Onde está o jantar, Mariana? Estou a perguntar: onde está a comida?!
Mariana nem sequer vira a cabeça para o marido, sentada na beira do sofá enquanto embalava nos braços o pequeno embrulho donde se ouvia um resmungo abafado.
Quietinha, Leonor murmurava, quase sem voz. Só agora se calou! Passei metade do dia no centro de saúde, depois fui à farmácia, depois…
Não me interessa onde estiveste! o marido entra de rompante no quarto, ainda de casaco vestido. EU é que trabalho, eu é que sustento tanto a ti como à miúda!
Chego a casa e quero ver um prato de sopa a fumegar na mesa, não a tua cara azeda e esse choro constante.
Mas afinal, o que fizeste o dia todo?
Estive a tratar da tua filha respondeu Mariana, fitando-o com olhos cansados. Voltou a ficar cheia de borbulhas nas bochechas.
Os médicos não sabem o que tem, tive de andar eu própria à procura de pomadas.
Quantas vezes já lhe perguntaste como é que ela se sente?
Para quê? Se grita, é porque está viva. Tu és mãe, tu é que cuidas dela.
O teu dever é garantir o meu conforto. Para isso me casei!
Era para… jantar raviolis de pacote e passar noites em claro?
Casaste porque te dava jeito, cortou Mariana. E eu aceitei porque toda a gente sussurrava: já está na idade, é agora.
Pois aí tens, a idade.
Daniel franziu o sobrolho, dirigiu-se ao carrinho de bebé encostado ao canto e, com irritação, desferiu-lhe um pontapé.
O carrinho rolou até embater no aparador. A filha recém-nascida, assustada, desatou num novo choro.
Cala essa miúda! gritou Daniel. Ou eu perco a cabeça!
Há apenas um ano, a vida de Mariana era outra. Era a rapariga por quem toda a gente se virava na rua: sempre elegante, mente viva, planos para cada fim de semana.
Daniel parecia um príncipe: bonito, ambicioso, sempre a impor-se.
Ora se entendiam, ora discutiam, envoltos em dramas de ciúmes seguidos de reconciliações apaixonadas à frente de todos.
Quando Daniel apareceu com o anel, Mariana hesitou. Mas os pais insistiram.
Filha, já não se brinca aos namoros, dizia-lhe a mãe enquanto lhe servia rabanadas. Tens vinte e sete anos.
O Daniel é rapaz de família decente. Até estão a planear casa nova. E filhos? Já pensaste nisso?
Mãe, gosto do meu trabalho. Acabei de começar um projeto novo!
O trabalho é vento, interrompia o pai atrás do jornal. Mulher sem família é como árvore sem raiz: seca-se sem dar conta.
O Daniel é bom rapaz e quanto ao feitio todos têm. Agora habituam-se.
Mariana acabou por ceder. Aquela fraqueza, mais tarde, recordá-la-ia em todas as noites insónia.
O casamento foi luxuoso, casa própria com empréstimo, gravidez inesperada.
Tudo ocorreu depressa de mais. Mal se habituara ao papel de esposa, já era mãe.
Sonhava com um rapaz: passeios de futebol, o filho calmo e ponderado como ela.
Mas na ecografia: É menina. Sentiu algo a quebrar-lhe por dentro.
O parto foi um pesadelo. Complicações, soros, corredores intermináveis do hospital a cheirar a lixívia e tristeza.
Quando teve alta, Mariana sentia-se como um vaso estilhaçado colado à pressa e torto.
Olhava a filha no berço e só sentia cansaço e irritação.
Mas porquê chora tanto? desabafava à mãe, que viera ajudar.
Cólicas, filha, temos de aguentar. Eu aguentei, tu também consegues. Tem fome.
Não pega! E eu estou toda dorida, mãe!
Então é porque não sabes dar bem. Tens de tentar mais. Agora és mãe, esquece quero, agora só existe tenho de.
Daniel afastou-se logo após as primeiras duas semanas em casa. Tentou fazer de pai dedicado, mas desistiu num instante.
