Ela fez o meu filho sorrir pela primeira vez em anos. Mas o que vi nas mãos dele deixou-me assustado…

Ela fez o meu filho rir pela primeira vez em anos. Mas o que vi nas suas mãos assustou-me

Já havia três anos que o silêncio reinava em nossa casa. Desde o dia em que perdi a minha esposa, Teresa, parecia que o meu filho de oito anos, Simão, tinha desaparecido também. Deixou de brincar, nunca mais me contou um segredo, e acima de tudo deixou de sorrir. Contratei os melhores psicólogos de Lisboa, mas nenhum conseguiu atravessar a muralha da sua tristeza. Até à chegada da Matilde.

Matilde era discreta, quase invisível. Uma nova ama, que apenas fazia o seu trabalho, sem alardes. Mas hoje aconteceu algo que eu já tinha perdido a esperança de voltar a ouvir.

Caminhava pelo corredor calado, quando fiquei imóvel. Do terraço de vidro vinha um riso alto, verdadeiro, daqueles que quase já nem me lembrava. Era a voz do meu filho.

Aproximei-me da porta e espreitei pelo vidro. Simão, que normalmente se encolhia num canto, estava agora desatado a rir, com a Matilde sentada ao lado, a sussurrar-lhe qualquer coisa ao ouvido. A cena era de uma paz que me deveria confortar, e no entanto algo nela me acelerou o coração. Mas não de alegria de uma inquietação sem nome.

Abri a porta de repente.

O riso cessou num instante. O Simão estremeceu e rapidamente escondeu algo atrás das costas. A temperatura da sala desceu tanto que até me arrepiei.

Dei uns passos na direção deles. A desconfiança crescia a cada movimento.
Simão, o que tens na mão? perguntei, com a voz a trémula.

Ele olhou para a Matilde, hesitante, mas ela acenou-lhe levemente com a cabeça. O Simão estendeu então devagar a mão e abriu o punho.

Na palma estava um medalhão dourado. Senti o ar desaparecer dos pulmões e o rosto ficar pálido. Era o medalhão da Teresa. Aquele que ela jamais tirava do pescoço. Aquele que desapareceu no dia em que faleceu. Revirámos a casa toda, procurámos no hospital, mas nunca o encontrámos.

Onde onde arranjaste isto? murmurei, ora fitando o meu filho, ora a Matilde.

Ela levantou-se com calma, o olhar profundo, triste.
A Teresa pediu para lho entregar disse ela baixinho. Quando ele estivesse pronto para rir novamente.

Como assim? Tu nem sequer conheceste a minha mulher! Contratámos-te através da agência há apenas um mês! a angústia começou a apertar-me a garganta.

Matilde chegou-se e tirou do bolso uma folha dobrada. Era uma carta, inconfundivelmente com a letra da Teresa.

*«Tiago, se estás a ler isto, é porque a Matilde encontrou a chave para o coração do nosso Simão. Conheci-a no hospital, nos meus últimos dias. Sabia que depois da minha partida te ias fechar no teu mundo e o Simão se calaria. Entreguei-lhe o medalhão, pedi: Não apareças logo. Espera até a casa estar coberta de silêncio. Quando vieres, não sejas ama sê amiga. Ajuda-o a reencontrar a voz.»*

Caí numa cadeira, o rosto enterrado nas mãos. Sempre pensei que a Matilde fosse uma estranha, mas afinal ela era o último presente da minha mulher.

Pai disse o Simão, tocando-me no ombro. A mãe explicou na carta que há uma fotografia nossa dentro do medalhão. E disse que temos de voltar a ser felizes.

Abri o medalhão. Lá estava a nossa fotografia de um verão antigo. Mas o que mais me tocou foi o pequeno detalhe: gravada sob a imagem, uma frase que nunca tinha estado ali antes: **«O riso é o caminho de regresso a casa».**

Nessa noite, finalmente, o silêncio desapareceu cá em casa. Mas não um silêncio triste era agora um silêncio de paz. Matilde ficou connosco, não como empregada, mas como quem sabia o segredo que nos devolveu à vida.

Se estivessem no meu lugar, acreditariam numa pessoa que guardou um segredo destes durante tanto tempo? O que fariam? Fica a lição: por mais escuro que esteja, às vezes basta uma amizade para abrir de novo a porta à felicidade.

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