Diário, 3 de novembro
Já decidi. Vou passar o apartamento para o nome do Tiaguinho. Não te importas, pois não, filha?
Pousei a colher no pires, o barulho do metal ecoou baixinho pelo ar carregado da minha cozinha pequena na Rua das Flores, aqui em Coimbra.
Para o Tiago? Mas ele só tem três anos, mãe.
Para crescer protegido, sabes? Quando fores grande, já tens uma casa. Eu mudo-me para cá contigo. Tens espaço, vives sozinha. Não te preocupas?
A minha mãe, D. Maria Antónia, nem tirou o casaco quando entrou. Segurava na mão o saco de sempre, uma ponta de papel a espreitar lá de dentro. O cheiro do seu perfume barato, um daqueles de frasco azul com estrelas que compra há vinte anos na drogaria do Largo da Portagem, enchia de imediato cada canto. Sempre me lembrava tempestades, uma sensação de ansiedade antes da chuva. Pesado, enjoativo, familiar.
Fui até à cozinha, liguei a chaleira, mexendo em chávenas e açúcar de olhos baixos, com um só pensamento a martelar passar o apartamento.
Queres chá? perguntei, tentando manter a voz estável.
Quero, claro. Ela finalmente tirou o casaco, pendurando-o no encosto da cadeira, e olhou a sala. Está um frio, filha. Ainda não ligaste o aquecimento?
Está ligado, sim.
Na minha casa na Avenida, nunca está assim. O Luís resolve logo qualquer problema. Liga para a administração se for preciso.
Coloquei o chá à frente dela e sentei-me, a olhar a mesma mulher de sempre: olhos cheios de rugas, cabelo branco meticulosamente arranjado, blusa azul nova que o Luís lhe ofereceu gabou-se ao telefone de como a mãe ficou feliz com o presente.
O notário espera-nos amanhã, às dez, já está tudo pronto. O Luís tratou dos papéis todos. Que rapaz inteligente.
E a minha parte, mãe? Perguntaste-me?
Houve espanto nos olhos dela:
Que parte? Tu és minha filha. Somos família, tudo fica na família; só quero pôr em nome do neto. É melhor assim, sabes disso.
Metade daquela casa é minha. Nos registos. Metade.
Então e daí? torceu-se um pouco, provou o chá, queixou-se do calor. Não vais para lá morar, pois não? O Luís, a Sandra e o menino precisam de mais espaço. Eu venho para aqui, não custa nada, pois não?
Olhei para a fotografia antiga na parede. Uma moldura dos anos noventa. O meu pai, a mãe, eu e o meu irmão Luís. Eu bem no canto, quase cortada pela madeira; o Luís ao colo da mãe, mesmo sendo já crescido sorridente, ao centro. O pai de olhos perdidos. E eu, braços junto ao corpo, séria.
Nunca me perguntaste nada murmurei.
Perguntar o quê? Sou tua mãe, eu é que sei o que é melhor.
Sempre soubeste.
Pois, claro. O Luís ficou todo contente com a ideia. Disse que sou uma mãe sábia, que nem todas se preocupam assim com os filhos.
Peguei na minha chávena, deitei fora o resto do chá no lava-loiça, e perdi-me a olhar pela janela. Lá fora, o princípio de novembro deixava a cidade cinzenta. Luzes acesas na estrada, folhas molhadas coladas ao passeio; um varredor em colete laranja arrastando as folhas para junto do lancil.
Vou pensar disse, sem encarar ninguém.
Não há nada para pensar, filha. Amanhã às dez. Toma nota do endereço do notário.
Eu disse que vou pensar.
Silêncio. Ouvi a mãe a levantar, a guardar o saco, pôr o casaco. O som dos seus passos até à porta. Uma pausa.
Só me dás desgostos, Filipa. Sempre foste teimosa. Não como o Luís.
Fechei os olhos quando a porta bateu. Fiquei ali de pé, na janela, até ouvir o barulho do elevador no corredor. Depois deitei-me no sofá, sem despir sequer as calças. Fiquei a olhar para o tecto, para aquela racha velha que vai da esquina até ao lustre. Conhecia cada curva. Quantos serões ali passei a contar fissuras em vez de carneiros.
O telemóvel vibrou. Mensagem da Sandra:
Como estás? Pára na Padaria Estrela, trouxe-te bolachas de aveia, fiz eu.
Respondi: Obrigada, amanhã passo.
Deixei cair o telefone no peito. Fechei os olhos.
