.

– Não, eu… não. Lúcia, percebeste o que eu disse?

– Percebi. Vais embora para outra. Oito meses. Porto seguro. Tudo muito claro. Não vais jantar. Está bem.

Ela pegou um prato limpo, serviu-se de sopa e sentou-se à mesa.

Manuel ainda ficou ali uns cinco minutos. Depois foi para o quarto arrumar as coisas. Ouvia-se abrir e fechar gavetas, sacos a serem enchidos. Lúcia Maria comia a sopa. Estava saborosa, a couve cortada fina como Manuel sempre gostava. Pensou nisso e largou a colher.

Depois tornou a pegar nela. Acabou de comer.

***

Manuel António Figueiredo tem cinquenta e seis anos e está convencido de que a vida ainda está toda pela frente. Diretor intermédio numa empresa de construção civil, mantém boa forma, disfarça os cabelos brancos com champô tonalizante, embora negue a todos inclusive à mulher. Casou-se aos vinte e sete e viveu com Lúcia vinte e oito anos. Criaram o filho, António, que agora mora no Porto e liga uma vez por semana.

Marta Oliveira trabalha com eles no escritório. Tem vinte e nove anos, é elegante, de cabelo castanho comprido e uma tendência para dizer uau a tudo o que lhe surpreende. Surpreende-se com facilidade: um bom restaurante, um telemóvel novo, a capacidade do Manuel resolver problemas no trabalho com um telefonema. Isso agrada-lhe.

Lúcia Maria Figueiredo, cinquenta e três anos, é chefe de contabilidade no hospital municipal. Pequena, morena, o início dos cabelos brancos discreto nas têmporas que ela nunca tenta esconder. Conta de cabeça mais rápido que qualquer calculadora, lê três livros por mês e faz o melhor caldo verde do bairro. Vinte e oito anos de casa e trabalho, nunca pediu medalhas não acha que seja façanha. Só vida.

Vivem em Vila Nova, uma cidade média portuguesa, daquelas onde todos conhecem todos no bairro, há um shopping decente e alguns cafés simpáticos para jantar sem se arrepender. O apartamento é um T3 no quarto andar de um prédio de nove pisos. Bem decorado, confortável, com cortinas que Lúcia costurou há oito anos por não ter encontrado a cor certa nas lojas.

Quando Manuel saiu, ela ficou um tempo sentada na cozinha. Lá fora a chuva de outubro caía miudinha e constante. Depois levantou-se, arrumou a mesa, lavou a loiça e foi deitar-se.

Nos três primeiros dias, quase não pensou no assunto. Foi trabalhar, fez relatórios, respondeu aos colegas que estava tudo bem com uma cara tão fechada que ninguém insistiu. À noite, ficava no silêncio imenso do apartamento, olhando para o nada. Não chorou. Sentia uma espécie de adormecimento por dentro, como quando se bate com força mas ainda não dói.

No quarto dia, ligou a amiga Graça.

– Lúcia, ouvi dizer… é verdade?

– É.

– Nossa Senhora… como estás?

– Estou bem.

– Bem não, Lúcia. Somos amigas há trinta anos. Diz-me como te sentes de verdade.

Lúcia ficou calada.

– Graça, sabes o mais estranho? Percebo agora que já há muito que não sei o que ele sente. Vivíamos lado a lado e eu não sabia. Isso talvez seja o pior.

Graça calou-se do lado de lá e depois sugeriu em surdina:

– Queres falar com ele? Talvez ainda haja solução…

– Não, cortou Lúcia serenamente. Não é preciso. Só estava a pensar alto.

Não disse à amiga o que realmente sentia: que, quando Manuel anunciou que ia embora, não foi a dor o que veio primeiro. O que sentiu logo foi uma espécie de alívio, uma exaustão antiga que finalmente largava. Como se tivesse carregado uma mala pesada durante anos e alguém a viesse buscar. Tinha vergonha até de admitir isso a si própria.

No quinto dia tirou da parede da sala uma fotografia grande. A velha foto do casamento Manuel de fato escuro, ela de branco, jovens, ambos a sorrir. Guardou-a na despensa, não atirou fora, não partiu. Só arrumou.

