Cópia da Esposa

Cópia da Esposa

– Tens a certeza de que não te vou atrapalhar? perguntou Mariana, à entrada, com uma mala ao ombro e um sorriso atrapalhado, daqueles que nunca lhe vira antes. Eu percebo que não é conveniente. Eu entendo.

– Mariana, deixa-te disso. Anda, entra. Afastei-me para lhe dar passagem, segurando a porta. O quarto está livre, o António não se importa. Está tudo bem.

– O António não se importa repetiu ela, com aquele tom que não era bem ironia. Antes espanto. Como se não se importar fosse algo de especial.

– Ele raramente se importa com as coisas, disse eu, já a caminho da cozinha. Descalça-te, os chinelos estão à esquerda.

E foi assim que tudo começou.

Tinha eu cinquenta e dois anos, e a minha amiga Mariana, dos tempos da faculdade, cinquenta e um. Já não convivíamos de perto há uns cinco anos; falávamos ao telefone, e de vez em quando tomávamos um café no centro de Lisboa. Eu jurava que conhecia bem a Mariana. Bem o suficiente para lhe abrir a porta de casa de imediato. Ela divorciara-se. Tinha acabado o prazo do apartamento arrendado. Os papéis da nova casa demoravam. Precisava de duas, três semanas, um mês no máximo. Para esperar, reerguer-se, pôr-se de pé.

Morávamos em Setúbal uma cidade nem pequena, nem muito grande, onde todos os bairros são um pouco semelhantes, e no minimercado já conhecem os clientes só pela voz. O meu apartamento era de três quartos, no terceiro andar, com janelas para uma rua sossegada. O António trabalhava numa empresa de construção não era o patrão, mas tinha um bom cargo. Eu dava aulas de Economia no politécnico. Vinte e três anos juntos. A nossa filha já vivia há bastante tempo noutra cidade. Em casa, estava tudo no sítio, arrumado como só está numa casa onde já não se querem grandes mudanças.

A Mariana chegou com uma mala grande e uma caixa. Desempacotou-se silenciosa, quase invisível. Nos primeiros três dias quase não a ouvi: saía cedo, voltava tarde, comia pouco, falava ainda menos. O António, na primeira noite, perguntou:

– É por muito tempo?

– Um mês, respondi.

– Um mês repetiu ele, com o mesmo tom de surpresa que eu ouvira na Mariana.

Não liguei. Sou daquelas pessoas que pensam que não ligam a pormenores. Ou assim queria acreditar.

O primeiro sinal surgiu na segunda semana. Entrei de manhã na casa de banho e deparei-me com o frasco dos meus perfumes Gardénia, verde escuro com tampa prateada, que eu usava há três anos e comprava sempre na perfumaria da Rua Primeiro de Maio num sítio diferente. Em vez da prateleira da esquerda, estava na borda do lavatório. Pensei que tivesse sido eu a mudar, voltei a pôr no sítio e esqueci.

Na terceira semana, reparei noutro detalhe.

Tomávamos o pequeno-almoço juntos, nós os três. Eu fazia o café como gostava: primeiro um pouco de água fria, depois a quente, mas nunca a ferver, senão amargava. O António sabia e elogiava sempre. Nesse dia, foi a Mariana que fez o café, porque eu estava ao telefone. O António, ao provar, disse:

– Está óptimo.

– Copiei o segredo contigo, Olívia, riu a Mariana. Tu fazes sempre assim.

Olhei para ela. Sorria. Era tudo simpático, brincalhão. Eu também sorri.

Mas lá dentro, ficou um restinho de incómodo. Sem porquê, sem palavras.

A semana puxou-me para o torvelinho do trabalho, e esqueci. Quando chegava a casa, tudo estava arrumado e silencioso. Descobri que a Mariana aproveitava para limpar, pôr tudo em ordem. O António habituou-se a isso mais depressa do que eu.

– A Mariana fez o jantar hoje, informou ele uma noite, como quem anuncia uma coisa boa sopa de feijão. Muito boa.

– Eu também faço sopa de feijão respondi.

– Pois, anuiu ele. Fica parecida.

Não perguntei quem fazia melhor. Ele também não disse.

Durante esse tempo, a Mariana trabalhava de casa qualquer coisa com documentação, já nem prestei atenção. Passava o dia no quarto de hóspedes, ao computador. A meio do dia ia à cozinha, fazia o almoço, ao jantar aparecia arranjada, vestida, como quem recebe visitas. Não em roupa de andar por casa, mas bonita. Reparei nisso, porque eu, normalmente, à noite enfiava uns calções ou umas calças confortáveis e o meu velho casaco de malha. Mariana parecia mais elegante do que eu, na minha própria casa.