Veio-me à memória uma cena antiga. Tinha oito anos, festa do Luís. Mesa cheia, convidados já saíram. Uma fatia de bolo restava, grande, com uma rosa de creme. Eu olhava para ela, lamber os lábios. A mãe deu-a a Luís.
É para ti, Luís. És o aniversariante.
E a Filipa? perguntou meu irmão, já com a boca cheia.
A Filipa é crescida, partilha contigo noutro dia. Não é, Filipa?
Assenti. Deixei a mesa, fui para o quarto, deitei-me a olhar o tecto. O meu pai entrou, sentou-se à beira da cama e fez-me uma festa no cabelo.
Não fiques triste sussurrou. A mãe adora o Luís, ele é o mais novo.
Não estou triste respondi.
Ele suspirou, saiu. E eu fiquei, a contar as linhas invisíveis de um tecto então liso mas que, nesse dia, também me parecia irrigado de pequenas contas a acertar talvez batimentos do meu coração.
No dia seguinte acordei cedo, cabeça a doer, duche gelado, vesti-me. Saí para o Solar dos Aquecimentos ao pé da faculdade, a vinte minutos a pé. Sempre gostei destas caminhadas, de outono: ar fresco, folhas a estalar. Gente apressada, cachecóis ao pescoço, todos de olhos no chão. Dá para pensar sem ser interrompido.
O escritório cheirava a café e a papel. D. Carolina, a chefe de contabilidade, sentada à secretária a olhar para facturas.
Bom dia, Filipa. Estás com má cara hoje.
Dormi mal, só isso.
Tens de tomar vitaminas, comprei umas e faço milagres.
Sorri sem vontade, liguei o computador, abri tabelas e comecei a preencher. Rotina, rotina. Alguma paz.
Na hora do almoço não fui à cantina. Vesti o casaco, caminhei até ao parque, sentei num banco junto ao chafariz seco, folhas acumuladas a seus pés. Abri a marmita, não toquei no sanduíche, limitei-me a olhar as árvores, a isolamento.
O telefone tocou. O Luís. Recusei. Minutos depois mensagem: Ó Filipa, a mãe está triste. Liga-lhe.
Apaguei. Dei uma dentada no pão, seco, fiambre sem gosto. Mastiguei devagar, sem olhar para o lado. Recordei aquela tarde de chuva, eu de doze anos, mandada pela mãe à mercearia comprar pão enquanto o Luís estava doente. Corri pelo aguaceiro, tentei não molhar o pão debaixo do casaco, cheguei encharcada, entreguei o pão e a mãe nem me olhou. Só tinha olhos para acalmar o Luís, febril.
Filipa, muda de roupa, o Luís precisa de descansar.
Fui para o quarto, vesti o pijama húmido de frio. Ao entardecer, fiquei com febre, a mãe veio tarde, pôs-me o termómetro de raspão.
Trinta e sete e meio, não é nada. Chá com limão e já passa.
No outro dia fui à escola, febril, betendo os ombros na camisola. Professora perguntou-me se estava bem. Assenti. Em casa, a mãe cozinhava para o Luís.
Quando voltei ao escritório, Carolina olhou-me com olhos de quem se preocupa.
Não estás doente?
Está tudo bem.
Ao fim daquele dia, a caminho de casa, voltei a ser interrompido pelo telefone do Luís.
Filipa, então?! A mãe diz que não queres assinar coisa nenhuma.
Não disse que não quero. Disse que vou pensar.
Para quê? O apartamento não nos faz falta; tu nem vives lá. O Tiago vai precisar. É nosso sobrinho, lembraste?
Também é meu.
Então assina. O notário espera.
Luís, não vou.
Que raio?! A mãe andou a tratar disto tudo a semana toda; consegui o horário, está tudo pronto! E tu…
Luís, é minha metade da casa. Por lei. Não dei consentimento.
Consentimento?! Somos irmãos! Família! Ou esqueceste o que isso é?!
A voz dele já era grito. Afastei o telemóvel e ouvi o resto: egoísta, fria, sempre foste assim.
Luís, acalma-te.
Não me acalmo! Sempre tiveste inveja de mim! Desde pequenos! A mãe sempre me preferiu!
Pousei o telefone na mesa da cozinha. Ele ainda gritava, mas o som vinha distante, abafado. Fui buscar água, bebi tudo de uma vez. As mãos tremiam. Olhei-as: quarenta e três anos, dedos finos, unhas curtas. Nunca usei anéis.
