Ela entrou sem tocar à campainha, trazendo nos braços algo que se mexia.
Beatriz entrou sem avisar. Nunca tinha entrado em casa sem tocar à campainha, e só isso foi o bastante para Dona Teresa sair da cozinha, com o pano de louça ainda na mão. Era sábado de Fevereiro: na rua o tempo estava detestável, com chuva miudinha, céu cinzento, nem manhã, nem tarde. Daqueles dias em que só apetece deitar no sofá e deixar o pensamento andar à deriva.
Beatriz parou no corredor, desapertando o casaco com uma mão. Com a outra segurava algo embrulhado numa manta axadrezada. Algo pequeno. Algo que se mexia.
Dona Teresa, mais tarde, dizia a si mesma que percebeu logo. Mas não era verdade. Só pensou que Beatriz tinha encontrado um gatinho abandonado.
Entra na sala, está mais quente disse ela. Vieste da estação? Vou pôr água a ferver para o chá.
Mãe a voz de Beatriz saiu-lhe estranha, nem zangada nem terna, apenas o tom de quem carrega algo pesado e finalmente pousa por terra Mãe, é o Miguel.
Dona Teresa olhou para o embrulho. Saía da manta uma mãozinha vermelha. Logo se mostrou um rosto enrugado, os olhos ainda fechados, como um cogumelo velho.
Não se lembrava depois do que disse. Talvez alguma coisa sobre o bule de chá. Ou que era preciso tirar as botas molhadas. Dizia coisas sem nexo, enquanto o pensamento tentava arrumar tudo: Beatriz foi para o estágio há quatro meses. Beatriz telefonava todas as semanas. Beatriz dizia que estava tudo bem, que as aulas eram puxadas, que já tinha saudades da sopa da mãe.
Quantos dias tem? perguntou Dona Teresa, por fim.
Dezoito dias.
Dezoito dias. Então, Beatriz tinha ligado já depois. Já depois do nascimento. Disseram está tudo bem com um bebé de oito, sete, cinco dias no colo.
Foram para a sala. Beatriz deitou o Miguel no sofá, pôs almofadas de lado para o proteger, endireitou-se e encarou a mãe. Olhou-a de frente, sem desviar o olhar. Foi aí que Dona Teresa percebeu que Beatriz estava diferente. O rosto mais magro, olheiras profundas. Mas mantinha-se firme, como quem já chorou tudo o que tinha a chorar.
Devias ter reparado disse Beatriz. Não gritou, não chorou. Apenas disse, em voz tranquila, mas cansada. Quando fui passar o feriado de Novembro, devias ter percebido. Já estava no sexto mês, mãe. No sexto.
Dona Teresa lembrou-se desse feriado. Beatriz veio por três dias. Usava uma camisola larga. Dona Teresa pensou: a menina cresceu, antes preocupava-se com a figura, agora anda toda sem jeito. Viram novelas, comeram bacalhau, Beatriz ajudou a arrumar a garagem. Três dias, e foi-se embora.
Pensei que tinhas engordado um pouco, disse Dona Teresa.
Eu sei o que pensaste. Pensavas sempre em tudo, menos em mim.
Era injusto. Duro demais, e Dona Teresa sabia disso. Mas calou-se, porque, nessas palavras, por mais injustas que fossem, havia um grão daquela verdade desconfortável.
Estavas sempre no trabalho continuou Beatriz, a voz só tremeu um bocadinho. Eu chegava a casa e já estavas deitada, ou ainda presa à papelada. No oitavo ano comecei a fumar, só te apercebeste meio ano depois. No décimo quase duas semanas sem te falar, não perguntaste porquê. Sempre viveste no teu mundo, mãe. E eu habituei-me a não contar contigo. Sempre pensei eu resolvo.
Miguel guinchou do sofá. Beatriz virou-se, ajeitou-lhe a manta com um gesto preciso, já habitual. Dona Teresa percebeu que a filha aprendera. Aprendeu, sozinha, com um bebé recém-nascido ao colo.
Onde estiveste? perguntou, baixo.
Em casa da Mariana. Da Amadora, lembras-te? Ela ajudou-me muito.
Mariana da Amadora uma amiga que Dona Teresa nunca conheceu. A filha teve o primeiro filho, e quem esteve presente foi uma Mariana que ela nem saberia apontar na rua.
Foi para a cozinha. Pôs água ao lume. Ficou à janela a olhar a chuva miudinha a desfazer-se na calçada já cheia de lama. Ouvia Beatriz a murmurar coisas para o Miguel, sons baixinhos, quase cantigas.
