Hoje a Inês chegou a casa uns dias antes do previsto e trouxe uma série de mimos que a mãe tinha preparado para nós. Estava entusiasmada, queria surpreender-me, mas o que encontrou foi tudo menos o que esperava. Em vez de receber a minha mulher com um abraço, mandei-a ir ao supermercado. As consequências bem, nem as imaginava.
As malas pesadas quase que a faziam perder o equilíbrio e a Inês soltou um gemido sem querer. A dor nas costas já a acompanhava há pelo menos dois meses uma presença constante. Pousou as malas, uma delas cheia de compotas, presunto e maçãs do quintal, em cima do passeio de calçada gasta à entrada do prédio.
Respirou fundo. O bebé mexia-se com impaciência, já quase no sexto mês. Não é brincadeira nenhuma, ainda por cima quando querias fazer uma surpresa e voltas de Faro para Lisboa três dias mais cedo do que o combinado. Já sentia tantas saudades minhas, que nos últimos quilómetros de autocarro só conseguia contar os postes da estrada à espera de chegar.
Ficava a pensar o que estaria eu a fazer naquele momento. Apostava que eu nem desconfiava de nada ela estava mesmo ali, a dez minutos a pé de casa. Parecia que nunca mais chegava ao nosso prédio. Com aquelas malas todas, pesadas como chumbo, já não aguentava mais andar.
Caminhou uns cinquenta metros arrastada pelo peso e percebeu que não conseguia levar tudo sozinha. As costas não aguentavam.
Pegou no telemóvel e ligou-me:
Ó Manel, olá, murmurou no telefone, quando finalmente atendi.
Inês? Que se passa, amor? Está tudo bem? notei logo o nervosismo na minha voz.
Não se passa nada, cheguei agora! Estou aqui na paragem à porta do prédio. Vens cá dar-me uma ajudinha? As malas estão um exagero, a minha mãe encheu-me isto tudo…
Fez-se um silêncio estranho do outro lado. Inês até conferiu o ecrã para ver se a chamada estava ativa.
Estás aí na paragem? Agora mesmo? Então mas porquê, não era só quinta-feira? Não avisaste nada! a minha voz subiu.
Queria fazer-te uma surpresa disse ela, já meio aborrecida. Não estás contente? Por favor, estou mesmo cansada. Sai lá que eu só quero entrar em casa.
Espera aí! Não venhas já! Ou melhor, vai ao supermercado lá do bairro e compra carne carne de vaca, daquela boa. Tirei o dia, nem fui trabalhar, queria preparar um almoço à tua maneira, receber-te como mereces. Ainda por cima já acabei tudo o que estava no frigorífico…
Mas ó Manel, ouve lá Inês piscou como se tentasse acordar do pesadelo. Eu estou grávida, no sexto mês, carregada de sacos pesadíssimos, quase sem conseguir mexer-me! E tu queres que eu vá agora ao supermercado ainda por cima?
Em casa há batatas e ovos, chega perfeitamente. Preciso mesmo que venhas cá, estou exausta.
Oh Inês, não entendes interrompi-a, apressado. Eu quero que esteja tudo perfeito, é só dares um saltinho ao supermercado, são dois minutos a pé. Compra carne, umas batatinhas frescas, que as que temos estão murchas. Pede ajuda a alguém, ou leva devagar por favor! É para nós, prometo que preparo tudo.
Olhou para as mãos doridas, e sentiu-se revoltada.
Fizeste exame de consciência, Manel? a voz dela fraquejou. Queres mesmo que, neste estado, eu ainda vá ao supermercado buscar carne, por tua causa?
Tu não podes mesmo descer e ir tu?
Já comecei a preparar as coisas! Se sair agora, perco tudo. Inês, amor, pensa em nós. Compra lá 800 gramas de carne de vaca e um saquinho de batatas pequeno. Vá, estou à espera!
Desliguei sem ouvir resposta. Inês olhava para o telefone, atónita. Apeteceu-lhe chorar ali mesmo, encostada a um candeeiro frio da rua. Em vez de a receber com um abraço e uma cama quente, mandei-a ao supermercado. Se calhar ele está a planear alguma coisa extraordinária?, pensou ela, mas lá segui com as malas, coxeando, até ao supermercado aberto 24h.