Quando voltei à sala, o telefone estava em silêncio. Luís mandou mensagem: Falamos melhor quando estiveres calma. Mas aparece amanhã.
Deitei-me de novo no sofá, sem me mexer, cobri-me com um cobertor. Ouvia a chuva a bater na janela, gotas a serpentear vidros. Olhei até me doerem os olhos; fechei-os. Vieram-me memórias, como flashes de filmes antigos.
Aos dezasseis anos, chega uma carta de Lisboa. Universidade. Passei, com direito a bolsa e alojamento. Pulei pela casa, corri à cozinha.
Mãe, consegui! Vou para Lisboa! Fui aceite!
Ela leu a carta devagar, boca a mexer as palavras. Devolveu-ma.
Não.
Como não?
Não vais. Quem fica comigo e com o Luís? O pai trabalha o dia inteiro. O Luís tem exames, preciso de ti cá. Vais-te embora e eu fico sozinha.
Mas mãe, é Lisboa! O meu sonho!
Sonhos? És rapariga, minha filha. Uma rapariga deve ficar perto da família. Casar, ter filhos. Para que te serve Lisboa?
Mas mãe…
Já disse. E nem fales disto ao teu pai, sabes como ele é, vai-me apoiar.
Deixei a cozinha, entrei no quarto, deitei-me a olhar o tecto, sem lágrimas. À noite queimei a carta no lavatório da casa de banho, vi a folha tornar-se cinza.
No dia seguinte, ao jantar:
A Filipa decidiu ficar, vai para o politécnico cá. Para contabilidade. Fez bem.
O pai olhou-me. Assenti. Ele não disse nada, acabou a sopa, foi ver televisão.
O Luís pediu:
Ajudas-me com matemática, tens de me explicar para o teste.
Ajudo respondi.
Levantei-me de noite para ir buscar água, dei uma pancada na canela, não gritei. Esperei a dor abrandar. No dia seguinte a perna estava inchada, a mãe disse para pôr Betadine.
Acordei cedo, rosto pálido no espelho, olhos fundos, cabelo a fugir. Passei a mão, arrumei. Um pouco de batom, vesti-me, saí.
O trabalho passou devagar. Carolina contava das netas, mostrava fotos. Eu sorria e acenava. No intervalo fui ao parque ver fotos antigas no telemóvel. Lá estava a família, aquela dos anos noventa. O Luís de uniforme escolar. Mais fotos: na pesca com o pai. Eu aparecia muitas vezes de canto, às vezes nem aparecia, só a assinatura: Foto tirada pela Filipa.
Telefone a vibrar, D. Maria Antónia.
Não atendi. Mensagem: Filha, o notário ficou à espera. Não fomos. O Luís ficou desiludido. Marcámos para depois de amanhã. Vens?
Apaguei. Meti o telemóvel na mala. Voltei ao escritório.
À noite, ao entrar no prédio, ouvi vozes nas escadas. O Luís e a Sandra. Ele subia já furioso, ela vinha atrás, em silêncio.
Filipa, finalmente! Estamos há uma hora aqui!
Para quê?
Para falar. Deixas-nos entrar?
Abri a porta sem palavra. O Luís foi direito ao sofá, pernas abertas, pose de dono da casa. Sandra ficou de pé, tirou o casaco.
Querem chá? perguntei.
Deixa-te disso, vamos falar, cortou Luís.
Sentei-me. Sandra acocorou-se na beira da cadeira, a olhar para o chão.
Ó Filipa, tanto drama para quê? A mãe é velha, precisa de descanso. Tens espaço, duas divisões, ela não te vai incomodar.
Nunca disse que incomodava.
Então pronto. Assinas a renúncia, passamos o apartamento para o Tiaguinho e fica tudo bem.
O apartamento não é dele, Luís.
E de quem é então? Teu? Tu nem lá moras!
Metade é minha. Por lei.
Isso de papéis não tem valor nenhum! Somos família! Famílias não se medem em percentagens!
Olhei para o meu irmão: rosto vermelho, braços a gesticular, barriga sobre o cinto. Quarenta anos, empregado de obras quando quer, vive debaixo da asa da mãe, a mulher trata-lhe de tudo.
Trabalhas agora, Luís?
Ele calou-se.
O que interessa isso?
Só quero saber. Quantos euros recebes por mês?
Chega bem. Isso não é conversa para agora.
E pagas as contas do apartamento?
A mãe paga, é dela.
Metade pago eu. Há quinze anos.
O silêncio ficou pesado. Sandra olhou-me de relance, depressa desviou o olhar.