Numa noite, o António sentou-se ao lado dela a ver televisão. Eu aproveitava para corrigir testes no quarto. Pelas paredes ouvia a conversa normal, serena, cheia de pequenas risadas. E o riso da Mariana soava parecido com o meu, só um pouco mais suave. Pensei nisso e afastei o pensamento. Riso é riso, pensei. Qual é o mal?

Só que, uns dias depois, voltei a pensar nisso. Mais a sério.

A Mariana mudou a maneira de usar o cabelo. Antes trazia-o curto, cortado com precisão. Agora deixava crescer, ajeitava de lado, com aquele ar despreocupado tal e qual como eu usava. Dei-me conta disto ao espelho, no corredor. Vi os nossos reflexos lado a lado. Era como ver uma foto antiga, e outra tirada no mesmo sítio, noutra altura.

– Fica-te bem assim o cabelo, disse.

– Achas? Sorriu ao espelho, ajeitou uma madeixa. Apeteceu-me experimentar. Vi em ti e apeteceu-me.

De novo em ti. Mais uma pequenina cópia, involuntária, mas cópia. Sorri e fui tratar do jantar. Mas, por dentro, a inquietação aumentava.

Liguei à minha filha ao domingo.

– Então mãe, como vão as coisas?

– Vão bem. A Mariana está a ficar cá em casa. Lembras-te dela, já te falei?

– Oh, sim. Ainda está aí?

– Ainda está. Os papéis têm-se atrasado.

– Pronto. E o pai, tudo bem?

– Sim, entendem-se bem, ela e o teu pai.

Silêncio.

– Isso é bom ou mau? perguntou ela.

– É bom, disse eu. É bom.

Depois da chamada, fiquei um bom bocado a olhar pela janela, o chá arrefecido nas mãos. Pensei que dão-se bem era uma frase neutra. Mas eu dissera-a com um cuidado estranho, como a medir o chão antes de avançar.

Na quinta semana, a Mariana pediu-me a receita do bolo.

– Aquele que fizeste no domingo passado, com maçã e canela.

– Não tenho a receita escrita, faço de cabeça.

– Explicas-me? Eu experimento.

Expliquei, pormenorizado. Ela anotou no telemóvel, e três dias depois fez ela o tal bolo. O António dizia está bom, e eu não percebia se era por o bolo estar mesmo bom, ou se já nem notava diferença entre quem fazia.

Nessa noite, abri o armário do hall e reparei num casaco novo. Cinzento claro, com cinto. Igual ao meu. Percebi que a Mariana o comprara. Pus o meu ao lado e fiquei a observar os dois, tão parecidos.

Não questionei. Não por medo da resposta. Era porque não sabia como perguntar sem parecer ridícula.

O trabalho andava puxado: inspeção à porta, muitas reuniões e relatórios. O António ficava mais tempo na sala à noite. A Mariana também. Às vezes ouvia-os conversar, mesmo de porta fechada. Se entrava na sala, a conversa mudava incluíam-me, sem deixarem de ser só deles.

Um dia, não aguentei: disse ao António, numa noite, quando a Mariana já estava no quarto.

– António, não te parece que ela anda… a copiar-me um bocadinho?

Olhou para mim, genuinamente surpreendido.

– Quem? A Mariana?

– Sim. O penteado, o casaco, os bolos, o perfume.

– Oh, as amigas vão buscar manias umas às outras. É natural.

– Talvez, consenti. Talvez.

Ele já olhava para o telemóvel. Assunto encerrado.

Fiquei deitada às escuras a pensar que ele tinha razão, talvez. As amigas copiam-se. Eu própria devo ter copiado alguma coisa dela anos antes. Mas naquele momento a palavra natural parecia não encaixar. Repeti-a baixinho, mas não colava à sensação que tinha.

Daí em diante, passei a observar mais. E vi detalhes que antes escapavam: Mariana inclinava a cabeça para a direita ao conversar com o António, como eu fazia; usava o pois é, esticando o é como eu; bebia chá sem açúcar, quando eu tinha a certeza de que ela sempre usava duas colheres. Agora, sem açúcar.

Deixou de ser coincidência. Passou a ser outra coisa.

Liguei à Nina, colega do politécnico, mulher directa.

– Nina, já te aconteceu sentires que uma pessoa ao teu lado começa, literalmente, a tornar-se tu?

– Como assim?

– Começa a copiar tudo. Maneiras, hábitos, forma de falar, até a forma de estar.

– Isso chama-se inveja silenciosa, disse ela, sem hesitar. A pessoa quer a tua vida mas não consegue de frente; então vai, devagarinho, roubando os teus pedaços.