Dona Teresa pensava no facto de ser contabilista. Toda a vida a fazer contas, e tudo batia certo. Débito e crédito. Entradas e saídas. Mas afinal: a filha morou ali sete anos, foi para o quarto na residência e ligava toda semana e ela não sabia nada. Nada de verdade. Nenhuma matemática que resolva isto.
Quando voltou à sala com duas chávenas, Beatriz estava no sofá, a dar de mamar ao Miguel. Era tudo tão rotineiro e, ao mesmo tempo, tão fora do normal, que Dona Teresa pousou as chávenas e voltou para a janela.
Quem é o pai? perguntou, sem se virar.
Beatriz demorou.
Mais tarde, mãe. Não agora.
Dona Teresa acenou, mesmo sabendo que Beatriz não estava a ver. Mais tarde. Não haveria pressa.
Nessa primeira noite, demorou muito a adormecer. Ficou a escutar os movimentos da filha no outro quarto, a ouvir Miguel a mexer-se, Beatriz a sossegá-lo em voz baixa. Pensava que era preciso comprar um berço. Pensava em ligar à Dona Graça do 3º esquerdo, que já criou netos sozinha e saberia orientar. Pensava no que Beatriz disse. Devias ter percebido. Vivias no teu mundo.
Seria verdade?
Sim. Claro que sim. Mas Dona Teresa sempre pensou diferente. Achava que trabalhava para que a filha tivesse tudo. Roupa decente, aulas de inglês, comida a sério. Acreditava que isso era amor: trabalhar até cair, mas nunca faltar queijinho, iogurte ou bifes no frigorífico. Afinal, não era. Afinal, foi pouco.
E de quem era a culpa?
Aqui, as contas já não batiam.
Quinze anos atrás, ia para o Lar de Crianças de comboio. Novembro, feio e húmido, como este Fevereiro. Olhava pela janela e perguntava a si mesma o porquê. O marido tinha saído há três anos, foi embora calmo e cobarde: Teresa, quero filhos. Não conseguimos, já sabes. Ela sabia. Os médicos disseram-lhe aos trinta e dois, e foi-se adaptando à ideia, como a gente se adapta à tensão alta. O João nunca conseguiu adaptar-se. Foi ter filhos com outra mulher. Dona Teresa às vezes via-os no supermercado: o João com o carrinho de bebé, mulher jovem, meninos corados. Cumprimentavam-se. Tudo normal.
Não decidiu logo pelo Lar. Mediu bem as coisas. Teve medo. Dizia a si mesma para quê um filho dos outros, consegues, será o certo?. A amiga Lourdes dizia Teresa, para quê complicar, cuida de ti. A vizinha Amélia disse: Tens de tentar, quem não arrisca. Mas foi sozinha que decidiu. Num dia, simplesmente foi.
No Lar, mostraram-lhe vários miúdos. Pequenos, bem-dispostos ou sorridentes, crianças que sabiam causar boa impressão. Beatriz, sentada num canto, fingia ler um livro. Ou só fingia só espreitava a estranha, aquela mulher que vinha escolher uma criança como se compra um cachorro. Magrinha, cabelos curtos sem arranjo, uma cicatriz no pulso esquerdo. A educadora murmurou: Beatriz, é complicada, nem vale a pena. Dona Teresa aproximou-se: O que estás a ler? Beatriz mostrou a capa, muda. O Conde de Monte Cristo. Dona Teresa disse: É bom livro. Beatriz: Pois, sem tirar os olhos do papel.
Escolheram-se ou não escolheram, assim calhou e depois já não se troca.
Os primeiros meses foram duros. Ao início, Dona Teresa acabava muitas noites sozinha na cozinha, de portas fechadas, a achar que se calhar se enganou. Beatriz era fria. Não rude, mas com maneira de espinho. Compraste o pão errado. Porque entraste no meu quarto?. Não preciso da tua ajuda. Porta fechada. Se Dona Teresa batia, vinha lá de dentro: Quê? Não entra, não sim. Apenas quê?. Como a um estranho.
Uma noite ouviu Beatriz tossir com força. Ficou à porta uns minutos, depois entrou. Febre, a miúda deitada, bochechas vermelhas, olhar teimoso para o tecto. Dona Teresa foi à cozinha, fez leite quente com mel e manteiga, receita da mãe dela. Trouxe. Beatriz pegou e bebeu sem agradecer. Só depois disse:
Porque levas manteiga?
