Duas Destinadas: Caminhos Cruzados

Do outro lado do vidro da caixa, a vida seguia num ritmo muito próprio. Para Mariana, aquele mundo retangular da caixa registadora, da balança e do leitor de códigos de barras era ao mesmo tempo a sua prisão e o seu refúgio. Prisão, porque todos os dias eram um Dia da Marmota sem fim: o mesmo bip incessante, os pacotes de arroz, as salsichas, os sorrisos falsos. Refúgio, porque fora daquelas portas, no seu apartamento, esperava por ela o verdadeiro inferno e esse inferno tinha nome: Gonçalo.

Ó menina, está quase? Eu não vim para aqui tirar férias, resmungou um homem barrigudo, com o carrinho de compras a abarrotar.

Estou quase a terminar, respondeu Mariana, sem olhar para ele. A rudeza era o seu escudo.

Detestava aquele trabalho, as filas intermináveis, as caras fechadas, o cheiro a detergente barato misturado com pão de forma. Mas aquele emprego dava-lhe euros que ela ia guardando num esconderijo atrás do rodapé da cozinha. Era o seu plano secreto de fuga.

A fila avançava. Mariana trabalhava como um autómato: Boa tarde, vai querer saco? São dezasseis euros e cinquenta. Obrigada. Até que aquela rotina foi interrompida apenas por um olhar.

Ele era o quarto da fila. Alto, magro, de calças de ganga e uma gabardina azul-escura, cabelo curto, barba mal feita e uns olhos uns olhos de quem já viu o mundo a doer. Não era cansaço, nem zanga era uma tristeza funda, que ele guardava lá no fundo. Mariana reconheceu imediatamente esses olhos; era como encontrar uma alma gémea perdida no meio da multidão.

Quando chegou a vez dele, a voz dela tremeu sem querer.

Boa tarde, disse ela, com uma doçura insólita.

Boa noite, respondeu ele. Voz grave, sóbria, um pouco rouca.

Na passadeira, o mínimo: uma garrafa de água, um pacote de arroz carolino, um iogurte grego. Parecia o cabaz de quem vive sozinho. Ou de quem já nem liga ao que come. Mariana reparou num anel de aço no dedo direito maciço, diferente. Que estranho, pensou ela, mas não mostrou reação.

São dezoito euros e oitenta, informou.

Ele passou-lhe uma nota, e os dedos tocaram-se por um instante. Da mão dele vinha um calor seco. Mariana afastou logo a mão, como se se tivesse queimado. Sentiu o peito apertar por um sentimento tão proibido, quanto inesperado.

Fique com o troco, disse ele, sorrindo só com o canto dos lábios.

Está bem, assentiu ela, sem conseguir não o seguir com o olhar.

Assim que ele saiu, parecia que o supermercado ficou mais escuro. Mariana abanou a cabeça para se recompor. Gonçalo. Era nele que devia pensar. Nele e em como à noite, mais uma vez, teria de se esquivar àquela mão pesada, às palavras azedas de sempre sobre mulheres ingratas. Mas o desconhecido já não lhe saía da cabeça. E ele voltou a aparecer. Às vezes todos os dias, outras vezes só uma vez por semana e nesses dias, tudo parecia mais cinzento.

Soube, por acaso, que se chamava Duarte ouviu a vizinha do 2.º esquerdo, dona Rosa, dizer: Ó Duarte, então rapaz, tudo bem? Sim, Duarte. Um nome bonito e forte. Combinava com ele.

Cada vez que ele vinha ao supermercado, era quase um ritual. Mariana esforçava-se por ser séria, mas mal ele se aproximava, ajeitava o cabelo, endireitava o avental. Ele olhava para ela não como se olha para uma funcionária, mas como quem olha para uma pessoa. Um dia, ao pagar, perguntou num tom baixo:

Está a ser um dia difícil?

A pergunta apanhou Mariana de surpresa nunca nenhum cliente se tinha interessado por ela a sério.

Nem por isso. Normal, conseguiu ela murmurar, sentindo um nó na garganta. Queria tanto dizer-lhe: Todos os meus dias são duros. Porque hoje à noite pode ser mais um dia em que apanho. Em vez disso, limitou-se a um sorriso falso.

Duarte não insistiu. Só acenou, e foi embora.

Nessa noite, Gonçalo estava pior do que o costume. Bebeu não com os amigos do costume, mas com uns tipos desconhecidos, que deixaram a casa cheia de beatas e garrafas vazias. Quando Mariana chegou a casa, morta da jornada em pé, ele estava sentado à mesa, olhos fixos no nada.

Chegaste, murmurou ele por entre os dentes Sempre a trabalhar e a casa um caos. Nem comida há.

