Descobre por Ti Mesma

Desenrasca-te

António, o carro pifou. Bem no meio da Avenida da Liberdade. O meu telemóvel está quase sem bateria, estou a ligar de um número estranho.

Segurava o telefone com as duas mãos. Os dedos, enfiados em luvas finas de pele, teimavam em não obedecer como deviam. Um vento gelado corria pela rua, empurrando chuva miudinha contra as montras já sem brilhos, magoando os olhos. Madalena estava encostada à porta de um salão de beleza, de onde a dona tinha acabado de sair para fumar e, ao ver a mulher naquele casaco caro e com ar perdido, estendeu-lhe o telefone sem perguntar nada.

António, ouves-me?

Ouço. A voz do marido soava assexuada, calma, como quem dita recados à secretária. Estou numa reunião.

Eu percebo, mas preciso de ajuda. Um reboque ou diz-me a quem tenho de ligar, pelo menos. O meu telefone morreu, não consigo procurar o número.

Silêncio. Três segundos, talvez. E nesses segundos estava tudo: o jeito dele de olhar para o lado, o franzir de sobrolho, a urgência em despachar o assunto.

Madalena, não posso agora. Desenrasca-te. És adulta.

Desligou.

Ainda ficou com o telemóvel junto ao ouvido mais um instante, como se esperasse que o tom de chamada voltasse. Depois baixou-o. A dona do salão continuava ali ao lado, de olhar perdido para o temporal. Uma mulher pequena, com cerca de cinquenta anos, de bata azul sobre a camisola, cigarro aceso mas por fumar.

Obrigada, disse Madalena, devolvendo-lhe o telefone.

Conseguiu falar?

Sim.

Deu um passo para o passeio. A chuva enfiou-se logo pela gola, pelos pulsos, pelo espaço entre o lenço e a orelha. O casaco era bom, português, de lã grossa, forrado, mas o vento não perdoava. Madalena hesitou. O carro estava parado a um quarteirão dali, trancado. O reboque? Nada. O telemóvel, morto. Ir a pé para casa eram quase quarenta minutos, se o tempo estivesse melhor. A paragem dos autocarros ficava literalmente ao virar da esquina.

Foi para lá, de ombros encolhidos.

Sentiu qualquer coisa a fechar-se por dentro, já antiga, cansada. Não era raiva, não era mágoa. Só aquela certeza de que, de facto, não havia em quem confiar. Conhecia bem essa sensação. Não nasceu ontem nem há um ano. Foi-se instalando devagar, como uma nódoa teimosa na chávena: dia após dia, até um dia descobrir que o sabor já não é o mesmo.

Nove anos com António. Os dois primeiros foram diferentes. Depois começaram as reuniões, os projetos, os serões calados. Deixaram de jantar juntos, passavam pelo frigorífico em horários desencontrados. Madalena trabalhava num pequeno ateliê de arquitetura, fazia projetos de remodelação, ia a obras de vez em quando. O dinheiro que trazia era dela. António gostava de dizer que era uma mulher independente. Desenrascada, dizia ele. Desenrasca-te.

A paragem tinha abrigo, menos mal. Madalena encostou-se ao canto mais abrigado. Pouca gente: dois estudantes de mochila às costas, um idoso de chapéu e uma senhora de saco do Pingo Doce a abarrotar.

Olhou a estrada. A chuva caía de lado, teimosa. O candeeiro da paragem oscilava e a luz fugia pelo passeio. Os carros continuavam a fazer barulho ao longe.

Foi quando a viu.

Primeiro, não viu a mulher. Viu o casaco. Porque aquele casaco Madalena conhecia-o bem: pelo corte abaixo do joelho, o padrão ondulado, o colarinho alto com três botões de madeira escura. O tecido era especial, nunca soube o nome exato um tom de castanho profundo, quase cor de mel, denso e ao mesmo tempo ligeiro, como se fosse feito de lã e seda. O casaco era feito por encomenda numa pequena alfaiataria de Campo de Ourique, nunca à venda em lojas.

Tinha sido um presente de António, há ano e meio.

Tinham acabado de discutir a sério portas a bater, palavras duras que não se apagam e Madalena já pensava em sair de casa. De repente, António apareceu com uma caixa, enorme, atada com fita encarnada. Não era homem de dar presentes com alegria: ficou a olhar pela janela, enquanto ela abria o embrulho. Mas o casaco era verdadeiro, bonito, quente, feito de propósito para a mulher que o usasse. Madalena vestiu-o ali mesmo e sentiu o coração amolecer. Pensou: ele lembra-se. Talvez haja volta, afinal. Talvez ainda haja qualquer coisa viva debaixo daquela muralha de indiferença.