Então? balbuciou o Luís. Tens dinheiro, moras sozinha. Nós temos um filho, custa mais.
Então é por isso que querem o apartamento no nome do Tiago?
E qual é o mal? A avó deixa herança ao neto, naturalíssimos!
Que deixe a parte dela. A minha, tenho direito de decidir.
Que raio de pessoa és tu? Sempre foi assim, sempre invejaste! E a mãe tinha razão
O que dizia a mãe?
Que eras fria, sem coração. Ninguém te aguenta, por isso é que estás sozinha!
Calei-me. Sandra era sombra num canto, Luís de pé, punhos cerrados.
Saíam da minha casa, por favor.
O quê?!
Saíam já.
Expulsas o teu irmão?!
Agora.
Olhou para Sandra, ela agarrou o casaco:
Anda, Luís.
Vai-te lixar! berrou para ela. E para mim: Vais arrepender-te, a mãe vai saber como me tratas. Vai tudo perceber quem tu és.
Saiu a bater com a porta. Sandra escorregou atrás. Fiquei sozinha, ouvindo os passos sumirem pelas escadas. Enchi um copo, as mãos já não tremiam.
Lembrei dos tempos em que ele trouxe a primeira mulher para casa, a Ângela, espevitada, cheia de vida. A mãe aceitou logo.
Só faz bem terem-te ao pé da família. O Luís não se safa sozinho.
A Ângela ocupou o meu antigo quarto. Fui deitar-me na sala, numa cama-de-campanha. Prometeram que era por pouco tempo. Três meses depois, aluguei um quarto longe, pagava do meu bolso, metade dos encargos na casa-mãe, porque a mãe pediu.
Quando Ângela fugiu do Luís ao fim de um ano, ele telefonou a chorar:
Filipa, vem, preciso de ti.
Fui, fiz-lhe chá, ouvi os desabafos. A mãe a passar-lhe a mão na cabeça, a dizer que ia arranjar-lhe alguém melhor.
Dois anos depois entrou a Sandra, calada, sumida. A mãe aceitou. Sandra ajudava em casa, teve o Tiaguinho, sumiu mais ainda.
Eu via-os pouco, só nos aniversários. Levava prendas. Saía logo.
Normal, dizia a mãe. Tens a tua vida. Custa-te estar connosco.
A minha vida era aquela: apartamento na Rua das Flores, trabalho no Solar dos Aquecimentos, noites a ver televisão, cafés com a amiga Teresa no “Fonte”. Vida feita de rotina.
Fui dormir tarde, rodava na cama, as palavras do meu irmão martelavam:
Invejosa, fria, sempre foste assim.
Talvez sim, talvez invejasse ter o amor deles, o perdão, a liberdade para ser fraco. Para mim, exigia-se força.
Acordei ao toque da porta. Mãe, com um saco e cheiro a bolo de maçã.
Bom dia, fiz-te bolo, do teu gosto.
Deixou o saco na mesa, desenrolou o papel de alumínio, maçã dourada, cheiro bom. Provámos as duas, quente, ao ponto.
Está bom?
Está.
Ó filha, que disseste ontem ao Luís? Ele ficou tão nervoso. A Sandra contou que o mandaste embora.
Era melhor que saísse.
Porquê?
Foi mal-educado.
O Luís?! Ele é tão bondoso! Só está preocupado. O Tiaguinho precisa dessa casa.
Eu sei.
Então assina os papéis.
Pousei a chávena.
Não, mãe.
Como?
Não assino.
Ela ficou parada, chávena a meio caminho dos lábios.
Estás a brincar.
Não estou.
Mas porquê? Sou tua mãe! Já sou velha, para onde vou agora?
És nova, mãe, tens sessenta e oito. Podes viver sozinha. Tens a tua reforma.
E eu sozinha na casa, com o Luís e a Sandra e o menino?!
Essa foi a tua escolha, mãe. Eu não a fiz.
Mas somos família! Temos de ficar juntos!
Dizem sempre isso. Mas porque é que só eu abdico de tudo?
O rosto dela perdeu cor. Pousou mal a chávena, chá a pingar.
Vais-me deixar, Filipa?
Não te deixo. Só não deixo que decidam por mim aquilo que me pertence.
Isso não é património, é lar! A casa!
Nunca foi o meu. Sempre foi para os outros.
Que disparate!
Mãe, alguma vez disseste que gostavas de mim?
Silêncio.