Fica melhor assim.
É horrível.
Mas faz bem.
Silêncio.
Está bem disse Beatriz.
Foi a primeira palavra real entre elas. Não quê, não não preciso, mas um simples está bem. Pequeno, de uma sílaba só, mas Dona Teresa guardou para sempre.
Depois vieram os jeans. Beatriz queria uns iguais aos da Rita da turma, caros, com bordados no bolso. O dinheiro era apertado. Dona Teresa comia sempre o mínimo na cantina do emprego, em casa nem dizia à filha que tinha fome. Mas comprou os jeans. Beatriz olhou para ela, depois para os jeans, depois de novo para Dona Teresa. Não disse nada. Foi para o quarto. Uma hora depois saiu já com eles vestidos.
Assentam bem.
Ficam-te bem.
Obrigada murmurou, baixo, como se lhe custasse dizer.
Assim se foi construindo. Devagar, aos solavancos, nada de filme bonito em que filha adotada chama logo mãe. Na vida real é mais como assentam bem e está bem. E tu agarras-te a esse está bem porque é tudo o que tens.
Beatriz ficou ainda três anos, depois entrou para a universidade. Para professora do 1.º ciclo, coisa que surpreendeu Dona Teresa: com o feitio daquela rapariga e crianças, seria possível? Mas Beatriz disse que era isso mesmo o que queria, e a mãe não discutiu. A filha mudou-se para o quarto da residência. No princípio ligava pouco, depois mais. Às vezes vinha aos fins-de-semana, comia a sopa, via televisão, contava coisas do curso. Alguma coisa entre elas mudou, com a distância. Talvez lhes tivesse feito bem.
Mas o que Beatriz partilhava era sempre o superficial. Residência, aulas, amigas. Nada de íntimo. Nada do que ia lá dentro.
Há um ano, em Março, Beatriz ligou e o tom era estranho. Dona Teresa perguntou: Está tudo bem? Ela disse: Está, mãe, só cansada. E foram falando de outras coisas. Dona Teresa pensou muito depois sobre essa chamada. Deveria ter perguntado de outra maneira. Não está tudo bem, que toda a gente responde está. Devia ter dito qualquer coisa diferente. Mas não sabia o quê.
O que aconteceu nesse Março, Beatriz contou só muito depois, quando Miguel já tinha seis semanas e olhava fixamente para o canto esquerdo do tecto, sempre o mesmo.
O professor era da cadeira de pedagogia. Beatriz ia às consultas; ele sabia ouvir, dava a sensação de entender melhor que ninguém. Era casado, Beatriz sabia-o. Mais tarde vinha acusar-se, dizendo que isso não desculpava, que era burra, mas, quando se tem vinte e dois anos e olham para nós como se fôssemos as únicas, não é fácil dizer não. Ainda mais para quem cresceu num lar, sem nunca ninguém ligar assim.
Acabou em Outubro: apareceu a mulher dele. Dona Teresa tentou imaginar essa cena. Mulher de trinta e tal anos, a gritar no corredor, em frente a todos. Disse coisas terríveis sobre Beatriz; o professor apenas pegou-lhe no braço e levou-a, sem olhar para trás.
Não olhou uma única vez.
Beatriz ficou parada, fixando-lhe as costas. Depois refugiou-se na casa de banho, fechou-se num compartimento e lá ficou uma hora. Ninguém foi ao seu encontro. Toda a gente ouvira e vira, mas ninguém foi. Ou tiveram medo, ou não quiseram meter-se.
Três semanas depois, o teste de gravidez deu positivo.
Beatriz ficou meia hora a olhar para ele, sentada na borda da banheira na residência. Lavou a cara, viu-se ao espelho e disse, em voz alta, para si: Pois, pronto. Depois ligou à Mariana da Amadora, a única pessoa em quem confiava.
Mariana disse: Fica aqui o tempo que precisares.
Porque não ligou à mãe?
A explicação de Beatriz foi simples e dura.
Tu ias logo tentar resolver. Dizias o que fazer. Chamavas assistência social, ou dizias para pedir ao pai pensão, ou sugerias interrupção dos estudos. Ias tratar tudo como um problema. Mas eu só queria alguém ao lado para ficar em silêncio. Tu não sabes só estar, mãe. Só sabes agir.
Dona Teresa não contestou. Reconheceu-se ali. Sempre fora igual.
