Durante as férias nas Termas, inscrevi-me para um baile. Quando ele me estendeu a mão, fiquei sem palavras – era o meu primeiro namorado do secundário

Durante as férias no spa, inscrevo-me num baile elegante. Não tenho intenções de aventuras românticas só quero esquecer a rotina, ouvir música ao vivo e deixar o corpo dançar um pouco.

O salão está cheio de gente, o burburinho mistura-se ao som do saxofone, e eu, com um vestido leve de verão, sinto-me quase como uma miúda no primeiro baile da escola. De repente, sinto uma mão pousar suavemente no meu ombro.

Podemos dançar? pergunta uma voz masculina. Viro-me sorrindo, pronta para dançar com um desconhecido. Mas não é um estranho. Olho para um rosto que não via há quarenta anos e, de repente, o tempo para.

É o Miguel. O meu primeiro namorado no liceu, aquele que me escrevia poemas nas margens dos cadernos e me levava até ao portão de casa.

Sinto as pernas tremerem. Miguel? suspiro. Ele sorri com aquele mesmo ar traquinas que recordo das tardes em que nos sentávamos juntos no muro à porta da escola. Olá, Matilde diz, com naturalidade, como se nos tivéssemos visto ontem. Danças comigo?

Vamos para a pista e a banda começa a tocar um velho swing. Dançamos como se nunca tivéssemos parado. Ele lembra-se de que gosto que me guiem com confiança, mas com leveza, sem puxões. Eu volto a sentir-me uma rapariga de dezoito anos, a acreditar que a vida está toda pela frente.

Na pausa, sentamo-nos a uma mesa num canto da sala, sentindo o perfume a envolver-nos no ar quente e denso. Achei que nunca mais te ia reencontrar confessa. Depois do exame final, tudo passou tão depressa Faculdade, trabalho, viagens E, de repente, lá se foram quarenta anos.

Falo-lhe do meu casamento, que terminou há alguns anos, das filhas que já têm a sua vida. Conta-me que perdeu a esposa há três anos e que reaprender a viver sozinho foi difícil. Ouço-o e sinto que, apesar do tempo, continuamos a falar a mesma língua feita de palavras subtis, piadas partilhadas, olhares de complicidade.

A música recomeça e Miguel estende-me a mão. Mais uma dança? sorri. Assim passa a noite dança após dança, conversa após conversa. Ambos sabemos que não é um encontro vulgar entre dois desconhecidos num spa. É muito mais do que isso.

No final do baile, saímos para o terraço. A névoa levita sobre o Atlântico e os candeeiros pintam a noite de ouro. Lembras-te que prometi que dançaríamos juntos aos sessenta anos? diz de repente. Fico sem reação. Tinha esquecido esse pacto brincalhão de adolescentes que sempre me pareceu tão distante. Pois é sorri ele , hoje cumpri a promessa.

Sinto um nó na garganta. Sempre pensei que os primeiros amores eram belos por acabarem. Que, se durassem, perderiam o encanto. Agora, porém, vejo diante de mim o Miguel cabelos grisalhos, rugas em redor dos olhos e continuo a enxergar o rapaz que conheci.

Subo ao quarto com o coração aos pulos, igual ao que sentia aos dezoito anos. Percebo que isto não é acaso. Que, às vezes, o destino dá-nos uma segunda oportunidade, não para revivermos o passado, mas para o vivermos finalmente como deve ser.

Talvez por isso, quando Miguel, no dia seguinte, me convida para um passeio pela praia, nem penso duas vezes. O sol começa a despontar no horizonte, tingindo a água de dourado e rosa. A praia está quase vazia, apenas gaivotas sobrevoam as ondas e ao longe avista-se um casal idoso a apanhar conchas.

Caminhamos devagar, descalços, deixando que as ondas frias nos refresquem os pés. Miguel fala-me da sua vida como o destino o levou para vários sítios depois do liceu, das viagens que procuravam dar-lhe alegria, mas nunca substituíram o brilho de um sorriso antigo. Ouço-o e dou por mim a sentir cada palavra derreter anos de silêncio entre nós.

A certo ponto, ele para, apanha um pequeno pedaço de âmbar na areia e entrega-mo. Em miúdo, imaginava que o âmbar era bocados de sol caídos no mar comenta, com ternura. Que seja o teu talismã.

Agarro o âmbar, sinto-o quente na mão, mesmo vindo do mar gelado. Olho para Miguel e vejo quem ele se tornou, mas também o rapaz do liceu, que fazia o mundo parecer mais leve e luminoso.

Caminhamos horas, embora só pareça terem passado minutos. Quando regressamos, o vento solta-me os cabelos e ele afasta-os do meu rosto, com aquele gesto de sempre que reconheço. Percebo, então, que não quero olhar para este reencontro como uma nostalgia qualquer. Quero arriscar, dar-me uma real oportunidade, sem medo do futuro.

Ao entardecer, sentados no terraço do spa, admiramos o pôr-do-sol juntos. Não são precisas grandes promessas, só um silêncio onde me sinto protegida. Miguel põe a mão sobre a minha e murmura: Talvez a vida saiba sorrir-nos uma segunda vez. E eu, pela primeira vez em muito tempo, acredito que sim.

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Durante as férias nas Termas, inscrevi-me para um baile. Quando ele me estendeu a mão, fiquei sem palavras – era o meu primeiro namorado do secundário