O casaco desapareceu passados seis meses. Dentro do carro, num estacionamento do El Corte Inglés. Madalena tinha deixado a mala no banco de trás, com o casaco dobrado eram só uns minutos. Quando voltou, tudo intacto, só a porta mal fechada, mas sem mala, sem carteira, sem documentos, sem telemóvel extra e sem o casaco.

António, na altura, só disse: Tens de tomar mais atenção às coisas. E ficou por aí.

E agora, ali estava o casaco, em pleno temporal lisboeta.

Na mulher que ela nunca tinha visto na vida.

Teria uns vinte e oito anos, baixinha, forte. Cara jovem, simples, quase sem maquilhagem, as bochechas vermelhas do frio. Cabelo escondido atrás de uma boina branca de risca azul, as mãos em luvas baratas. Botas gastas, saltos já sem borracha. E sobre os ombros, aquele casaco.

Madalena ficou a olhar e pensou logo que estava a imaginar coisas. Podia haver casacos parecidos, ainda que fossem feitos à mão. Mas depois viu os três botões. De madeira escura; o terceiro, mais claro, porque o original partiu e foi trocado em outra encomenda. Uma diferença de cor de cinco milímetros, que Madalena notava todas as manhãs.

Lá estava ele.

Onde arranjou esse casaco? perguntou Madalena.

A outra virou-se, um ar de surpresa tranquila como quem reage a uma conversa que não estava à espera.

Peço desculpa?

O casaco. Madalena aproximou-se. De onde é que veio esse casaco?

É meu.

Não. Disse Madalena, com a voz controlada. Esse casaco foi-me roubado há um ano. Quero saber como chegou até si.

A mulher olhou-a. O idoso desviou-se, os estudantes viraram a cara.

Deve estar enganada, disse a mulher, calma, mas firme. Comprámo-lo.

Onde?

No mercado. Em segunda mão.

Que mercado?

No de Alvalade.

E não achou estranho um casaco tão caro a ser vendido barato assim?

Hesitação. O rosto da mulher endureceu não medo, mas um controlo evidente, como quem se obriga a manter-se digna.

Paguei o que pediram. Foi uma compra honesta.

Honesta? Comprar artigos roubados?

Ficaram ali, frente a frente, a chuva ainda a tentar entrar no abrigo. O saco de supermercado a sair debaixo do braço da mulher. Daquele saco, espreitava um gorro de criança às riscas.

Tem filhos? perguntou Madalena.

Tenho.

Quantos anos?

Cinco. Está no jardim de infância. Pausa. Se calhar não podemos ficar aqui. Está frio. Veja, ali está uma pastelaria. Falamos melhor lá dentro. Se quiser chamar a polícia, pode chamar.

Madalena olhou a pastelaria. Chama-se Aconchego, talvez o nome mais certo para aquilo de que sentia falta.

Entraram.

Pequena, meia dúzia de mesas de madeira, jarros de flores surradas nas janelas. Cheiro a café acabado de fazer e pastel de nata no ar. Uma música leve na coluna, quase a não se ouvir. Pouca gente dentro: um casal de idosos num canto, um rapaz com portátil junto à parede.

Sentaram-se à janela. Lá fora, só se via a noite molhada.

A mulher tirou a boina: tinha cabelo castanho, quase preto, preso num coque. As mãos pousadas na mesa, ásperas, pequenas feridas nos dedos. Mãos de quem trabalha a sério, não no computador.

Veio uma empregada. Madalena pediu um café. A mulher pediu chá, depois pediu uma torrada.

Ficaram caladas até chegar o pedido. Então Madalena perguntou:

Como se chama?

Rosa.

Madalena. Ficaram um instante quietas. Conte-me do mercado.

Rosa pegou na chávena, aqueceu as mãos.

Cheguei a Lisboa em setembro. Precisava de trabalho e de sítio para viver. Quase sem dinheiro, só umas economias de uns meses. Falava calma, sem auto-piedade, como quem conta factos, não busca solidariedade. Arranjei emprego como auxiliar de limpeza no hospital de Santa Maria. Fiquei com um quarto numa casa de uma senhora, pequena mas boa pessoa. O Afonso entrou para o infantário, não foi fácil mas entrou.

O Afonso é o seu filho?

É.

E o pai?

Rosa ergueu os olhos por um instante.

Não estamos juntos. Respondeu seca. Não queria falar disso.

Madalena acenou, não insistiu.

O casaco.

Em novembro. Passei no mercado de Alvalade, onde há de tudo, novo e velho. Uns homens vendem roupa pendurada em cabides. Costumo só passar ao longe, nunca tenho dinheiro para gastar. Mas vi este casaco. Estava ali ao lado de outras peças. Toquei, percebi logo que não era comum. Pausa. Perguntei quanto queria. Disse: cento e cinquenta euros. Eu achei estranho, era pouco. Mas não questionei mais. Não queria saber.