Março virou Abril. Beatriz morou com Mariana. E Mariana revelou-se uma excelente amiga: não impunha conselhos, cozinhava, trazia água a horas impróprias. Gente assim é rara, Dona Teresa agradecia-lhe de coração, ainda que nunca tivesse jeito de o dizer.
Miguel nasceu em Janeiro. Saudável, de cabelos escuros, de ar birrento. No hospital, quem ficou ao lado de Beatriz foi Mariana, não a mãe.
Quando Beatriz contou tudo, Dona Teresa ficou calada muito tempo. Só depois disse:
Devia ter sido outra.
Pois Beatriz concordou. Talvez.
Não sabia ser diferente.
Eu sei. E isso não faz doer menos, mas pelo menos explica.
Agora eram três em casa. Dona Teresa cedeu o maior quarto a Beatriz, colocou lá o berço que comprou à vizinha Dona Graça, que provou ser uma fonte valiosa de dicas. Dona Graça aparecia dia sim, dia não, com panelas e conselhos (uns melhores que outros):
Ora vê lá este Miguel, um rapazola jeitoso! Ainda bem que é chorão, os caladinhos são os piores, falo por experiência.
Beatriz ouvia a vizinha como se fosse uma dor de dentes, mas não a despedia. Porque verdade seja dita, Dona Graça era útil: ficava com Miguel para Beatriz descansar, sabia tudo de cólicas, e ainda trouxe a nora, médica pediatra, para ver o bebé.
Dona Teresa já não trabalhava, a reforma chegava para viver sem sobressaltos. Às vezes doíam-lhe os joelhos, outras tinha a tensão descontrolada, sobretudo nos dias de chuva. Mas não se queixava à filha, que já tinha tanto com que se preocupar.
Iam-se ajustando. Esse processo entre duas pessoas que nunca aprenderam de verdade a conversar. De manhã, Beatriz dava de mamar, Dona Teresa fazia papas, chá em silêncio. Beatriz dizia às vezes: Hoje ele dormiu a noite toda, imagina. Ou: Tem a pele toda cheia de borbulhas, aqui. Primeiros ensaios de novo diálogo. Cautelosos, vagos, mas já um princípio.
Em Abril, o João telefonou.
Dona Teresa lia o jornal na cozinha. O telemóvel tocou e ela, olhando o visor, ficou uns segundos a hesitar: João. Nunca apagara o número. Porquê, nem sabia.
Sim? disse.
Teresa, sou eu. A voz era diferente. Antes era segura, às vezes metida consigo. Agora cansada, mais baixa. Podemos encontrar-nos?
Foram a um café perto de casa. O João estava magro, cabelo branco todo, olheiras profundas. Dona Teresa olhou para ele e percebeu que já não sentia raiva. A raiva passara há uns dez anos, restava cansaço.
Ele pediu chá. Mexeu durante muito tempo, depois disse:
Descobriram-me o cancro em Abril. Pâncreas. Vou ser operado em Junho.
Ela nada disse.
Não quero piedade atalhou ele. Só queria avisar. Tenho andado sozinho. As miúdas cresceram, têm vida. A mulher é boa pessoa, mas pronto. Parou. Queria dizer que fui errado ao sair assim, há anos. Foi uma cobardia.
Foi ela disse. Sem pergunta, apenas constatação.
Vendo a pequena loja. Deve dar um valor jeitoso. Quero passar para ti.
Dona Teresa pousou a chávena.
Para quê?
Vais precisar de casa maior. Falava como se soubesse tudo da sua vida. Depois percebeu: Dona Graça. Enfim. Ouvi dizer que tens a tua filha e neto contigo. Não hão de caber ali.
Não tens que te meter.
Teresa…
Não precisas, João. Não te diz respeito. Não falo zangada. É só assim. Precisas disso para ti, não para mim.
Ele não contestou. Sabia, provavelmente.
De regresso de autocarro, Dona Teresa olhava as árvores já com rebentos verdes, a primavera vinha cedo. Pensava que o João parecia doente. Pensava que não sentia falta dele, mas incomodava saber que estava mal.
Quando chegou, contou à Beatriz.
Beatriz olhou para ela. Miguel adormecido ao colo.
E então?
Quer dar-nos dinheiro.
Não, respondeu logo Beatriz.
Filha…
Mãe, ele deixou-te porque não podias ter filhos. És tu que entendes? Foi-se embora e a culpa parecia tua. Agora vem com dinheiro, porque tem medo, está doente. Não.
Dona Teresa olhou a filha.
E se eu aceitar?
Então não percebo.
