Ela estava acorrentada a uma árvore e urrava de dor, mas um idoso português teve coragem de se aproximar

Ela estava acorrentada a um sobreiro e rosnava de dor, mas o velho ousou aproximar-se.

Aquele inverno parecia querer apagar de vez da memória a pequena vila de Castanheira de Pera. O frio era tão cortante que até os pardais caiam inertes do céu antes de chegarem ao chão. Numa noite assim, quando até o mais bravo pastor deixaria o cão junto à lareira, o velho caçador Tomás, conhecido na serra por Falcão, deixou o conforto da laje aquecida e perdeu-se pelo monte. Um pressentimento inquietante fazia-lhe arder o coração aflito.

Chegando ao Carvalhal Negro, lugar envolto de lendas sussurradas à meia-voz, Tomás deparou-se com uma cena que lhe gelou o sangue nas veias. Uma imensa loba-ibérica branca, de juba prateada, estava presa ao tronco de um velho sobreiro por um cabo de aço, lutando para aquecer seis crias encolhidas contra o frio. Aquilo não era acaso, nem vestígio de caçada; era a cruel obra do açougueiro Gervásio, o matador de cães, infame na região.

Tomás sabia: aproximar-se de uma predadora ferida era desafiar a própria morte. Mas deixá-la ali, à mercê da fome e do frio, doía-lhe mais que qualquer ferida. Tirou o canivete não para atacar, mas para libertar. Sabia que a batalha que os esperava era contra algo ainda mais feroz que o gelo: a maldade humana.

O vulto claro junto ao tronco negro do sobreiro pareceu-lhe, por instantes, apenas reflexo da lua. Aproximando-se, viu era ela, a loba da serra, a lenda da região, condenada a uma morte lenta e atroz numa armadilha pensada para o desespero. O cabo já rasgava-lhe o pescoço, e os pequenos, quase rígidos, mal se mexiam junto às patas geladas da mãe.

A loba mostrou-lhe os dentes. Naqueles olhos cinzento-claros não havia súplica, apenas o furor de uma mãe prestes a sacrificar-se pelas crias. Tomás tirou as luvas e ergueu as mãos nuas. Calma, menina não sou como ele. Só quero cortar o cabo, não te fazer mal, sussurrou ele, pisando firme na neve maculada de sangue.

E então, o impossível. Quando um ramo pesado se partiu com estrondo sobre eles, Tomás não recuou escudou os lobinhos com o corpo. Libertada, a loba não saltou para o pescoço do homem. Em vez disso, lambeu-lhe a têmpora. Um pacto silencioso selou-se ali.

Com engenho, Tomás improvisou uma maca e, vencendo a dor nas costas, levou a loba e os filhotes até ao seu casebre de pedra. Percebia, com clareza recém-descoberta: já não estava mais sozinho.

Sopro de vida
A paz da casa de Tomás logo virou rebuliço. Acudiu Teresa, a veterinária do povoado mulher séria, poucas falas, mas mão de ouro. Foi ela que cosia as feridas da loba, à qual Tomás deu o nome de Lurdes. Mas a alegria foi breve: o mais miúdo dos lobinhos, o Tico, parou subitamente de respirar. O frio levara-lhe o resto das forças.

Chego tarde murmurou Teresa. Mas Tomás recusou aceitar. Com as mãos calejadas e vigorosas, fez massagem ao coração do pequenito, soprando-lhe vida, boca contra o focinho gelado. Os segundos arrastaram-se, até que, por fim, Tico arfou outra vez. Arrancado à morte, só adormecia agora sobre a velha bota de Tomás.

Pensaram que o pior passara. Os lobinhos traquinavam pela casa, e Lurdes olhava para Tomás com uma ternura inesperada em qualquer animal selvagem. Mas o perigo não sumira. O açougueiro Gervásio descobriu que perdera o troféu e regressou. Primeiro foi um drone sobrevoando a clareira, depois, em plena noite, gás adormecedor entrou pelas frestas do casebre.

Pele em troca de filho
Tomás acordou aturdido, apavorado como nunca. Tico desaparecera. Na mesa, pregada com a velha navalha, uma nota: Queres ver o pequeno vivo? Traz a loba. Pedreira velha. Meia-noite. Gervásio sabia como ferir fundo; queria que a compaixão de Tomás o traísse.

Querem um negócio, disse Tomás a Teresa, enquanto desfazia, do rosto, o habitual sorriso amável. Agora, à sua frente, estava alguém que já fora guarda-florestal, para quem a serra era campo de combate. Do baú tirou a velha capa branca de pastor e pintou o rosto com cinza. Pegou no arco arma silenciosa e fatal.

Lurdes, com um ligeiro coxear, pôs-se ao seu lado. Compreendera tudo. Naquela noite iam, não para trocar, mas para salvar e punir. Teresa, mesmo proibida, seguiu-os em segredo, levando o estojo de socorro.

Noite de vingança
A pedreira esperava-os com os holofotes acesos e guardas armados. Tomás e Lurdes foram pela encosta, vento nas costas. Os capangas esperavam um velho indefeso, não um espectro da serra.

A corda do arco vibrou, muda. A flecha, embebida em sonífero, caiu fundamente no pescoço do sentinela. O caminho abriu-se. Tomás irrompeu pela oficina abandonada, onde Gervásio guardava Tico numa jaula. O assassino ergueu a espingarda, mas não chegou a disparar.

Da penumbra, Lurdes lançou-se, branca como relâmpago, e tombou Gervásio, prendendo-o ao solo, fúria retida apenas pela força de vontade. Não o estraçalhou bastou-lhe agarrá-lo pela garganta, fitando-lhe os olhos até os cabelos dele empalidecerem ali, naquele instante. Teresa chegou, chamando a GNR, enquanto Tomás rebentava o cadeado e abraçava o lobinho, a tremer de medo.

Desfecho
A história correu todo o distrito. Gervásio e os cúmplices receberam sentenças pesadas. Lurdes e os filhotes, graças às ligações de Teresa, foram registados como lobicães e deixados sob proteção de Tomás, naquele recanto perdido da serra.

O velho caçador não conhece mais a solidão. À noite, uma enorme loba branca dorme-lhe aos pés, e Tico adormece-lhe no colo. Provaram que família nem sempre é sangue. Por vezes, é quem atravessa um inferno gelado só para estar ao nosso lado.

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Ela estava acorrentada a uma árvore e urrava de dor, mas um idoso português teve coragem de se aproximar