O sítio da foto ficou mais claro.

Olhou para aquela mancha durante muito tempo. Depois pegou no telefone e ligou para a loja Casa Querida.

***

Fez as obras quase toda sozinha. O que não conseguia, mandava fazer. Pôs papel de parede novo na sala, de um tom creme luminoso, em vez do velho verdoso às riscas. Comprou cortinas com padrão de folhas grandes, coisa que Manuel nunca teria aprovado ele gostava de tudo liso, sem desenhos. Mudou os móveis para onde lhe convinha, não onde tinham decidido juntos. O sofá ficou mais perto da janela.

Duas semanas depois, António liga. O pai já devia ter contado tudo.

– Mãe, como estás?

– Bem, filho. Estou a remodelar a casa.

– Remodelar? surpreendido.

– Mudei o papel da sala. Quero mudar o da cama também.

– Estás bem mesmo?

– Estou, António. A sério. Já ligaste ao teu pai?

Ele hesita.

– Já.

– Muito bem. É teu pai, deves falar-lhe também. Vens cá no Natal?

– Claro que sim. Mãe não te sentes só?

Ela olha a sala renovada, as paredes creme, as cortinas novas, o sofá junto da janela.

– Sabes, António surpreende-me, mas não. Estou bem. Até eu me admiro.

António gira mais um pouco à volta do assunto e depois acalma-se. Era bom rapaz, mas como faz quase toda a gente com pais crescidos, secretamente espera que não aconteça desastre nenhum e que os adultos se entendam.

Em novembro, a arrumar as roupas de inverno, Lúcia acha uma caixa grande, esquecida há quase quinze anos. Dentro, tudo do seu tricô: agulhas, novelos, projetos a meio. Na altura, Manuel queixou-se de novelos espalhados, então ela guardou tudo, em silêncio.

Puxou a caixa para o centro da sala e ficou a olhar.

Depois pegou nas agulhas. Sentou-se no sofá, à janela. Lá fora caía o primeiro nevão do ano, suave, quase sem importância.

Os dedos relembram sozinhos.

***

A colega do hospital, Irene Tavares, reparou no cachecol ao pescoço de Lúcia em dezembro.

– Foste tu que fizeste? Que bonito!

– Fui, sim. Não tricotava há séculos, mas sabe bem recomeçar.

– Não tratas de um para mim? Pago-te, claro.

– Não tentes, mulher

– A sério. Se me disseres a lã que queres eu compro, pago-te. Quero um gorro com dobra

Assim chegou a primeira encomenda. Quase por acaso, como tantas coisas importantes.

Em dezembro e janeiro, tricotou oito peças: três gorros, dois cachecóis, umas luvas e dois camisolas. Recebia pouco mais simbólico que outra coisa , mas era dinheiro. Pequeno, seu, além do ordenado, fruto das próprias mãos e de um prazer redescoberto cada noite, tricotando no sofá.

Graça, numa visita para tomar café, viu a sala nova, tocou nas cortinas, reparou na caixa de novelos na estante.

– Estás completamente diferente, disse.

– Dizes isso?

– Não sei, estás serena. Julguei que te deprimias, mas

– Mas não me deprimi, consentiu Lúcia. Nem sei porquê. Talvez por falta de tempo.

– O Manuel não liga?

– Ligou só uma vez em novembro. Perguntou onde estavam os papéis do carro. Expliquei. Nunca mais ligou.

– Só por causa do carro então, riu-se Graça.

– Só isso.

Ficaram em silêncio, Graça segurando a chávena com as duas mãos, jeito de quem pensa.

– Odeias o Manuel?

Lúcia refletiu.

– Não. Estranhamente, não. Há mágoa, houve muita, agora menos. Mas ódio não. Ele é só alguém que tomou as decisões dele. Agora tem a vida dele. Eu, a minha.

– Como sobreviver a uma traição e não perder o juízo, ironizou Graça baixinho. Deviam pedir-te para escrever um livro.

– Ainda vou a tempo, riu-se Lúcia.

Foi a primeira vez em muitos meses que se riu a sério.

***

Marta revelou-se alguém cheia de qualidades, mas a organização da casa não era uma delas.

