Durante a minha carreira como educadora, vivi uma situação que até hoje me marca. Na minha sala estava o menino Tiago, um rapaz que nasceu com várias complicações de saúde: atraso no desenvolvimento, problemas cardíacos e, ainda por cima, tinha lábio leporino e fenda palatina.
Até aos quatro anos, era impossível perceber o que ele queria dizer; só aos seis, depois de muita terapia e apoio de especialistas, é que o Tiago começou finalmente a conseguir comunicar-se, ainda que falasse muito pelo nariz e com entoação estranha, mas já se percebia o que dizia.
Aproximava-se o Dia da Mãe, no último ano de pré-escolar. Decidimos então que seria o Tiago a recitar um poema tínhamos de lhe dar essa oportunidade, porque ele sentia vergonha da sua fala e das cicatrizes nos lábios. Sabíamos o risco, o stress a que o íamos sujeitar, mas a vida não é uma estufa: é preciso sair da zona de conforto, superar-se, para acreditar em si mesmo e mostrar que é capaz como qualquer outro.
Além disso, ele próprio queria muito participar; quando as outras crianças ensaiavam, ele copiava movendo os lábios, tentando acompanhar.
O poema era dedicado às mães. A mãe do Tiago ficou radiante ao saber que o filho ia ter um papel, nem esperava. O Tiago também nunca tinha acreditado que poderia confiar-lhe algo tão importante, pois sabia ser diferente e era sensível a isso.
Mãe e filho empenharam-se a sério: todos os dias repetiam o poema várias vezes em frente ao espelho, juntos em casa, ora em voz baixa, ora em voz alta, perante a família e amigos.
Chega o dia do espetáculo. Quando chega a vez do Tiago, vê-se que está bastante assustado, mas diz que vai ler para a mãe, só para ela foi por ela que aprendeu o poema. Sobe ao palco, de fato e gravata, todo elegante; começa bem, fala nitidamente. Só que, passado pouco tempo, nota-se que ficou nervoso e começa a hesitar. Até chegar a estes versos:
Da escada responde o João: Mãe piloto? E depois? Olhem o Tiago, por exemplo, a mãe dele é
E ali ele trava, a tentar lembrar-se da palavra difícil:
Mãe con-di-ci-o-na-do-ra!
Já se ouviam algumas gargalhadas. O Tiago corou, baixou a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos, ficou amagado mas tentou continuar:
E o Rui e a Teresa, as mães deles são
Condicionadoras! gritou alguém cheio de graça lá do fundo. E pronto, o pessoal não se aguentou: riram-se alto.
O Tiago virou costas e fugiu. Encontrei-o junto à escada, a limpar as lágrimas furiosas na manga. Cheguei-me ao ouvido dele e disse que aquela pessoa foi parva, fez uma brincadeira de mau gosto, mas não valera a pena. Perguntei ao Tiago se queria tentar outra vez recitar o poema para a mãe e para mim. Desta vez com a palavra polícia. Que eu ajudava se faltasse a palavra.
Ele bufou, abanou a cabeça a dizer que não queria, mas depois afastou-se, ponderou e disse baixinho que queria para a mãe, mas tinha medo. Prometi ficar ali ao lado, de mão dada, e logo que fosse preciso ajudava.
Tiago aceitou. Confiei-o à auxiliar, que veio de imediato limpar-lhe a carinha, e voltei para o auditório. Esperei pelo fim do número seguinte, pus-me diante dos pais e, mesmo com as pernas a tremer, pedi para falar. Nunca esqueci aquilo que disse, embora os anos tenham passado.
O Tiago tem seis anos expliquei. E passou a maior parte da sua pequena vida em hospitais e clínicas. Já teve mais operações do que aniversários. Durante anos não conseguiu dizer uma palavra, mas este ano aprendeu, finalmente, a expressar-se e foi suficientemente corajoso para subir e recitar um poema perante todos. Ele quer fazê-lo. Só para a mãe, exclusivamente. Ajudem-no, por favor, a ouvi-lo. Para ele é difícil e assustador.
Houve silêncio na sala. Trouxe o Tiago de trás do pano, ele vinha contrariado, olhos no chão pequeno, rechonchudo, com o lábio superior ligeiramente levantado, ainda a chorar mas teimoso. Ficou calado.
Força, Tiago! gritou a mãe.
Vai, Tiago! incentivou a mesma voz traquina lá atrás. Eu baixei-me, segurei-lhe na mão:
Vá, Tiago, para a mãe, murmurei.
O Tiago inspirou fundo e começou tudo outra vez. Ao chegar ao verso: Da escada respondeu o João: Mãe piloto? E depois!, ficou encarnado, mas continuou:
Olhem o Tiago, por exemplo, a mãe dele é po-lí-ci-a! E o Rui e a Teresa, ambas as mães são engenheiras!
Olhou para o público, de peito feito, desafiador.
Nunca o nosso pequeno auditório tinha visto uma ovação assim. Bateram palmas todos pais, crianças, educadoras e funcionários. Alguns até se levantaram. E o Tiago nem conseguia continuar de tão barulhenta que era a celebração. Mas não foi preciso: ele já tinha mostrado tudo.
No final da festa, a professora de música puxou-me de parte.
Merecias era uma valente bronca disse.
E desatei a chorar. Saíram todas as emoções guardadas até então. Ela fez sinal de que fechava a porta, encostou-me a uma cadeira e prosseguiu:
Deviam passar-te um raspanete, podias ter estragado a festa. Mas ninguém julga os vencedores. E tu e o Tiago são vencedores. Limpa as lágrimas e volta para as crianças.
Porquê lembrar este episódio passados 13 anos? Porque há poucos dias encontrei na rua a mãe do Tiago, e ela reconheceu-me. Contou-me que o Tiago entrou este ano para a universidade pública, passou com excelência em todos os exames logo na primeira tentativa. E sabem para que curso? Linguística!
E ela transmitiu-me um recado dele: Se não fosse aquele dia, teria continuado a ver-me como inválido.
O que é importante nesta história? Persistência, força interior O fundamental é que deixou de ser um miúdo marcado pela diferença para ser um adulto pleno! E isso foi possível graças às pessoas que o rodearam. Sejamos mais tolerantes e humanos uns com os outros!
