Senhora Ana Margarida, a menina tem de continuar estudando. Mentes brilhantes como a dela são raras. Tem um dom especial para as línguas, para a literatura. Se visses as suas obras
Minha filha tinha três anos quando a encontrei, suja de lama, sob a velha ponte de pedra que atravessa o rio Cávado. Crieia como se fosse minha, apesar dos sussurros que corriam pelas vielas. Hoje ela é professora na cidade de Guimarães, e eu ainda vivo na minha casebre, recolhendo as lembranças como pérolas preciosas.
O assoalho rangeu sob o pé outra vez me lembro de pensar que precisava consertar, mas nunca consigo encontrar tempo. Senteime à mesa, puxei o diário velho, cujas páginas amareladas lembram folhas de outono, porém a tinta ainda guarda os meus pensamentos. Do lado de fora o vento azeda, o sobreiro bate a ramagem como se pedisse entrada.
Por que desperta a tua voz? digo a mim mesma. Espera um pouco, a primavera virá.
Parece loucura conversar com a árvore, mas quando se vive só tudo ao redor parece ganhar vida. Depois da guerra, fiquei viúva o meu António morreu no front. Ainda guardo a última carta dele, amarelada pelo tempo, rasgada nas dobras, lida mil vezes. Escrevia que voltaria, que me amava, que viveríamos felizes Uma semana depois soube que nunca mais voltaria.
Deus não me deu filhos; talvez fosse melhor naqueles tempos, alimentar alguém era impossível. O presidente da cooperativa, Manuel Joaquim, consolavame:
Não chores, Ana. Ainda és jovem, casarás.
Não me casarei mais, respondi firme. Já amei uma vez, basta.
Na cooperação trabalhei do nascer ao pôrdosol. O capataz, o Sr. Pereira, gritava de vez em quando:
Ana Margarida, volta para casa, já está tarde!
Chego a tempo, respondo, enquanto minhas mãos trabalham, a alma não envelhece.
Tinha um pequeno rebanho a cabra Margarida, tão teimosa quanto eu. Cinco galinhas que me acordavam de manhã melhor que qualquer galho de galo. A vizinha Lurdes brincava:
Não és pássaro, Ana? Porque as tuas galinhas cantam antes de todos!
Cultivava o hortelão batatas, cenouras, beterrabas, tudo da terra. No outono fazia conservas pepinos salgados, tomates e cogumelos em vinagre. No inverno, ao abrir um frasco, parecia que o verão entrava de novo na casa.
Lembrome daquele dia como se fosse ontem. Março começou húmido e frio. De manhã chovia leve, à noite gelava. Fui à floresta buscar lenha para o fogão. Havia troncos derrubados pela tempestade de inverno; recolhi um monte e, ao voltar pela ponte velha, ouvi um choro. No início pensei que fosse o vento a brincar, mas o som era claro, infantil, um soluço.
Desci sob a ponte e vi uma menina pequenina, toda coberta de lama, o vestido rasgado, os olhos assustados. Quando me viu, ficou imóvel, tremendo como folha de álamo.
De quem és, minha pequenina? perguntei baixinho, para não a assustar ainda mais.
Silenciou, só piscou os olhos. Os lábios azulados de frio, as mãos vermelhas e inchadas.
Está gelada, murmurei para mim. Vamos levarte para casa, aquecerte.
Leveia nos braços leve como uma pluma. Enroleia no meu lenço, apertando contra o peito. Pergunteime que tipo de mãe teria abandonado a criança sob a ponte.
O lenho ficou para trás; não havia mais tempo para ele. No caminho a menina seguroume o pescoço com dedos congelados, mas não soltou.
Cheguei à casa, as notícias se espalharam rápido pela aldeia. Lurdes foi a primeira:
Meu Deus, Ana, onde a encontraste?
Sob a ponte, respondi. Abandonada, ao que parece.
Ai, que tragédia exclamou Lurdes, batendo as mãos. E o que vais fazer com ela?
O que? interveio a velha Marta, a vizinha mais fofoqueira. Onde a vais pôr? Como a vais alimentar?
Farei o que Deus me permitir, cortei.
Primeiro acendi o fogão ao máximo, aqueci água. A menina, magrinha, com costelas à mostra, foi lavada em água morna e enrolada no meu casaco velho não havia roupa infantil na casa.
Queres comer? perguntei.
Acenou timidamente. Deilhe um caldo de legumes de ontem, um pedaço de pão. Comeu com avidez, mas com delicadeza deixava claro que não era uma criança da rua.
Como te chamas?
Silenciou. Talvez o medo a calasse, talvez não soubesse ainda falar.