Manuel só percebeu isso com o tempo. Ao início era tudo bom: restaurantes, fins de semana fora, sensação de juventude e leveza. Marta olhava para ele com fascínio, e isso aquecia-lhe o ego. Dizia que ele não tinha nada a ver com a idade que tinha e ele endireitava as costas.

Depois começaram a viver juntos no apartamento arrendado do outro lado da cidade, e logo vieram os problemas.

Marta não cozinhava. Nada. Não era por fazer mal simplesmente não via razão para isso, havendo restaurantes e entregas ao domicílio. Era caro e farta depressa.

Marta não suportava arrumar. A roupa, os objetos, tudo ficava em cima das cadeiras, da banheira, no chão. Não era desleixo, era o modo dela de estar. Manuel, habituado à ordem em casa, começou a desesperar pela terceira semana.

Marta não percebia porque se pagava a renda antes do prazo, nem porque era preciso poupar se havia dinheiro. Manuel explicava. Marta assentia. No mês seguinte, tudo igual.

Além disso, Marta adorava as amigas. Iam lá a casa, ficavam até tarde, riam alto, deixavam copos por lavar. Manuel deitava-se noutra divisão, ouvindo aquele riso que já não lhe agradava.

Em fevereiro ligou a Lúcia.

– Como estás?

– Bem, Manuel.

– Não ficaste chateada por eu nunca mais ligar?

– Não.

Silêncio.

– Preciso saber onde está o recibo do frigorífico. Está avariado.

– Na pasta verde, terceira prateleira da despensa.

– Não levaste para lugar nenhum?

– Não. Não mexi em nada teu.

– Pronto, obrigado.

Lúcia desligou. Ficou um pouco a olhar pela janela. Lá fora, o gelo começava a derreter, as garagens já mostravam manchas escuras. A primavera está quase aí.

Pegou nas agulhas. Começou um novo camisola, cinzento-azulado, para si.

***

Em março, o hospital anunciou a reforma da chefe das finanças, D. Teresa Faria. Ia abrir vaga. A diretora clínica, Dra. Helena Mendes, chamou Lúcia ao gabinete.

– Lúcia Maria, falo-lhe sem rodeios: já devia ter subido há muito. Porque nunca quis avançar?

Lúcia pensou.

– Provavelmente por causa da família. Não queria mais peso em cima.

– E agora?

– Agora há outras circunstâncias.

– Ouvi dizer, lamento.

– Não é preciso lamentar. Diga-me só o que é preciso para o cargo.

A médica sorriu.

– Sabe melhor do que eu. Faço a candidatura?

– Faça.

Lúcia tratou disso nesse mesmo dia. Voltou para casa a pé, embora o autocarro tenha chegado ao ponto. Só lhe apetecia andar. Março cheirava a terra molhada, as árvores quase prontas a rebentar. Ao andar, percebe que não reparava em detalhes assim há anos: o odor da chuva, as poças de cor iridiscente, os ramos prontos para florescer.

Pensou: a vida segue. Tão simples, mas verdadeiro.

***

Em abril, Manuel apareceu sem avisar. Tocou à campainha.

Abriu a porta. Ele estava na escada, com o casaco que ela lhe comprou há três anos, desarrumado, olheiras fundas.

– Posso entrar?

– Para quê?

Manuel baixou os olhos.

– Preciso conversar contigo.

Ela deixou-o passar. Olhou a sala, reparou nas paredes novas, nas cortinas, nos móveis mudados. Ficou calado.

– Fiz obras.

– Ficou bonito.

Ela não respondeu. Foi à cozinha, pôs água para chá. Gestos de todos os dias.

Manuel sentou-se à mesa. Ela olhou-o e sentiu-se a vê-lo de outra maneira nem pior, nem melhor, só diferente. Como se regressa a um sítio conhecido e se repara nas coisas que escapavam.

– Estás bem? perguntou ele.

– Sim. Fui promovida.

– A sério? Parabéns. Já merecias.

– Sim, já merecia. Há muito.

Ele percebeu o recado.

– Lúcia, fala-me francamente. O que se passa?