Empurrou o carrinho pelos corredores, sentindo o olhar curioso da funcionária da caixa. A carne de vaca pesava, o saco de batatas estava impossível. Quando saiu da loja já nem sentia as mãos, os dedos estavam dormentes e duros.
O telefone tocou outra vez.
Já compraste? perguntei, animado.
Já, respondeu-me ela entre dentes. Estou à porta do prédio. Abre-me.
Espera, não subas já! quase gritei. Espera dez minutinhos no banco do jardim. Por favor, confia em mim.
Estás a brincar, Manel? Dez minutos? Estou com as pernas todas inchadas, quase não me aguento em pé!
O meu plano-surpresa ainda não está pronto! Se subires agora, estragas tudo. Descansa um pouco, vai ser rápido, prometo. Cinco minutos só, Inês. Tenho mesmo de desligar agora!
Ela sentou-se num dos bancos de madeira do jardim frente ao prédio. Os sacos tombaram com estrondo. Apeteceu-lhe atirar o saco de carne à janela do terceiro andar. Passaram dez minutos, depois vinte Depois de meia hora fui finalmente lá abaixo. Apareci a correr, com a camisola toda trocada e a cara a brilhar de suor.
Estás aqui! forcei um sorriso, pegando nas malas. Para que tanto ar de zangada? Olha que manhã bonita bom, vá, anda lá.
E tu, todo suado e a cheirar a detergente que até faz impressão, o que é isso, Manel?
Vais ver! tentei manter o entusiasmo.
Subimos. Abri a porta com pompa, a olhar-lhe para a reação. Ela entrou na entrada e sentiu logo o cheiro forte a lixívia misturado com ambientador barato brisa do mar.
Percorreu a casa sala, cozinha, WC. Estava tudo limpo, arrumado como nunca. Os tapetes lavados, o pó dos armários todo limpo, até as estatuetas dela postas num canto.
Então? O que achas? Surpresa! sorri, inchado.
Ela fitou-me, incrédula.
Só isto? murmurou.
Só? Inês, vê lá bem! Estive três horas nesta casa a esfregar! Até limpei debaixo do sofá! Quis que chegasses e pudesses entrar num espaço limpo. Corri feito doido enquanto foste ao supermercado, só para tudo ficar perfeito.
Vi-lhe os olhos encherem-se de lágrimas.
Então, para lavar o chão, obrigaste-me a ir fazer compras neste estado? Nem vieste buscar-me, mesmo eu pedindo soluçou ela, sem conseguir evitar.
Mas eu quis fazer surpresa! quase gesticulei sem controlo. Estavas sempre a dizer que eu não faço nada em casa. Quis provar o contrário! Não consegui terminar a tempo porque vieste antes E tu, em vez de agradeceres, só sabes reclamar! Devias ver como está tudo! Nem no nosso casamento estava assim.
Para que quero esta limpeza a este preço? gritava ela, a chorar de nervosismo. Fizeste-me esperar meia hora sentada ao frio, obrigaste-me a carregar sacos pesados numa gravidez avançada! Quiseste tanto brilhar que te esqueceste de mim!
Achas? Agora és tu que pensas em ti! E eu, que não dormi nada, preocupado, à procura de te agradar! ripostei, sentindo-me injustiçado.
Ela virou-se para a casa de banho, a chorar. Quando entrou, olhou-se ao espelho: pálida, olheiras fundas, o cabelo despenteado.
Nessa noite, discutimos tanto, que a Inês saiu de casa. Nem teve tempo de tirar o casaco. Apanhou o comboio de volta para Faro, para casa dos pais.
A família inteira tentou convencê-la a não pedir o divórcio pais, sogros, até primos afastados. Eu próprio liguei-lhe vezes sem conta, a pedir-lhe para voltar, a prometer que tinha percebido tudo e que mudava. Mas a Inês já estava decidida: não queria um marido que mete a limpeza da casa acima da saúde do filho.
Hoje percebi nenhum presente substitui a presença, o cuidado. Uma mulher precisa primeiro de amor e compreensão, não de chão lavado e paredes arrumadas. Por querer tanto mostrar que era capaz, esqueci o essencial: estar presente quando ela mais precisava de mim. Acho que só agora aprendi.