Mariana ficou calada. O silêncio era a sua melhor defesa. Se não lhe respondesse, talvez ele se cansasse mais depressa.

Então, não dizes nada? Estou a falar contigo! Gonçalo levantou-se, a cambalear, tapando a passagem com o corpo pesado. Não tens respeito nenhum.

Tentou escapar para o quarto, mas ele agarrou-lhe o braço. Os dedos fincaram-se tanto, que ficaria a marca.

Larga-me, Gonçalo, pediu ela baixo.

E se não largar? aproximou-lhe o rosto fétido de álcool. Sem mim não és ninguém. Percebeste? Ninguém!

Mariana conseguiu escapar e trancou-se na casa de banho, ligando a água ao máximo para não ouvir os gritos e os murros na porta. Sentada na borda da banheira, olhava as mãos já sem nódoas negras, mas endurecidas. O que doía agora era a alma, cheia de marcas invisíveis.

De manhã, uma nódoa roxa escura no cotovelo. Teve de pôr um casaco comprido, mesmo sabendo que ia passar calor no supermercado.

Na caixa, enquanto passava as compras, viu Duarte outra vez. O coração disparou mas sentiu logo medo: E se ele repara que mexo o braço com dificuldade? E se percebe?

Saco não é preciso, disse ele, passando-lhe o cartão. Nesse momento, o olhar dele recaiu no cotovelo a manga subiu, e lá estava a marca escura, feia.

Os olhos de Duarte mudaram: a tristeza foi substituída por algo gelado, perigoso. Olhou para Mariana, mas não com pena foi uma raiva funda e fria, rapidamente escondida.

Obrigado, limitou-se a dizer. Pegou nas compras e saiu.

Mariana ficou gelada, não por medo de Gonçalo, mas por essa reação intensa daquele homem calado. Assustou-a aquele brilho fugaz nos olhos dele.

Nessa noite, ao sair do trabalho, atravessava o jardim quando, inesperadamente, Duarte se lhe juntou.

Mariana, posso falar contigo um minuto? perguntou ele, sem soar a pedido, mas a certeza calma.

O que queres? perguntou ela, desconfiada. Pela primeira vez, estavam frente a frente fora do supermercado, e ele parecia ainda mais distante.

Vou acompanhar-te a casa, anunciou, como se fosse óbvio.

Não é preciso, eu moro já ali, protestou ela, mas ele já caminhava a seu lado.

Eu sei. Sei tudo sobre ti, Mariana, disse Duarte baixo, tão baixo que o coração dela quase parou de bater. Sei onde moras. Sei como se chama o teu marido. E sei que ele te bate.

Mariana parou seca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito.

Eu posso ajudar-te.

Eu não preciso de ajuda! quase gritou, mas a voz tremeu. Tu não sabes nada! Vai-te embora!

Sei, repetiu ele. Porque já fui igual. Também apanhei.

Estas palavras desarmaram-na. Ficou ali parada a olhar para ele. Não havia mentira nos olhos dele. Só aquela dor profunda que ela notou no primeiro dia.

O meu padrasto matou a minha mãe, contou Duarte, como quem lê uma página de um velho diário. Eu tinha doze anos. Ouvi os gritos no corredor. Depois ele saiu, limpou as mãos e disse: Faz massa para o jantar. Não fiz nada. Era pequeno, fraco, um cachorrinho assustado. E fiz-lhe o jantar.

A Mariana ouvia, sem conseguir mexer-se. O ar entre eles parecia pesado, denso.

Desde então, prometi a mim próprio, ele olhou-a de frente onde eu vir isto a acontecer, não fico parado. Não tenho o direito de fechar os olhos. Isto que acontece contigo não é culpa tua, Mariana. Mas já não é só teu é dos dois, se quiseres.

Ela olhou para ele e finalmente viu: não era só um homem bonito, era o menino magoado que nunca deixou de viver dentro dele, que carregava aquele anel de aço no dedo como lembrete de uma promessa.

E o anel? sussurrou Porquê?

Era do meu padrasto, respondeu, a voz dura. Tirei-lho da mão quando foi preso. Para nunca esquecer do que são capazes certas pessoas. Para não esquecer que quem cala, consente.

Uma lágrima caiu no rosto de Mariana. Não sabia se chorava de medo, de pena dele ou da estranha sensação de não estar mais sozinha.

Anda, disse ele com doçura, estendendo-lhe a mão. Vou só acompanhar-te à porta. Não entro, se não quiseres. Mas hoje não vais subir sozinha.

Chegaram ao prédio. Mariana tremia, mas sentia-se aquecida por dentro. À porta do apartamento, olhou para trás. Duarte estava ali, à sombra.