Roçou o nariz gesto antigo quando estava constrangido.

– Com a Marta não está fácil. Não está péssimo, mas é diferente do que imagina.

– Acontece.

– Pensei pensei que talvez pudesse voltar. Sempre foste compreensiva. Sempre soubeste cuidar.

Lúcia serviu o chá. Sentou-se à mesa.

– Sempre soube, confirmou. Durante vinte e oito anos. E nem reparavas.

– Reparei.

– Não muito. Se não, chamavas-me por outro nome.

Silêncio.

– Não queria magoar. Dizer porto seguro

– Significa que não estavas lá. Um apoio é o que sobra quando todos avançam; é cómodo, mantém o lar.

– Lúcia

– Não guardo rancor, Manuel. A sério. Só explico porque não pode ser como imaginas.

– Quero voltar.

– Ouço-te.

– E tu não queres?

Ela olhou-o bem: o rosto conhecido, agora com uma expressão de confusão. Esperava lágrimas, acusações, raiva, depois perdão. Tinha certeza de que ela sabia perdoar. Porque era o seu porto seguro.

– Não, disse apenas.

– Porquê?

– Porque não quero.

Ele ficou a tentar entender, sem conseguir.

– Mas estás sozinha.

– Sim. E estou bem.

– Não é possível estares bem sozinha. Estás só a dizer isso.

Ela levou a chávena aos lábios. Olhou para ele, serena.

– Sabes o que mais me surpreendeu nestes meses? Achei que, sem ti, a casa ficaria vazia. Tive medo disso. Afinal, sem ti, fica cheia de espaço para mim.

Manuel não respondeu.

– Deves ser uma boa pessoa, talvez, disse Lúcia, não em tom de crítica nem de elogio, só constatação. Achavas que eu estaria sempre ali. Que o porto seguro nunca desaparece. Mas eu desapareci.

– E agora, o que faço? perguntou ele, com uma voz quase de menino. Ela sentiu pena. Quase.

– Não sei, Manuel. Isso cabe-te a ti.

Ele esvaziou a chávena. Ficou ainda um pouco, depois levantou-se.

– Vais pedir o divórcio?

– Sim. Em breve. Fui informar-me.

Ele acenou. Pegou no casaco.

– Pronto. Então

À porta, olhou para trás.

– Estás diferente.

– Não. Estou igual. Nunca viste realmente.

A porta fechou-se.

Lúcia ficou sentada à mesa. Ouviu o barulho da rua, carros a passar, pessoas no pátio aos risos. Uma noite comum de abril em Vila Nova.

Levanta-se, arruma a loiça, abre a janela. O ar entra, cheira a terra húmida e rebentos de choupo.

***

Conheceu Sérgio Monteiro na reunião de condomínio. Ele mudara-se no inverno, para um sexto andar, depois de vender a casa da família: os filhos já crescidos, um a viver em Lisboa, outro em Braga, e a casa grande ficara vazia.

Tinha cinquenta e oito anos. Baixinho e magro, cabelo branco bem aparado, olhos de um cinzento tranquilo. Engenheiro projetista, fazia pontes e estradas. Viúvo há três anos.

Falou na reunião sobre uma infiltração nas escadas, com calma e objetividade. Sem drama, explicou o que fazer, porquê. O administrador ouviu-o.

Lúcia reparou nele porque tinha o à-vontade de quem nada tem a provar.

Conheceram-se pelo elevador, início de maio. Ela trazia uma sacola grande de lãs, acabadas de comprar na feira, e a mala batia na porta do elevador.

– Deixe-me ajudar, ofereceu ele.

– Não faz falta, dou-me bem.

– Vejo que sim. Mas era mais prático se deixasse.

Ela riu-se. Deu-lhe a mala.

Ficaram à conversa no elevador e depois no corredor. Ele acompanhou-a até à porta.

– Tricota? apontou para os novelos.

– Sim. Mete piada?

– Nada disso. Sobrou-me muita lã da minha mulher, não sei que lhe faça. Quer alguma?

Aceitou. A lã era ótima, cara, merino, enrolada com esmero.