E comprou.

Sim. Rosa olhou-a de frente. Sei que, do seu lado, pode não parecer bem. Mas eu não tinha casaco de inverno. Só um corta-vento. E aqui o frio não brinca. E o miúdo. E as noites, às vezes, era eu a voltar sozinha do trabalho. Encolheu os ombros. Comprei o casaco. Depois pensei que devia ter perguntado, mas já estava feito.

Madalena segurava a chávena de café. Bebi-a devagar, a observar Rosa.

Percebia que a história não tinha nada de extraordinário. Quantas Rosas existirão em Lisboa? Mulher com filho, cidade grande, vida recomeçada, trabalho duro. O que a prendia era a dignidade serena de Rosa, o jeito de aceitar a vida como ela vem, sem pedir palmas.

Trabalha no Santa Maria desde outubro?

Sim, há quatro meses. Era para ser temporário, mas o ambiente é bom e o infantário do miúdo é perto. Faço turnos noite sim, noite não. Quando não posso buscá-lo, a dona da casa, a Dona Carmelinda, toma conta dele.

Madalena pensou em todas as Rosas. Em todas as vezes em que fez projetos de apartamentos para clientes que queriam juntar sala e cozinha. Na sua própria vida, ordinária nos últimos meses: escritório, casa, jantar sozinha, conversas funcionais com António sobre contas e canalizadores. Às vezes, eventos de trabalho a dois, em que António fazia sala e Madalena sorria. Tinha aprendido a sorrir, como se sentia.

Não se lembrava da última vez que tinha sorrido como Rosa, de verdade.

Quando vestiu o casaco pela primeira vez, o que sentiu?

Rosa ficou séria.

Parece parvo, mas senti que estava a conseguir. Falava baixinho. Vim sem nada, com o miúdo, recomeçar tudo. Agora tenho um teto, emprego, o Afonso está num sítio seguro, e aquele casaco era como uma prova de que estava tudo a valer a pena. Que não tinha falhado. Entende?

Madalena entendeu.

Sentiu algo apertar na garganta, não de pena mas de identificação. Ela própria, naquele primeiro dia em que vestiu o casaco dado por António, quis acreditar que aquilo era sinal de amor debaixo da indiferença.

Mas não era.

A vida voltou às mesmas rotinas, o casaco ficou a apanhar pó, a esperança arrefeceu até desaparecer.

Aquele frio que Madalena sentiu, não era o do tempo.

Rosa, tem o que vestir amanhã para trabalhar se devolver o casaco?

Rosa hesitou.

Tenho um corta-vento.

Não é quente.

Não. Mas desenrasca-se.

Madalena olhou o casaco outra vez, pendurado sobre a cadeira. Muito bem tratado, o pelo liso, limpo, com mais cuidado do que quando era seu.

Cuida bem dele.

Cuido. Não se pode estragar uma coisa destas.

Como limpa?

Uma escova própria, comprei por dois euros na drogaria. E guardo no armário com bolas de cedro, por causa dos bichos. Nunca tive um casaco destes, nunca.

Fica-lhe bem.

O elogio saiu sincero.

Sabe, disse Rosa, o melhor é que, com este casaco, tratam-me diferente no trabalho. Não melhor, nem pior, mas como igual. Como se fosse uma pessoa normal.

Madalena pousou a chávena.

Compreendo, disse.

Ficaram ali caladas. Depois, Madalena tomou uma decisão.

Rosa, fique com o casaco.

A outra ficou de boca aberta, sem perceber.

A sério?

Sim. Não é por pena, acredite. Simplesmente precisa mais dele do que eu. Para mim, já não significa nada de bom.

Não posso aceitar assim

Pode. Pagou-o. Cento e cinquenta euros não são insignificantes para quem começa do zero

Rosa baixou os olhos, emocionada.

Porque faz isto?

Madalena pensou. Com honestidade.

Porque para mim o casaco acabou por não significar nada de verdadeiro. Mas para si significa luta e conquista. Pausa. Deve ficar onde pesa mais.

Rosa acenou, só isso.

Voltaram a pedir chá, café. Já conversavam de outras coisas. Da dificuldade de circular nos corredores escuros do hospital, de como a arquitetura influencia a vida das pessoas. Rosa espantou-se por as plantas das casas serem tão importantes, Madalena explicou que a luz, o espaço aberto, faz diferença para as pessoas mesmo quando não se nota.

Os corredores são sombrios. Devíamos abrir uma parede.

Devia, dizia Madalena. Mas nunca há dinheiro para tudo. Fica sempre por fazer.

Cá fora continuava a chover, mas era como se já estivessem ali sentadas há uma eternidade. Madalena não sentia pressa.

