Após a morte do marido de Maria, passaram-se apenas dois meses quando uma mulher bonita, de aproximadamente cinquenta anos, apareceu à sua porta.
— Boa tarde — sorriu a visitante. — Você é a viúva do famoso professor Silva?
— Sim — Maria confirmou com a cabeça. — Sou a viúva dele. E você é?
— Eu? — A visitante sorriu enigmaticamente. — Sou Ana. Aninha, como seu falecido marido costumava me chamar. E tenho um assunto muito sério para conversar com você. Posso entrar?
— Sim, claro — respondeu Maria, abrindo mais a porta com um sorriso tenso, enquanto seu coração batia acelerado. — Entre… Aninha… E pode me chamar de Maria, sem formalidades.
— Está bem — respondeu Ana despreocupadamente. — Maria… Já fazia tempo que queria vê-la pessoalmente. Para ser sincera, imaginei que você seria assim. O estilo típico de esposa de professor, que está sempre correndo atrás dele. Não é verdade?
A anfitriã resolveu não responder ao comentário ácido, embora seu coração doesse ainda mais.
— Por favor, sente-se. — Maria indicou uma das poltronas na sala de estar. — Devo entender que você foi amante do meu marido?
— Como adivinhou tão rapidamente? — Ana sorriu, orgulhosa. — Mas não fui apenas amante dele. Falaremos disso em breve. Então você já suspeitava que o Marco tinha outra mulher além de você?
— Não! — Maria respondeu bruscamente. — Mas como ele te chamava de Aninha… Você não disse isso à toa, certo?
— Exato, não foi por acaso. O fato é que Marco e eu temos uma filha em comum.
— Filha? — Maria ficou paralisada antes de lentamente se sentar em outra poltrona. — Estranho…
— Por quê estranho? — Ana riu despreocupadamente. — Teoricamente, qualquer homem casado pode ter um filho com outra mulher, não é?
— Sim, claro, pode — suspirou Maria com tristeza. — Mas o problema é que Marco e eu não tivemos filhos. Sabe por quê? Porque ele era infértil. Tenho inúmeras provas disso. Quer que eu mostre, ou vai acreditar em mim?
— Pois é, pois é… — riu Ana novamente. — Ouvi essas mesmas palavras de Marco quando contei sobre minha gravidez. Ele duvidou de mim, discutimos e terminamos. Mas, de uma forma ou de outra, eu tive a filha dele, o que pode ser confirmado facilmente por um teste de DNA. Só precisamos do material biológico. E vamos encontrá-lo. Depois, você verá que minha filha é a única herdeira de seu falecido marido, já que vocês não tiveram filhos.
— Isso é absurdo — Maria agitou-se nervosa. — Como poderia ter tido um filho com um homem infértil?
— Talvez tenha sido um milagre? — Ana sorriu descaradamente. — Dizem que uma vez na vida, um milagre acontece.
— Quantos anos tem sua filha?
— Dezoito.
— Ah, já é completamente adulta. Por que não veio com você?
— Primeiro, moramos em outra cidade — Ana encarou Maria de forma desafiadora. — E, segundo, não quis envolvê-la em problemas legais sem antes conversar com você pessoalmente. Ela ainda nem sabe quem é o pai.
— Estranho — Maria sorriu desconfiada. — Você aparece aqui sozinha, diz que sua filha é filha do meu marido e quer que eu acredite? Pareço tola?
O rosto de Ana mudou, ficando tenso.
— Vim apenas avisá-la de que seu marido tem uma herdeira hipotética, que em breve será a herdeira legal. Metade deste apartamento e uma parte do seu patrimônio pertencem à minha filha. Quando confirmarmos que Maria é filha de Marco, vamos dividir os bens — por ordem judicial. Estou aqui apenas por isso. Para que esteja preparada.
— Muito bem… — Maria de repente sorriu. — Excelente, na verdade.
— Sim? — Ana estava surpresa. — Por que excelente?
— Porque você nem imagina como eu estava aguardando por isso. Talvez Deus a tenha enviado para mim. Se tivesse já os testes de DNA, eu a abraçaria agora mesmo! Estou disposta a reconhecer que a jovem é filha do meu marido.
— Por que essa alegria? — Ana mostrou desorientação. — Isso não te incomoda?
— Claro que há coisas que me incomodam, mas… — Maria levantou-se e começou a andar agitada pela sala. — Também tenho algo para te contar, para que esteja preparada. Enquanto Marco lutava contra a doença — nós brigamos pela vida dele por três longos anos — acumulamos muitos empréstimos em nome dele. Os bancos não me concederiam empréstimos porque nunca trabalhei formalmente. Mas Marco tinha excelente histórico de crédito, um ótimo salário… Muito dinheiro. Mas, agora… Você sabia que este apartamento está hipotecado? Desde que Marco ficou doente paramos de pagar. O banco está retomando a propriedade. Eu mal consigo sobreviver. Vendi tudo o que podia, mas… — Maria sorriu novamente. — Mas agora, se não me engano, a herdeira de Marco herdará, além dos bens, todas as dívidas do falecido. Sua visita é uma bênção!
— Espere! — Ana ficou tensa. — Como isso é possível? Seu marido era um renomado professor… Quer dizer que ele tem dívidas com bancos?
— Não com um, mas com cinco! Sim! Devemos quantias enormes! Quase cinquenta milhões… Lutamos pela vida dele, com operações caras, remédios milionários. Infelizmente, perdemos… Quando tirarem este apartamento, restará uma dívida de quase trinta milhões. Por isso imploro que faça os testes logo. Posso fornecer pertences de Marco com material biológico. Não vejo a hora de me livrar dessas dívidas em favor de sua filha. Tenho um ótimo advogado amigo que me ajudará com prazer.
— Espere, espere! — Ana levantou-se apressada. — Por que eu desconhecia essas dívidas? E não sabia sobre sua doença!
— Quando foi a última vez que se viu com ele?
— Bem… — Ana demonstrou desconforto. — A última vez que falamos foi por telefone, talvez há dez anos. Eu disse que vivemos em outra cidade.
— Ah, outra cidade… Há dez anos… Claro que não sabia. Qual é seu sobrenome? E gostaria de saber seu endereço e números de telefone. O seu e o da sua filha.
— Para quê?
— Passarei tudo para a empresa de cobrança que está me atormentando. Que cobrem de você e sua filha.
— Por quê?!
— Como por que? Sua filha é a herdeira hipotética, que em breve será a herdeira legal. Foi você quem disse. Recuso a herança do meu marido em favor de sua filha. Se Maria carrega o sangue de Marco, é mais justo assim!
— Não! — Ana exclamou assustada. — Isso não pode ser!
— O que não pode ser?
— Acho que cometi um erro. Seu marido estava certo, ela não é filha dele. Acabei de me lembrar! Naquela época, também estava com outro homem… Enfim, adeus! Esqueça essa conversa e nossa existência. Aliás, só vi seu marido uma vez, por acaso. Ele palestrava no nosso instituto.
Ana saiu apressadamente em direção à porta, fechando-a com força em poucos segundos.
— Pois bem… — Maria riu em silêncio. — Mais uma herdeira hipotética descartada. Quantas mais aparecereão em minha vida? Quem será o próximo? Acho que devo pedir a amigos jornalistas que escrevam sobre a minha situação — supostamente desesperada — no jornal. Assim não terei que mentir por minha conta.