Começaram a cruzar-se e falar de vez em quando. Ele passou a tomar chá ali, uma vez ou outra. Falavam da cidade, do trabalho, dos livros. Ele lia muito, falava sem pretensão, sabia ouvir, sabia calar quando ela pensava em voz alta.

Em junho, tricotou-lhe um cachecol. Cinzento, da lã da mulher dele.

– Para quê? admirou-se. Agora é verão.

– Fica pronto para o outono. E assim testei a lã.

– E então?

– Muito boa.

Ele agradeceu de forma simples, sem cerimónia. Ela gostou disso.

***

Em julho, pediu o divórcio. Manuel não fez cenas. Encontraram-se no cartório, assinaram papéis. Ele parecia cansado, meio perdido. Ela vestia um vestido de verão claro, comprado em maio primeira vez em anos que comprava algo colorido.

– Como estás? perguntou ele já cá fora.

– Bem, respondeu. E era mesmo verdade.

– A Marta foi para casa dos pais, em Braga. Ficou sozinha.

– Pronto.

– Fico agora sozinho.

Ela disse-lhe sem rancor, nem pena, só olhando-o.

– Vais desenrascar-te. Consegues.

– Achas?

– Acho. Mas vai ter de aprender por si. Não custa assim tanto.

Despediram-se. Seguiram em direções opostas.

Ela passou pelo mercado, comprou cerejas meio quilo, das grandes, bem maduras. Saiu, pôs-se ao sol e comeu algumas ali mesmo, à porta. Guardou os caroços num saquinho. As cerejas estavam deliciosas.

***

No início de agosto, Sérgio convidou-a para ir ao cinema. Simples, sem grandes cerimónias.

– Vai dar bom filme. Vai?

– Vou.

Era uma comédia antiga portuguesa, na sala de verão do jardim municipal. Sentaram-se em bancos de madeira, rodeados por famílias, casais sénior. Riram-se de algumas piadas.

Voltaram a pé pelo parque, noite quente e lenta como só agosto permite. Contou-lhe como começou a tricotar por encomenda, quase por acaso. Ele ouviu.

– Continue, sugeriu a sério. É trabalho feito com alma. Já não há muitos assim.

– Diz isso do cachecol.

– Digo mesmo. Está excelente.

Silenciaram-se um pouco. Depois ele disse:

– Não tenho pressa. E você também não, pelo que vejo.

– Não.

– Então está tudo bem.

Ela não perguntou o quê, percebeu logo.

***

Em setembro, Graça foi visitá-la e apanhou Lúcia a tricotar junto à janela. Na sala cheirava a café, novelos de três tons de azul espalhados sobre a mesa, o portátil aberto num site que mostrava uma lista de encomendas já eram muitas.

– Agora tens página online? admirou-se Graça.

– Uma vizinha ajudou. Tem fotos dos trabalhos, preços, tudo. Já entreguei vinte e três encomendas.

– Lúcia, és mesmo decidida!

– É pouco dinheiro, mas é meu. E gosto do que faço.

Graça abanou a cabeça.

– Quem diria há um ano atrás

– Ninguém dizia. Nem eu sabia.

– E o teu vizinho, o Sérgio Graça sorriu de lado.

– O que tem?

– Nada só que mudas o rosto quando falas dele.

Lúcia silenciou-se. Depois, sem largar as agulhas:

– Dá-me paz. Não sei como explicar melhor.

– Não precisas, disse Graça. Entendo bem.

Ficaram as duas a beber café, falando dos netos de Graça, das obras na clínica, da próxima promoção na loja Casa Querida. O mais trivial entre amigas num dia de setembro.

Lá fora, Vila Nova continuava o seu ritmo. Os choupos a ficarem dourados, gente a passear cães no pátio, um miúdo de bicicleta atravessando a rua com concentração.

Lúcia pegou no próximo novelo, encontrou o fio. Nova encomenda: gorro com tranças, entrega daqui a duas semanas. Vai acabar a tempo.

Os dedos deslizam, as agulhas repetem movimentos antigos e tranquilos. Cá fora, a chuva de outono começa a brilhar nas folhas, balançando ao vento, vivas.

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Ele foi embora com outra, e eu fiquei sozinha