Tenho de ir buscar o Afonso, disse Rosa. O infantário fecha às sete.

Levantaram-se. Rosa vestiu o casaco. Antes de apertar os botões, olhou Madalena.

E a Madalena, como volta? O carro ainda está lá?

Sim. Vou pedir um reboque quando conseguir carregar o telemóvel. Ou peço boleia no táxi para carregar.

Pode ligar do meu, tenho bateria.

Marcaram o reboque. Rosa aguardou pacientemente até tudo estar resolvido.

Saíram juntas para a rua.

O vento açoitou-as, Rosa puxou a boina, Madalena ergueu a gola.

Vai para onde? perguntou Rosa.

Vou buscar o carro.

E eu sigo até ao infantário. Hesitou. Fique bem.

Igualmente.

Caminharam em sentidos opostos, Madalena voltou-se para ver Rosa afastar-se a passo firme com o casaco a bater-lhe pelos joelhos. Ficava-lhe bem. Seguia naquela mulher certa.

Madalena chegou ao carro. O reboque demoraria quarenta minutos. Ficou à espera, costas ao vento.

Pensou em António. Não com raiva, que exige energia, mas com uma distância quase resignada. Nove anos, sendo que sete foram assim: vida paralela, chamadas a que não respondem, jantares ausentes.

O que a prendia?

Hábito, receio de mudar tudo, medo de ficar sozinha, aquela ilusão dos filmes que nos fazem acreditar que um dia vêm buscar-nos de caixa e laço. O casaco, percebeu agora, era só mais uma esperança. Um símbolo. Talvez fosse melhor assim. Sem ele.

O rebocador chegou mais cedo. Enquanto tratavam da papelada, o condutor ofereceu-lhe carregar o telemóvel no camião. Madalena aproveitou para ligar ao ateliê.

Não venho hoje, Teresa. O carro avariou. Não faz mal, revejo tudo amanhã.

Claro, Dra. Madalena. Está tudo bem?

Está. Está sim.

E era verdade, estranhamente.

Saiu no táxi até casa. A neve transformara-se numa chuva fina, menos agressiva, quase suave.

Em casa, silêncio. António não, ainda, reuniões intermináveis ou outra coisa qualquer. Madalena tirou o casaco, foi para a cozinha, pôs água a ferver. Ficou a olhar a rua.

Pensou em Rosa, a apanhar o filho no infantário, num apartamento pequeno com uma senhoria honesta. Em Afonso a contar-lhe histórias pelo caminho, aquelas coisas de miúdos, dos cães e dos gatos.

Pensou que não trocara números de telefone. Era irrelevante. Tinham-se cruzado num inverno, numa paragem, nada mais. Cada uma seguiu o seu caminho.

Mas alguma coisa ficou. Não o casaco. Outra coisa.

A água fervia. Serviu o chá e sentou-se. Quando António chegasse, dir-lhe-ia que tinham de conversar. Sério, sem rodeios sobre contas e canalizadores. Ele ficaria impaciente, ela insistiria: não dá para adiar mais. Dessa vez, falaria. O resto, logo se veria.

O que queria, percebe agora, não era assim tão complicado. Não carros nem eventos certos. Não um parceiro apenas prático. Queria alguém que atendesse o telefone. Uma voz que se notasse presente. Um jantar com conversa.

Talvez ainda fosse possível. Talvez não. Não sabia. Mas deixaria de fingir.

Sentou-se ali a ouvir o silêncio. Cá fora, só chuva e luz de candeeiro.

Pensou: na Primavera vou fazer algo diferente. Nada radical, só meu. Talvez aulas de pintura, como há muito pensava. Rever o projeto do centro infantil e falar com o cliente sobre espaços que sirvam melhor as crianças. É isso que gosta de fazer, com empenho.

Lá fora escureceu de vez. Madalena levantou-se, lavou a chávena, pendurou o casaco bom na entrada.

Depois apagou a luz e foi para a sala. Esperar.

Não, não esperar.

Simplesmente estar.

***

Algumas semanas depois, já em fevereiro, com menos frio, viu uma mulher com um casaco parecido do outro lado da rua. O coração vacilou, mas não era ela. Era só semelhante.

Avançou, tinha reunião com o cliente do centro infantil. Levava plantas novas, refeitas. A luz agora entrava de dois lados, ensolarava tudo. Sabia que iam torcer o nariz à alteração, mas ela ia explicar. Sabia explicar.

A rua já tinha menos água, começava a cheirar a Março.

Percebeu então: às vezes, basta um encontro ao acaso, numa noite fria, alguém que nos conta a vida e nos faz reconhecer algo antigo em nós. Nada mais, nada especial.

Mas chega.

E é disso que às vezes precisamos.

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