Obrigada, murmurou ela.

Eu vou aqui estar, disse ele. Todos os dias. Se ele te tocar, grita. Só grita bem alto. Eu ouço.

Ela entrou. Gonçalo estava sóbrio, mas sem menos veneno. Sentado defronte da TV, nem se virou.

Onde te meteste? resmungou.

Estive a trabalhar, Mariana respondeu e, pela primeira vez em muito tempo, foi direta para a cozinha sem pedir licença.

Gonçalo olhou-a admirado, mas ficou calado.

E assim começou a guerra silenciosa deles. Duarte esperava-a todos os dias à noite, acompanhava-a até casa. Falavam pouco, mas aquele silêncio dizia tanto. Às vezes comprava-lhe um chá quente no quiosque do jardim, e bebiam juntos no banco, olhando para as janelas escuras do prédio dela. Mariana contava-lhe sonhos pequeninos, um bocado tímidos: ir embora, abrir uma padaria só dela, começar do zero. Ele escutava com atenção.

Vais conseguir, dizia Duarte.

E tu? perguntou ela uma vez Tens alguém?

Ele abanou a cabeça.

Não deixo ninguém aproximar-se demasiado. Tenho medo de não conseguir proteger. Outra vez.

Tudo rebentou numa noite de sábado. Gonçalo, cada vez mais desconfiado, descobriu o esconderijo de Mariana: quase mil euros poupados em dois anos. Quando ela entrou, viu-o na cozinha, as notas espalhadas em leque, o olhar transtornado.

Isto? sibilou, levantando-se. Estavas a poupar para fugir? Para um bilhete só de ida?

Dá-me isso, pediu Mariana, com a alma a desfalecer. Isso não é teu.

Não é meu?! berrou ele És minha mulher! Tudo o que tens é meu! Anda lá dentro, já!

Agarrou-a pelos cabelos, arrastando-a. Mariana gritou, o grito abafado, quase sem força. Mas então, lembrou-se: Só precisares de gritar bem alto.

E gritou. Gritou com tudo, com dois anos de dor e medo na voz:

Socorro! Duarte!

Gonçalo ficou paralisado. Um momento depois, a porta quase voou com um murro. Mais um, outro A porta partiu. Duarte apareceu à entrada, o anel de aço cerrado nos dedos como se fosse um soco inglês.

Gonçalo largou Mariana e correu para ele. Era maior, mais pesado, mas Duarte mexia-se com a precisão de quem sabe lutar. Trocaram golpes mas Gonçalo caiu quando o punho de Duarte lhe acertou na cara. Ficou no chão, derrotado.

Não voltes a tocar-lhe, sussurrou Duarte, inclinado sobre ele Se te voltar a ver aqui, mato-te. Juro-te.

Mariana estava encostada à parede, a tremer. Duarte voltou-se para ela, os olhos a brilhar.

Anda, estendeu-lhe a mão. Leva só o que precisares. O resto, compramos depois.

E ela foi. De robe, de chinelos, ainda abalada mas livre.

Foram viver para casa dele. O apartamento era limpo, despido de tudo. Só livros de psicologia, um saco de boxe no canto, e uma fotografia de uma mulher bonita, de meia-idade, na prateleira.

A mãe explicou Duarte, ao sentir o olhar dela.

Mariana não perguntou nada. Limitou-se a reaprender a viver. Adormecer sem medo. Acordar sem pânico. Duarte era gentil, mas mantinha distância. Dormia no sofá e deixava-lhe o quarto. Fazia o pequeno-almoço, levava-a ao trabalho, esperava-a à noite.

Um dia, depois de um mês, Mariana encontrou uma carta antiga, escrita numa folha amarela, de letra infantil, na gaveta dele.

Mãe, desculpa por eu não te ter protegido. Quando for grande vou ser forte. Vou proteger os que são mais fracos. Não vou deixar que os maus magoem os bons. O teu filho, Duarte.

Mariana chorou. Percebeu logo que, apesar de toda a dor, ele transformou a sua tristeza num escudo para os outros.

Casaram-se seis meses depois, quando saiu o divórcio de Gonçalo que nem apareceu ao tribunal. O casamento deles foi discreto: foram assinar os papéis, lancharam num café com dona Rosa e duas colegas da Mariana.

No dia seguinte, foram juntos ao cemitério. Duarte tirou o anel de aço e pousou-o junto à campa.

Cumpri, mãe, disse ele baixinho Aprendi a proteger. E aprendi a amar.

Mariana ficou ao lado dele, de mãos cheias de flores do campo. O sol, atravessando as folhas dos plátanos antigos, pintava manchas douradas na relva.

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