Há muito sobre mim que não entendes disse calmo Dona Teresa. E sobre ele. Ele é má pessoa? Fez mal? Sim. Mas não é vilão, Beatriz. É só fraco. Assim são quase todos.
E vais perdoá-lo?
Já o fiz. Só não tinha tido ocasião de dizer isso.
Beatriz encarou a mãe. No rosto entreviu-se algo ira, ou talvez outra coisa.
É contigo murmurou. A tua vida.
Aceitou o dinheiro. Não só pela casa fazia falta, claro: dois quartos para três pessoas é pouco, Miguel precisava do seu espaço, Beatriz de um local para estudar, já faltava pouco para acabar o curso. Mas não só por isso. Aceitou porque o João precisava desse alívio. Era assunto dele, não dela.
Durante semanas Beatriz mal lhe falou. Sem discussões, só frases curtas, sempre evasivas. Era assim desde adolescente: a filha fechava-se em si.
Dona Graça entrou certa noite com a panela de sopa, olhou para ambas, abanou a cabeça:
Vocês são iguais. Teimosas e caladas, quando deviam abrir a boca.
Beatriz respondeu:
Dona Graça, respeito-a muito, mas não lhe diz respeito.
Dona Graça não se ofendeu. Deixou a panela e foi-se. Voltou no dia seguinte.
O verão passou. Miguel crescia. Os primeiros dentes não deram descanso a ninguém. Beatriz preparava a tese, Dona Teresa ficava com Miguel enquanto ela estudava. Um novo equilíbrio começava, havia qualquer coisa de bom ali, mesmo ninguém querendo admitir.
No fim de Outubro chegou carta do João. Não era email, carta mesmo, coisa rara. A operação é dia doze de Novembro. Não sei como vai correr. Se não der, obrigado por tudo. Por não me teres acusado. Por teres aceite. Mais nada, nem morada, nem pedidos.
Dona Teresa leu duas vezes, guardou num gavetão.
Beatriz viu a carta. Perguntou só: de quem? Dona Teresa disse: do João. Ela assentiu, nada disse.
Depois veio a véspera de Ano Novo.
Dia trinta e um, mãe e filha sozinhas com Miguel. Dona Graça na casa da filha. Mariana convidara Beatriz, mas ela quis ficar. Sem terem combinado celebraram as duas: trouxeram tangerinas, Beatriz fez salada russa, Dona Teresa tirou um bolo do congelador. Miguel dormiu às sete, imune a festividades.
Às dez estavam à mesa. A televisão passava música sem entusiasmo. Beatriz picava a salada, olhando a loiça. Dona Teresa bebia chá, sem saber o que dizer.
Depois Beatriz levantou a cabeça.
Escrevi-lhe disse ela, assim, sem rodeios. Quando Miguel nasceu. Disse-lhe que tinha um filho nosso.
Dona Teresa percebeu de quem falava. Baixou a chávena.
E?
Não respondeu o olhar fixo, a voz quieta . Bloqueou-me em todo o lado. Já não existo para ele. Nem eu, nem o Miguel.
Dona Teresa calou-se.
Sei que fui tonta continuou Beatriz. Sei que ele nunca foi meu. Que devia, ao menos sei lá. Podia ter respondido, só um não me incomodes. Só para saber que leu. Mas bloqueou. Como se nunca tivesse existido. Como se o Miguel não existisse.
Olhou pela janela. Lá fora já deitavam foguetes no céu, faltavam ainda duas horas.
Tenho vergonha, mãe, disse Beatriz, quase para si. Vergonha por ter escolhido alguém assim. Por lhe ter dado isso. Por ter-me calado meses, por vergonha. E agora vergonha por precisar de ti, por só agora dizer isto.
Dona Teresa olhou-a.
Queria dizer um conselho sábio, algo que Beatriz recordasse sempre. Mas não encontrou, porque os bons conselhos só aparecem tarde. Então disse o que era verdade:
Tonta Beatriz olhou-a. Eu também escolhi mal. Casei com quem, ao primeiro tropeço, foi à vida e fiquei a achar que era culpa minha, que não era suficiente Também fiquei sozinha. Calou-se. Mas aí foi mesmo sozinha. Tu agora, não. Tens-nos a nós, percebes? Miguel ali no berço, e eu. Não estás sozinha, Beatriz.
A filha esteve uns momentos calada, depois deixou ver, finalmente, o cansaço guardado há meses.
Fiquei zangada contigo disse. Muito. Por não teres notado. Por trabalhares sempre. Por aceitares o dinheiro do João. Por o perdoares.
