Diário de Mariana Junho, há dois anos
Nunca pensei que o fim do meu casamento com o António me levasse tão longe literalmente, para o meio do Alentejo profundo, numa herdade esquecida por todos. No processo do divórcio, ele, sempre tão altivo, achou que me poderia despachar com aquele terreno que herdara de um antigo patrão um tal senhor Azevedo, que já ninguém mencionava na família, e um pedaço de terra de que ninguém cuidava há décadas. Nem hesitou: A herdade é tua, Mariana, sorte com isso. E ainda se riu, convencido de que eu não faria nada com aquilo.
No fundo, nem me choquei já devia estar habituada à frieza com que me tratava. No início, éramos gregários, começámos do zero, vendemos o que tínhamos no Porto e investimos tudo, sempre juntos. Só que, aos poucos, ele foi mudando, tornando-se cada vez mais controlador, pondo tudo em seu nome e, quando menos esperei, quis acabar com tudo. E eu? Fiquei com a herdade, longe de tudo segundo ele, quase como uma ofensa.
É assim que achas justo, António? ainda lhe perguntei de coração apertado.
Já não ajudas em nada, Mariana. Esta conversa cansa-me.
Foste tu que disseste para aproveitar para cuidar de mim, lembras-te?
Ele deu de ombros e saiu de casa. Senti-me esvaziada. Não chorei. Arrumei o essencial no carro e deixei o resto para trás, para António e a tal Beatriz, a nova namorada dele, uma mulher de pose, mas pouco sumo.
Quando ele me entregou a escritura, ainda disse, num tom gozão: Diverte-te com as ovelhas, Mariana. Fechei a porta do meu carro sem responder e segui viagem, de olhos marejados e coração incerto. Chorei até o sol se esconder e parei numa vila perdida, onde fiquei de cabeça encostada ao volante, a pensar no que seria de mim dali para a frente.
Uma senhora simpática, Dona Quitéria, bateu-me ao vidro, preocupada, perguntando se estava bem. Expliquei-lhe, embaraçada, que tinha passado por tudo e mais alguma coisa e precisava só parar um pouco. Ela, compreensiva, contou que tinham ido visitar uma vizinha do hospital e perguntou se ia para Estremoz, mesmo onde ficava a herdade.
Respondi, entre surpresa e alívio: É para lá mesmo! Ofereci boleia e, pelo caminho, contaram-me tudo sobre a terra: tinha sido grande, mas agora era só mato, meia dúzia de vacas as pobrezinhas, disse Dona Quitéria e muito abandono. Quase ninguém cuidava mais do sítio, só uns vizinhos, porque tinham pena dos animais.
Quando lá cheguei, pouco havia senão campos baldios e um estábulo a cair. Mesmo assim, decidi: não ia ceder. Passei noites sem dormir, a fazer contas, a vender as poucas jóias que tinha herdado da minha avó para comprar ração, a pedir conselhos a vizinhos e a lutar contra o desânimo. No primeiro inverno, pensei em desistir várias vezes. Stive quase a apanhar o primeiro comboio de volta ao Porto. Mas algo dentro de mim me segurou.
Um ano depois, ao olhar o prado, emocionou-me ver cerca de oitenta vacas e as pastagens verdes, vivas como nunca. Tinha transformado aquela herdade esquecida numa quinta próspera, com leite que já se vendia não só em Estremoz, mas também em Évora e arredores. As encomendas começavam a aumentar e, pela primeira vez em muito tempo, respirei fundo e sorri com orgulho ao ver a minha obra.
Foi então que a Gabriela, uma moça ajudante que arranjei na vila, me trouxe um recorte de jornal: havia camiões frigoríficos à venda por um preço irrecusável. O número de contacto, para meu espanto, era o de António a empresa dele estava em apuros. Senti-me, confesso, vingada. Pedi à Gabriela para ligar, a oferecer um pouco mais do que ele pedia, mas com a condição de que os veículos não fossem mostrados a outros compradores.
No dia em que fui levantar os camiões, vi-lhe a cara de espanto. Ficou mudo.
Vais mesmo comprar isto tudo? perguntou, incrédulo.
Para a quinta que me deixaste. Agora é um sucesso, António, respondi-lhe serena. E fui-me embora, sem saudade.
Ao meu lado estava o João um mecânico de mãos calejadas e sorriso simples com quem acabei por reconstruir a minha vida. Com ele, vi a herdade crescer ainda mais e juntos celebrámos o batizado da nossa filha, Matilde, rodeados de amigos e vizinhos. À distância, ouvi dizer que António ficou a olhar para tudo isto, sem saber que fazer à própria vida.
No fim, percebi que aquele pedaço de terra foi o maior presente que me podia ter sido dado. Por muito que doam as despedidas, recomeçar pode ser o nosso maior triunfo.