Enjoava-lhe o cheiro da bebé, as fraldas espalhadas, e ainda mais o facto de Mariana já não ser a sua geisha pessoal.
***
A minha mãe ligou, dizia Daniel na cozinha, vendo Mariana tentar mexer uma panela de sopa aguada segurando a filha que teimava em não se calar. Diz que a Patrícia anda outra vez em lágrimas.
Patrícia, irmã mais velha de Daniel por três anos, estava casada há cinco e não tinha filhos.
Sempre que via fotos da sobrinha nas redes sociais ou ouvia falar dela, reagia com crises de ciúmes.
E o que queres que faça? Peço desculpa por ter sido mãe? Mariana pousou a colher.
Não devias mostrar tanto orgulho. A mãe acha que andas a exibir-te com a maternidade.
E diz também que és má dona-de-casa. Tens pó nos rodapés.
A tua mãe não vem cá há duas semanas, Daniel. Como é que sabe dos rodapés?
Sente! Daniel deu um murro na mesa. E está certa. Olha para ti. O roupão todo sujo, os olhos encarnados.
Pareces uma camponesa desleixada.
Se ao menos me ajudasses Se ao menos uma noite fosses tu ver a bebé…
EU trabalho! gritou ele. Alguma vez entraste isso nessa cabeça, hã? Eu trago o dinheiro.
O teu papel é gerir a casa e a miúda.
Olha, sábado vamos ao monte ter com os teus pais. Ligaram, dizem que o ar fresco faz bem à pequena. Os meus também vão.
Não quero ir ao monte. Está frio, não há água decente para lavar a bebé, a tua mãe vai passar o tempo todo a conspurcar-me com a minha mãe.
Não quero saber do que tu queres. Pai e mãe mandam. Arruma as malas para as oito da manhã. Nem mais um queixume.
***
No monte, tudo corria pior. Os pais, babados por serem avós, quase lhe arrancavam a pequena dos braços.
Estás a segurar mal! gritava a mãe da esplanada. Apoia-lhe a cabecinha! Pelos santos, assim não se enrola uma criança! Dá cá!
Deixem-me em paz! Mariana resmungava, afastando-se para o fundo do quintal.
Daniel ignorava-a a ela e à filha. Sentava-se com o sogro, a conversar sobre carros, e incitava ainda mais a mãe quando esta ironizava Mariana.
Ora aí está, Mariana, então isso nas bochechas, são borbulhas? Não cuidas bem dela, deve ser da comida que comes.
A minha Patrícia, se tivesse um bebé, ah, ela era um exemplo, é tão cuidadosa…
Então que seja a Patrícia a ter filhos, qual é o problema? Mariana respondeu, seca.
A sogra, Antónia Figueiredo, levou as mãos ao peito.
Daniel! Ouviste? Está a gozar com a desgraça da tua irmã!
O marido chegou furioso, agarrou-a pelo braço e apertou com força.
Pede desculpa à mãe, já!
Solta-me, dói!
Diz já desculpa, ouviste? Passaste dos limites?
Os pais de Mariana assistiam, mas em vez de a defender, o pai deitou-lhe um olhar severo:
Não respondas à mãe do teu marido assim. O Daniel tem razão, tem respeito.
Ali, Mariana percebeu: estava sozinha. Contra ela, todos.
Um marido que a vê como criada, pais que preferem reputação ao bem-estar da filha, e uma sogra que rói o casamento de inveja.
***
A crise explodiu uma semana após regressarem à cidade.
A filha vinha a choramingar com cólicas, Mariana já somava a segunda noite sem dormir.
Quando finalmente a bebé adormeceu, Mariana deslizou para o chão da cozinha, encostando-se ao armário, de olhos fechados.
A porta da rua escancarou-se. Daniel voltou do trabalho mal-humorado.
Porque está o lixo cheio no corredor? nem um olá, disse ele.
Mariana não respondeu. Faltava-lhe força até para separar os lábios.