Eu sei.
Ainda não percebo como conseguiste.
Um dia vais entender. Para já, só não queres aceitar.
Beatriz baixou a cabeça. Depois ergueu-a de novo.
Mãe, gostava de ter-te ligado. Em Outubro, quando soube. De não ter tido vergonha. De olhar para trás e pensar que fiz tudo certo. Mas foi só orgulho, parvo.
Também tenho pena, filha. De ser mãe com quem se fica com medo de falar. Devia ter feito diferente. Devia ter-te mostrado que me podias contar tudo, não o fiz. Estava sempre ocupada, sempre noutro lado. Tens razão. Também é culpa minha.
Ficaram caladas. A televisão prometia qualquer coisa festiva e mergulhou em intervalos.
É bonito disse Dona Teresa, a olhar para o neto.
É sim concordou Beatriz, e o rosto suavizou um pouco. Dona Graça diz que ele tem cara de artista.
Ela diz isso de todos.
Eu sei. Mas sabe bem ouvir.
Não se abraçaram, ninguém chorou alto, nem palavras sobre amor. Apenas Beatriz levantou-se para por água a ferver, e tocou no ombro da mãe de leve. Dona Teresa apertou-lhe a mão, só um instante. Só isso. Foi assim.
O novo ano entraram assim: tangerinas, televisão, Miguel acordando com os foguetes. Ficaram os três à janela, vendo os fogos. Dona Teresa pensou que um ano antes estava sozinha, só lhe restava a reforma, a tensão e dias todos iguais. Agora tinha uma filha que, finalmente, dizia a verdade, e um neto que olhava os fogos como se os avaliasse.
Talvez isso seja mesmo um recomeço. Sem festa, só silêncio e tangerinas.
Em Maio, Beatriz apresentou a tese.
Dona Teresa foi sozinha, deixando Miguel com Dona Graça, esta de blusa festiva desde manhã. Dona Teresa sentou-se nas filas de trás da sala. Pequena, cheirava a livros e pó. Uns dez finalistas, comissão à mesa. Beatriz entrou, de vestido azul-escuro, escolhido juntas na semana anterior. Arrumou o cabelo, abriu a pasta.
Começou a falar, e Dona Teresa percebeu duas coisas. Uma: Beatriz preparou-se, fala com aplomb, responde depressa. Duas: está exausta, mas ali está, firme.
Dona Teresa olhava e via aquela miúda arisca do lar, com o Conde de Monte Cristo. Não sabia o que estava a fazer quando a escolheu. Não sabia se seria fácil. Apenas ficou. Agora, ali estava a filha diante da comissão, com um bebé de um ano em casa.
Quando anunciaram a nota, Beatriz olhou para ela. Encontrou-a com o olhar, e Dona Teresa sentiu um nó na garganta, percebeu que ia chorar. Não chorava há quase quinze anos, desde o funeral da mãe. Mas agora chorou. Limpou os olhos com lenço, achou isso perfeitamente normal.
Tinham marcado café depois da defesa. Beatriz contou as perguntas da comissão. Dona Teresa ouviu, e pensou como há muito não conversavam assim. Ou talvez nunca conversaram tão francamente.
No dia seguinte chegou carta do João. Outra vez papel, sem remetente. Curta: Correu bem. Médicos com boa esperança. Obrigado. Só isso.
Beatriz leu-a calada. Ficou muito tempo a olhar o papel.
Achas que foi por o teres perdoado? perguntou finalmente.
O quê?
Ter-lhe corrido bem a operação. O perdão fez diferença?
Dona Teresa pensou, dobrou a carta.
Não sei disse. Às vezes a medicina. Outras vezes não sei como funciona.
Beatriz olhou pela janela.
O Miguel hoje sorriu para mim. Pela primeira vez, mesmo a olhar-me. Não foi dos cólicos.
Dona Teresa sentiu novamente o nó na garganta.
É para ti disse. Sabe que estás mais tranquila.
Beatriz olhou para ela, depois para o pequeno Miguel, fixo no canto do tecto. Voltou a olhar para a mãe.
Achas mesmo?
Acho respondeu Dona Teresa.
Lá fora, a primavera já era quente, sentia-se terra e erva nova. Mesmo na cidade, ao abrir a janela, o cheiro chega lá dentro. Miguel ressonava. Beatriz levantou-se, foi buscá-lo ao sofá. Ficou à janela, embalando-o, e ele olhava-a sério, confiante, como quem acredita para sempre.