Deiteia na minha cama e, ao anoitecer, deiteime numa cadeira ao lado. Acordava várias vezes para verificara; dormia encolhida, murmurando no sono.
Na manhã seguinte fui à Câmara Municipal relatar o achado. O presidente, o Sr. Ribeiro, abanoua as mãos:
Não recebemos denúncia de criança desaparecida. Talvez alguém da cidade a tenha deixado
E agora?
Por lei, a criança deve ir para o orfanato. Ligo hoje ao distrito.
Meu coração apertou:
Espera, Sr. Ribeiro. Dáme tempo, talvez os pais apareçam. Enquanto isso, ficarei com ela.
Ana Margarida, pensa bem
Não há o que pensar. Decidido está.
Batizeia de Eurídice, em homenagem à minha mãe. Esperava que os pais surgissem, mas nunca vieram. E graças a Deus, a liguei o coração.
No início foi difícil não falava, só apontava o ambiente com os olhos, como se procurasse algo. À noite acordava chorando, tremendo. Eu a apertava contra mim, acariciando a cabeça:
Calma, filha, tudo vai ficar bem.
Com roupas velhas costureilhe vestes, tingias de azul, verde, vermelho. Lurdes, ao ver, exclamou:
Ana, tens mãos de ouro! Pensava que só sabias empurrar a enxada.
A vida ensina a ser costureira e niña, respondi, feliz pelo elogio.
Mas nem todos na aldeia eram compreensivos. A velha Marta, ao nos ver, cruzavase de braços:
Isso não é bom, Ana. Trazer uma criança abandonada traz mau agouro. A mãe dela deve ter sido desprezível.
Calate, Marta! interrompi. Não te competem os pecados alheios. Esta menina é minha agora, ponto final.
O presidente da cooperativa também hesitou:
Pensa, Ana, talvez o orfanato fosse melhor. Lá a alimentariam e vestiriam.
E quem a amaria lá? perguntei. No orfanato há tantos órfãos, ninguém tem tempo para ela.
Ele acenou, mas depois começou a ajudar trouxe leite, trouxe farinha.
Eurídice aos poucos foi descongelando. Primeiro surgiam palavras soltas, depois frases inteiras. Lembrome da primeira gargalhada eu estava pendurando as cortinas, e ela explodiu num riso cristalino que encheu a casa. O meu próprio riso ficou preso naquela lembrança.
Ela ajudava no huerto, usando sua pequena enxadinha, mas enterrava mais capins do que arrancava. Não a repreendia; celebrava o despertar da vida nela.
Então a doença chegou Eurídice ficou com febre alta, vermelha, delirando. Corri ao curandeiro da aldeia, o Sr. Nuno:
Por Cristo, ajudame!
Ele apenas acenou, dizendo que só tinha três comprimidos de aspirina para toda a cooperativa.
Em uma semana? gritei. Ela pode não chegar ao amanhã!
Corri até ao centro de saúde, nove quilómetros de lama, com as botas despedaçadas e os pés cheios de bolhas. O jovem médico, Dr. Luís Carvalho, me viu, toda suja e molhada, e disse:
Espere aqui.
Tragou os remédios, explicou como dosar:
Não precisa pagar, só siga a receita.
Fiquei ao seu lado três dias, sussurrando orações, trocando compressas. No quarto dia a febre cedeu; ela abriu os olhos e murmurou:
Mãe, quero beber.
Mãe Pela primeira vez, chamoume mãe. As lágrimas rolaram de alegria, de cansaço, de tudo ao mesmo tempo. Ela enxugoume as lágrimas com a mão trêmula:
Mãe, dói?
Não, respondi é só a alegria que me machuca.
Após a enfermidade, Eurídice tornouse outra pessoa carinhosa, tagarela. Foi para a escola e, logo, a professora a elogiava:
Que menina talentosa, aprende tudo num instante!
Os vizinhos deixaram de cochichar. Até a velha Marta mudou, oferecendo-lhe bolos, ajudandoa a reacender o fogão nos dias de gelo. Quando a senhora ficou com radicadura, Eurídice, ainda pequena, ofereceuse para levar lenha à casa de Marta.
Mamã, vamos visitar a Marta? Está frio lá sozinha.
Assim, a velha rabugenta e a menina fizeram amizade; Marta ensinoua a bordar, contoulhe histórias, e nunca mais falou sobre o abandono.
O tempo passou. Eurídice fez nove anos quando, numa noite de outono, lembrouse da ponte. Eu tricotava meias, ela embalava a sua boneca de pano, costurada por ela mesma.
Mãe, lembraste de quando me encontraste?
Meu coração apertou, mas mantive a postura:
Lembro, filha.
Eu lembro um pouco. Estava frio, assustador. Uma mulher chorava e depois foi embora.