Estou a falar contigo! empurrou-a com o pé. Levanta-te e leva isso já lá fora.
Leva tu, murmurou ela. Não aguento mais. Dói-me as costas, só quero dormir uma hora, Daniel, só uma hora
Tu não podes?! agarra-a bruscamente pelo colarinho do roupão e puxa-a de repente para cima.
O pano rasga-se.
Olha para isto, sente-se uma princesa cansada. Outras têm cinco filhos e trabalham no campo, tu não vales nada.
No quarto, a filha acorda e desata a berrar. Daniel, num ataque de raiva, corre à cama.
Outra vez?! Sempre este berro! abana o berço com força. Cala-te!
A criança soluça, sufocada de medo.
Mariana irrompe, tentando afastar Daniel.
Não lhe toques! Larga-a!
Ela arruinou-me a vida! Daniel ergue a mão e desferiu-lhe uma bofetada.
Mariana é projetada contra o armário, batendo com a cabeça no móvel.
Tudo escurece, mas o pior é que Daniel não pára.
Dirige-se de novo ao berço, e com raiva aperta a perninha da bebé.
O choro era estridente, nunca Mariana ouvira assim.
Nesse instante, uma fúria desconhecida tomou-lhe o corpo. Medo, compaixão, abulia tudo desapareceu.
Só restou raiva.
Pegou numa estatueta pesada, mais uma prenda absurda da sogra, e avançou decidida.
Faz mais uma vez sussurrou, pronta a atacar , toca nela mais uma vez, e juro que te parto a cabeça.
Sai.
Daniel ficou estupefacto.
Tu vais-me bater, sua doida? Isto é a minha casa!
A casa é comprada no casamento, Mariana falava nítida. O empréstimo foi pago com o meu subsídio de maternidade, os teus prémios e ainda por cima os meus pais ajudaram a liquidar. Metade é minha.
Agora não interessa. Sai antes que chame a polícia e registe este abuso.
Tenho marca da tua mão na cara, Daniel. E se outra aparecer no bebé, denuncio-te.
Podem não te prender, mas arruino-te a vida ao ponto de trabalhares até ao fim dos teus dias para advogados.
Saiu do quarto e ligou à polícia.
***
A batalha judicial foi longa. Daniel tentou recorrer à mãe e à irmã, que passaram a ligar e mandar mensagens ameaçadoras, mas Mariana limitou-se a bloquear os contactos.
Quando os pais vieram apaziguar a situação, ela nem os deixou entrar.
Ou ficam do meu lado, ou esqueçam que existo.
O vosso genro levantou a mão à vossa neta recém-nascida. Se acham isto aceitável, não temos mais o que falar.
O pai encolheu-se, a mãe chorou. Só ao ver a marca na perna da neta silenciaram.
Reconheceram ambos que berraria sobre um bebé não tem desculpa.
Mariana não só avançou com o divórcio, como foi ao trabalho dele. Silenciosa, tranquila, com uma pasta de documentos.
Sem escândalos mostrou ao chefe de segurança, antigo colega do pai, um vídeo da câmara de vigilância do quarto da bebé Daniel comprou-a ainda antes da filha nascer.
No vídeo estava tudo inclusive a cena do quarto.
O Daniel foi convidado a sair, por decisão própria. Numa empresa dessas, reputação é tudo e ninguém queria um escândalo destes.
A sogra, ao saber que o filho ficara desempregado, ficou doente de nervos. Patrícia, temendo que o vídeo se torne público (com tantos conhecidos em comum nas redes), calou-se de repente.
***
Agora, Mariana leva uma vida tranquila. Por vezes sente o aperto financeiro, mas cala-se.
Daniel deixou-lhe a sua parte da casa a troco da pensão de alimentos, para ela servia.
A família dele esqueceu-se da existência da criança de um dia para o outro, e o pai nunca visita a filha.
Às mulheres com quem Daniel se cruza, diz que nunca foi casado.







