Divórcio por causa da vizinha
Explica-me só: de todas as mulheres do mundo por que escolheste logo ela? Sair de casa, de mim, para ir ter com ela, porquê?
Beatriz perdia para Catarina em todos os aspetos. E pior ainda seria se António dissesse algo como ela é mais divertida, mais livre, menos exigente, não tão maçadora como tu.
Como é possível, Catarina! Como é possível?! Vocês viviam tão bem lamentavam a mãe, a irmã e todas as amigas quando souberam do iminente divórcio.
Vivíamos, concorda Catarina. Mas já não vamos viver mais.
Catarina, pensa trinta vezes antes de deixares um homem desses. Ele ganha bom dinheiro, adora os filhos, e nem sequer quer mesmo divorciar-se de ti
Depois desta frase, Catarina passava um ban vitalício a quem a dissesse nas redes sociais e na vida real. Colegas que antes considerava amigas, agora recebiam apenas um aceno e o habitual olá quando se cruzavam.
Quando alguém tentava reatar a proximidade de outros tempos, Catarina não se coibia de responder, tanto aos conselhos não pedidos como à pressão para voltar para o marido que a traíra.
Sim, traíra! Catarina ainda nem conseguia acreditar bem nessa situação.
Sempre viveram bem! Vinte anos juntos, desde os tempos de faculdade, já tinham superado toneladas daquela sal que, segundo as avós, era essencial para um casamento durar.
Passaram por tudo: falta de dinheiro, desemprego, doenças dos próprios e dos filhos
Têm dois filhos, um rapaz e uma rapariga, a família completa, como se diz cá. Em casa está sempre tudo limpo, há comida feita, Catarina nunca teve dores de cabeça…
Cuida de si, nunca tratou António como se ele fosse apenas uma máquina de levantar notas, encontrava tempo para ele mesmo quando os filhos vieram ao mundo
O que faltava a este ingrato para, de repente, sair e meter-se com outra?
E com quem! Se ao menos fosse uma mais nova, talvez se pudesse perceber. Mas não António foi atrás de uma divorciada com um filho, da rua ao lado.
Explica-me só, que é que viste nela?
Catarina tanto ria como chorava ao descobrir a traição, enquanto António tentava, atrapalhado, explicar-se perante ela.
Por que razão, de todas as mulheres, foste escolher logo ela? Sair de mim para ela, porquê?
Beatriz não ganhava a Catarina em nada. E se ao menos António dissesse que Beatriz era mais espontânea, menos aborrecida
Mas nem isso conseguiu explicar.
Seria por causa de uns copos a mais? Também não: estava sóbrio como um juiz.
Tudo o que António conseguia dizer era um balbuciar de aconteceu, não sei como e implorar para voltar a casa, com todas as possíveis auto-humilhações.
Surpreendentemente, António nunca tencionou divorciar-se de Catarina, nem pensava ir viver com a nova paixão.
Ele esperava que, como um gato traquinas, pudesse fazer asneiras na rua e regressar a casa de cara lavada, deitar-se com a mulher e fingir que Beatriz nunca existiu.
Talvez até conseguisse, não fosse Beatriz engravidar com António. E ela decidiu que o pai do seu novo filho (e do outro, já agora) tinha de ir para o registo civil à força.
Foi assim que ela apareceu, aos gritos, à porta de Catarina.
Catarina nem quis acreditar. Como acreditar, depois de vinte anos de matrimónio, quando achava conhecer António como ninguém?
Mas Beatriz sabia detalhes que só alguém muito íntimo saberia sinais, marcas, cicatrizes Isso não se adivinha.
Portanto era verdade. E, encurralado, António admitiu tudo e pediu mil vezes perdão.
Do lado de António, surpreendentemente para Catarina, ficou uma parte dos conhecidos nem sequer amigos comuns, mas colegas do trabalho, algumas amigas antigas e até parentes afastados
Todos, numa só voz, afirmavam que Catarina devia perdoar, esquecer e continuar a amar António como se nada tivesse sucedido. Isso, Catarina, não conseguia entender.
A sogra tentava convencer Catarina a manter a família unida. Ela ainda se podia compreender: via que o filho percebia a asneira e queria consertar tudo, por isso tentava ajudá-lo dizendo à nora que ela ficaria pior sozinha.
Até chegou a manipular os netos, pedindo-lhes para convencerem a mãe a não se divorciar. Desagradável e invasivo, mas pelo menos compreendia-se a lógica.
Agora que tinham os outros a ver com isso? Algumas pessoas parecem gostar de ver os outros também afundados, nem que seja para não se sentirem sozinhos nas suas próprias misérias.
Será isso? Catarina não sabia. Mas, em todo o caso, não tinha intenção de aceitar aquela postura.
Ela herdara do pai já falecido uma lição que nunca esqueceu. Se alguém te disser que tens de sacrificar, perdoar, ceder, ou fazer algo só porque assim é costume ou por dever, não vás na conversa. Essas pessoas só querem tirar partido de ti, resolver os próprios problemas à tua custa.
Catarina aprendeu bem a lição e sempre percebeu que manipulações como estas apareciam nesses momentos.
A filhos, também não deixava que fossem manipulados, e percebeu que eles eram parecidos. Mal Catarina entrou com o pedido de divórcio, a sogra ligou a exigir que desbloqueassem a avó no WhatsApp e voltassem a falar com ela.
Já chateia, mãe explicou Rita ao jantar.
O irmão, Martim, estava a dormir em casa da namorada naquela noite, por isso era Rita quem respondia às perguntas da mãe.
Só fala de nós termos de voltar a ser uma família, que devias voltar para o pai, que isso é o melhor para todos.
Disse uma vez que não era da conta dela, disse duas, mas é como se ela não ouvisse sempre a mesma conversa.
Bloqueei até mudar de disco, até voltar a ser simplesmente avó.
Obrigada. Sei que isto não é fácil para ti e agradeço que não te deixes manipular, nem vás atrás do que ela diz.
Oh mãe, não sou nenhuma totó suspira Rita. Sei bem o que o pai fez. Se tivessem discutido porque não escolhiam o destino das férias ou o tecido das cortinas, ainda vá lá
Mas traição não se perdoa. E o pai sabia disso. Se fez o que fez
Mãe, gosto dele, vai ser sempre meu pai, mas O que é que ele queria? O que é que a avó quer agora?
Catarina não sabia responder. E ainda no mês passado achava que tinha resposta para qualquer pergunta da filha.
Mas agora, nem ela sabia responder. Porque é que alguém, que foi um marido e pai exemplar durante vinte anos, de repente faz uma coisa daquelas?
No passado tinham tido problemas, mas nunca assim. E agora, aos cinquenta, resolveu pregar uma destas? Cabelo branco, diabo no corpo, é isso?
Pelos vistos, ainda havia muitos diabos no corpo ou na cabeça de António.
E decidiu libertá-los sobre a família de uma forma pouco convencional.
Isto aconteceu cinco anos depois do divórcio.







