Tomei a decisão de deixar de levar as minhas filhas aos encontros de família depois de anos sem perceber realmente o que estava a acontecer.
As minhas filhas, Leonor e Benedita, têm 14 e 12 anos. Desde pequenas começaram a ouvir aqueles comentários que muitos dizem serem normais:
Ela come demais.
Essa roupa não lhe fica bem.
Já é demasiado crescida para se vestir assim.
Tem de ter cuidado com o peso, ainda é nova.
No início, achava que eram coisas sem importância, resultado do jeito mais direto que sempre caracterizou a minha família. Pensava: É assim que são
Quando eram mais novas, não sabiam como responder. Calavam-se. Baixavam os olhos. Por vezes, sorriam por educação. Eu percebia o desconforto mas convencía-me de que estava a exagerar. Afinal, os encontros de família sempre foram assim.
E sim, havia uma mesa cheia, risos, fotos, abraços
Mas também olhares prolongados. Comparações entre primas. Perguntas desnecessárias. Comentários feitos em tom de brincadeira.
No fim do dia, as minhas filhas chegavam a casa mais caladas do que o habitual.
Com o passar do tempo, os comentários não acabaram.
Apenas mudaram de formato.
Já não se falava só sobre comida era sobre corpo. Aparência. Desenvolvimento.
Esta já está muito formada.
A outra é demasiado magra.
Assim nenhum rapaz vai gostar dela.
Se continuar a comer assim, depois não se queixe.
Ninguém se preocupava com o que elas sentiam.
Ninguém se dava conta de que eram raparigas, que ouviam e guardavam tudo.
Tudo mudou quando chegaram à adolescência.
Um dia, depois de um almoço de família, a Leonor disse-me:
Pai já não quero ir mais.
Explicou-me que, para ela, aqueles encontros eram um sofrimento: ter de se arranjar, de estar lá, de aguentar comentários, de sorrir por cortesia e depois voltar para casa a sentir-se pior.
A Benedita assentiu, sem dizer muito.
Naquele momento, percebi que ambas se sentiam assim há muito tempo.
Comecei a prestar atenção de verdade.
Lembrei-me de cenas. De frases. De olhares e gestos.
Ouvi outras histórias gente que cresceu em famílias onde tudo era para o seu bem. Percebi o quanto isso pode marcar o amor-próprio, ferir a autoestima.
Foi então que, juntamente com a minha mulher, decidi:
As nossas filhas não iriam mais onde não se sentissem seguras.
Não as obrigaríamos.
Se algum dia quiserem ir, estão à vontade.
Se não quiserem não é o fim do mundo.
A paz delas é mais importante do que qualquer tradição familiar.
Alguns familiares já se aperceberam.
Começaram as perguntas:
O que se passa?
Porquê já não vêm?
Estão a exagerar.
Foi sempre assim.
Não podem tratar as crianças como se fossem de vidro.
Eu não lhes expliquei.
Não fiz cenas.
Não discuti.
Simplesmente deixei de as levar.
Às vezes, o silêncio diz tudo.
Hoje, as minhas filhas sabem que o pai nunca as colocará em situações onde tenham de suportar humilhações mascaradas de opinião.
Talvez alguns não gostem.
Talvez nos achem conflituosos.
Mas eu prefiro ser o pai que põe limites e não o que vira a cara enquanto as filhas aprendem a odiar partes de si, só para encaixar.
Ficou-me uma lição: não vale a pena manter tradições à custa do bem-estar dos nossos filhos. Prefiro ser o pai que protege, do que o que faz de conta que não vê.
Decidi deixar de levar as minhas filhas aos encontros de família… depois de anos sem perceber o que …