Nunca, respondi eu. Em quarenta e três anos, nunca ouvi. Ao Luís, todos os dias.
Mas sabes! Sabes que gosto de ti…
Não sei, mãe.
Ela levantou-se, rosto tenso, lábios finos.
Ingrata. Dei-te tudo, alimentaste-te, eduquei-te. E tu…
O Luís teve tudo. Eu fui tolerada.
Como te atreves!
É verdade.
Pegou no saco e saiu, deixando o bolo em cima da mesa.
Esperei por chamada da mãe o resto do dia. Nada. À noite, mensagem da Teresa: “Já tenho café e bolachas, aparece na Padaria Estrela.”
Respondi: “Vou amanhã.”
Noite caiu, olhando da janela para a rua iluminada, casais a regressar a casa, famílias. Na minha casa, só silêncio.
Recordo quando, aos vinte e cinco, trouxe a casa um namorado. Informático, conhecemo-nos no trabalho. Mãe pôs a mesa, chamou o Luís, só falou com ele. Perguntou quantos euros ganhava, os projetos, ignorou o rapaz. Ele notou.
A tua mãe não gosta de mim comentou à saída.
Não, só gosta do Luís.
Namorámos mais uns meses, depois desapareceu. Mandei mensagem, ficou sem resposta.
Daí para a frente, nunca mais trouxe ninguém. Apontavam sempre que era fria, distante.
No dia seguinte fui à Padaria Estrela. Teresa estava ao balcão.
Filipa, achei que tinhas adoecido.
Só problemas de casa.
Ela conhecia bem a minha história. A mãe, o irmão.
Mas afinal, deves-lhes alguma coisa? perguntou.
Não sei, mas sinto-me mal.
Isso é culpa plantada, para te manterem presa. Eu também tive mãe assim. Somos sempre nós que devemos.
Fiquei a ouvir.
Mãe não é isenção para tudo. Cuidar com amor e respeito é que faz diferença. Sentiste respeito da tua?
Abanei a cabeça.
Então não deves nada.
As palavras dela eram cruas, mas acertavam em cheio.
Cansei, Teresa. Disse-lhes não.
Deves-lhes o teu não. E mais nada. Eles vão gritar, porque só sabem manipular quem não reage.
Abraçou-me.
Força, amiga. Pela primeira vez, estás a fazer o certo.
Saí da padaria, casa adentro. Preparei chá, comi restos de bolo. Estava bom, mas soube-me triste.
À noite telefonou o Luís, voz mansa.
Filipa, deixa lá os azares, não guardemos rancor. Somos adultos. Ainda dás o braço a torcer?
Luís, não assino nada.
O tom dele mudou:
Deixas o teu sobrinho sem casa?
Não. Ele continua a viver lá. Mas a casa é minha e da mãe.
Para quê isso? Somos família.
Família são todos iguais. Nunca fui igual.
Tu tens tudo e nós que fazemos? Achas justo?
A mãe alimenta-te a ti. Não tu a ela.
Vai-te lixar! e desligou.
Fui até à casa de banho, lavei a cara, fiquei a olhar-me ao espelho. Cabelo colado, olhos pesados. Voltei ao sofá, tapei-me bem.
Sonhei que era criança, a festa do irmão: todos à volta dele, eu num canto, sem voz.
De manhã, café na mão, chuva no vidro. Teresa telefonou:
Filipa, já pensaste ver um psicólogo? A mim ajudou muito a perceber estas coisas.
Não sei, Teresa.
Pense bem. Ficar calada é que faz mal. Liga-me sempre.
Na pausa do almoço, olhei o telemóvel. Sandra, a mulher do Luís, quis falar.
Preciso de conselho sobre o Luís e a tua mãe.
Escrevi: Vem cá hoje, às sete.
Bateu à porta sozinha. Pálida, com casaco velho.
Servi-lhe chá.
O Luís quer que passe tudo para o Tiago. A tua mãe ficou indecisa. Agora o Luís grita, acusa-a de traição, ameaça pô-la fora se não assinar.
Fiquei calada. Ela prosseguiu:
Ouvi gritos, o Tiago chora, eu tenho medo.
Medo de quê?
De ser posta na rua. De estar aqui só por causa do Tiago. Ele já me chamou inútil. Só me tolera pelo miúdo.
Ofereci-lhe um lenço.
Por que não trabalhas?
Ele não deixa. Diz que mulher de respeito não trabalha fora.
A tua sogra trabalhou até à reforma.
Sandra ficou a pensar. E perguntou:
Vais assinar?
Não.