As lágrimas surgiram nos meus olhos. Ela continuou:
Não lembro o rosto dela, só o lenço azul. E repetia: Perdoame, perdoa.
Eurídice
Não chores, mãe, não estou triste. Só às vezes lembro. Sabe o quê? sorriu de repente. Estou feliz por me teres encontrado.
Abraceia apertado, sentindo um nó na garganta. Quantas vezes me perguntei quem seria aquela mulher de lenço azul? Por quê teria deixado a filha na ponte? Talvez a fome, talvez o marido bebendo Não cabe a mim julgar.
Naquela noite não consegui dormir. Pensava na roda da vida que nos trouxe até ao velho pórtico. Sozinha, sentiame vazia, mas ao mesmo tempo preparada para acolher quem precisasse.
Desde então, Eurídice perguntoume com frequência sobre o seu passado. Eu respondi com a calma de quem quer proteger:
Filha, às vezes as pessoas são forçadas a escolhas impossíveis. Talvez a tua mãe sofresse demais.
Nunca farias isso? indagou, olhando nos meus olhos.
Nunca, afirmei firme. Tu és a minha felicidade.
Os anos passaram como um sopro. Eurídice tornouse a primeira aluna da escola local. Um dia corria para casa:
Mãe, hoje na aula de poesia a professora Maria da Luz disse que tenho talento!
A professora, Maria da Luz, costumava conversar comigo:
Ana Margarida, essa menina tem de continuar a aprender. Talentos como o dela não podem ficar apagados.
Onde a vamos mandar estudar? suspirava eu. Não temos euros
Eu ajudo, sem cobrar. Não é pecado enterrar um talento.
Maria da Luz deu aulas particulares a Eurídice. À noite, elas sentavamse na minha cozinha, com chá de camomila e compota de frutos vermelhos, debatendo Píndaro, Camões, Eça de Queirós. O meu coração explodia ao ver a filha absorver tudo.
No nono ano, Eurídice apaixonouse pela primeira vez por um rapaz que se mudara à aldeia com a família. Escrevia poemas num caderno que guardava debaixo do travesseiro. Eu fingia não notar, mas sentia a dor de um amor não correspondido a cada batida do meu peito.
Depois da formatura, Eurídice entrou na Faculdade de Educação. Vendi a vaca que ainda tínhamos a Zézé para pagar as propinas.
Não, mãe, não precisa vender a vaca protestou.
Não preciso, filha, sobreviverei. Temos batatas, galinhas. Precisas estudar.
Quando chegou a carta de aceitação, a aldeia inteira comemorou. Até o presidente da cooperativa veio cumprimentar:
Parabéns, Ana! Criaste uma filha estudiosa. Agora temos uma estudante na nossa aldeia.
Lembrome do dia da partida. Estávamos na paragem de autocarro, esperando o veículo para Braga. Ela abraçoume, as lágrimas escorrendo.
Escreveme toda a semana, mãe. E vem nos visitar nas férias.
Escreverei, respondi, sentindo o coração a rasgarse.
O autocarro desapareceu na curva, e eu fiquei ali, parada. Lurdes aproximouse e abraçoume:
Vamos, Ana. Há muito trabalho em casa.
Sabes, Lurdes, estou feliz. Tenho filhos que o céu me deu e um filho que Deus me deu.
Mantive a promessa recebia cartas regulares, cada uma como um presente. Liaas repetidamente, decoravaas de cor. Ela falava da universidade, dos novos amigos, da cidade. Entre linhas, sentiaa saudosa da aldeia.
No segundo ano, conheci o Sérgio, estudante de História. Começámos a trocar mensagens discretamente, e eu percebi que havia me apaixonado. No verão trouxeo para a aldeia; ajudou a reparar o telhado, a consertar a cerca. À noite, sentados na varanda, ele contava histórias de reis e descobrimentos. Era evidente que amava a minha Eurídice, jamais tirava os olhos dela.
Quando ele chegou, a velha Marta, já fraquinha, cruzouse novamente:
Senhor, eu protestei quando a trouxe, mas agora vejo o que fez por nós. Perdão, velha minha!
Hoje Eurídice é professora na escola da cidade. Casouse com o Sérgio, vivem em harmonia. Tiveram uma neta, a pequena Gisela, nomeada em minha homenagem. Gisela herdou a curiosidade da avó, correndo pela casa, tocando tudo, fazendo perguntas sem parar. Eu fico feliz ao ver a casa cheia de risos; um lar sem crianças a rir seriaE enquanto a brisa suave do Cávado acaricia a varanda, lembrome de que, sob aquele velho ponte, o destino escreveu a nossa história inteira.