Porquê?
Porque posso dizer não. É um direito.
Ela assentiu:
Gostava de ser capaz disso. Mas sou fraca.
Não és fraca. Só assustada. E isso não é o mesmo.
Foi-se embora de olhos vermelhos, agradeceu no corredor.
Fiquei sozinho em casa, ponderando. Sandra é vítima, como eu fui. A diferença é que já consegui dizer basta.
De noite mensagem da mãe: Filha, o Luís gritou comigo, preciso de ti.
Respondi: Mãe, não posso resolver os teus problemas com o Luís. Fala com ele.
Veio logo: És fria. Sou tua mãe.
Desliguei o telemóvel. Fiquei a olhar o tecto escurecido, o peito apertado, mas não chorei.
No dia seguinte, mais mensagens da mãe: O Luís disse que se não assinar, tenho de sair. Para onde vou?
Não respondi. Fui para o trabalho. Carolina perguntou se estava bem. Disse que sim, mas sentia as mãos a tremer.
No sábado de manhã, batiam à porta. Mãe, debaixo de chuva, sem guarda-chuva, saco na mão.
Posso ficar aqui uns dias? O Luís empurrou-me ontem, chamou-me nomes. Se não assino, põe-me na rua.
Pensei em tudo o que sentia zanga, mágoa, pena.
Podes. Mas só por uns dias.
Ela escondeu a cara, agradeceu baixinho.
Na cozinha, fiz-lhe chá. Quando o trouxe, ela disse em voz quase apagada:
Desculpa, filha.
Porquê?
Por tudo. Por não te amar como ao Luís. Por não te ver.
Fiquei a ouvi-la, sem abraços nem gestos. Pela primeira vez, era uma mulher frágil, não uma adversária.
Não precisas dizer isso.
Preciso. Fui má mãe para ti. Só agora percebo.
Chega, mãe.
Não. O Luís só me quer como serventia. Quando lhe disse que não, empurrou-me. Percebi que nunca me respeitou.
Ela chorou baixinho, ficou a soluçar na cadeira. Limpei-lhe a cara, enchi-lhe um copo de água.
Vais perdoar-me um dia?
Não sei. Agora não sei.
Ela assentiu.
Dorme. Amanhã é outro dia.
Ficou ali mais calma. À noite, ouvi-a a chorar. Não fui ter com ela.
Na manhã seguinte, ela perguntou:
E agora, Filipa? E a tua vida?
Continuo. Trabalho, caminho, vou vivendo.
E família?
Não tenho. Estou sozinha, já me habituei.
Culpa minha.
Não digas isso. O passado não se muda. Vamos em frente.
Como consegues ser tão calma?
Cansaço, mãe. Já não tenho força para zanga. Quero só viver.
Ela limpou a chávena, foi à procura de anúncios para alugar quarto.
Dias depois, informou-me que ia mudar-se para um quarto na Avenida Fernão de Magalhães.
Obrigada por tudo.
Não foi nada.
Odiavas-me?
Não, mãe. Só vazio.
Nessa madrugada, o Luís apareceu bêbado à porta.
Onde está a mãe?
Está a dormir.
Acorda-a! Preciso dela.
Vai embora, Luís.
Só saio quando falar com ela.
Forçou a entrada. Fiquei à porta, determinada.
Vais chamar a polícia, Filipa? Hás de ter vergonha!
Ele ameaçou bater, não ousou. A mãe acordou e veio ter connosco.
Luís, vai embora. Não volto para casa.
O quê?!
Não volto. Só me sabes faltar ao respeito.
Ele tentou avançar. Pus-me no meio.
Sai já, Luís.
Ele cuspiu para o chão, virou costas e saiu aos tropeções. A mãe tremia.
Abracei-a por instinto. Chorou de mansinho no meu ombro. Fiquei ali, sem palavras. Só ficámos juntos, como nunca.
De manhã anunciou:
Vou mudar-me já hoje, não quero ser peso.
Está bem.
Ela pôs o casaco, pegou na mala, despediu-se na porta.
Telefona, filha.
Ligo quando for preciso.
Foi-se embora.
Fiquei no silêncio. Sozinha. Mas, pela primeira vez, não senti remorso. Só um estranho alívio.
Hoje aprendi às vezes, o mais importante é ter coragem para dizer não. Mesmo que seja à nossa própria família. Porque antes de sermos filhos ou irmãos, temos de ser justos connosco próprios. É duro, mas finalmente, sou dono da minha dignidade.