Fiquei calada.

– Tens alguém assim na tua vida?

– Não sei, desconversei. Talvez não.

Mas já sabia que sim.

O confronto com a Mariana não foi planeado. Estávamos na cozinha, chá às duas. Ela disse:

– Olívia, tu és tão equilibrada. Olho para ti e penso: é assim que se faz. Casa, marido, trabalho. Tens tudo no sítio.

– Demorei vinte anos a pôr isso tudo no sítio, retorqui.

– Eu sei, anuiu. Nota-se. Sente-se. E o António…

Parou.

– O António o quê? perguntei.

– Valoriza-te muito. Disse-me que estão bem, que se entendem.

Assentei a chávena.

– Fala sobre mim com ele?

– Às vezes, nos nossos dedos de conversa. Ele elogia-te.

– Fico contente, apressei-me a dizer, sem sentir verdade.

Não sabia porquê. O marido elogiar-me à amiga sempre fora natural. Mas qualquer coisa estava fora de tom. Intuição feminina, pensei com ironia mas não deixei de sentir.

No final da sexta semana, a Mariana pediu se podia usar o meu perfume Gardénia.

– O meu acabou, não tenho tempo de comprar hoje. Usas duas vezes?

– Claro, disse eu.

Mas à noite abri o frasco e percebi que faltava muito. Ainda havia mais de metade há poucos dias.

Guardei-o no armário, tranquei com um cadeado minúsculo, desses que nunca se usam. Depois olhei ao espelho: Agora escondo perfumes da minha amiga. Que tipo de pessoa sou?

Mas não voltei a tirar o frasco.

O António chegou, nesse dia, com um bolo, estava animado frequente ultimamente, sempre que a Mariana estava em casa.

– Hoje merecemos um miminho, disse.

A Mariana ficou entusiasmada, tal como eu se ficaria; não mais nem menos o tom certo. Observei de longe: ela elogiava o café no tom correcto, ria-se quando devia, inclinava a cabeça do modo certo, surpreendia-se como eu. Fazia tudo igual a mim só que melhor, mais fresca, sem o peso de vinte e três anos de hábito.

E o António notava. Talvez sem saber. Mas notava.

Sentei-me à mesa, comi do bolo, conversei, tudo normal. Mas por dentro reinava aquele desconforto dos objectos que estão no sítio, mas moveram-se um centímetro.

A oportunidade do afastamento surgiu de repente: cursos de formação em Évora. Quatro dias. O director avisou-me à última hora. Fiquei hesitante: António sozinho com Mariana quatro dias. Mas imediatamente achei ridículo. Somos adultos. E eu precisava mesmo de espaço.

Antes de sair, falei com o António na cozinha.

– Volto sexta ao fim do dia, disse-lhe. A Mariana ajuda-te no jantar, ela sabe.

– Claro, não te preocupes.

– Não me preocupo, disse.

Olhei-o. Estava sereno, banal. Conhecia aquele rosto há vinte e três anos. Só um nada mais leve, como quem não tem grandes preocupações.

Saí quarta de manhã. No comboio reli apontamentos, bebi café em copo de papel, olhava, alheia, os campos pelo Alentejo. As aulas foram pouco interessantes, mas úteis. À noite, telefonava a casa.

– Como estão?

– Normalíssimos. Jantámos. Tudo bem.

– A Mariana está?

– Está, sim, no quarto dela.

– Pronto. Boa noite.

– Boa noite.

Nada de estranho. Fui dormir ao hotel, mas demorei a adormecer. Pensei em tudo. Nos cursos, na filha, em comprar outra chávena, que a velha rachou. Pensei na Mariana, nas duas gabardinas cinzentas no armário, no frasco de perfume.

Na quinta-feira, ao fim da tarde, ligou-me o director.

– Olívia, a manhã de amanhã é só repetição da matéria. Se quiseres, podes regressar já hoje, aproveita. Aviso os formadores.

Cheguei a casa às nove e meia. O comboio adiantou e o trânsito estava leve.

Abri a porta com a minha chave, de mansinho o António podia estar a dormir.

Não estava.

Na sala ardiam velas. Só duas, em cima da mesa de centro. Havia pratos, copos de vinho, uns petiscos nas travessas. Cheirava a comida e a Gardénia. Fechei os olhos: o perfume estava fechado à chave. A Mariana comprara um igual.

O António estava no sofá. A Mariana ao lado. Usava um vestido azul que nunca tinha visto, mas o corte era exactamente igual aos meus preferidos. O cabelo, ao estilo do meu. As mãos cruzadas no colo. Conversavam. Quando entrei, ambos olharam para mim.

A pausa foi curta, mas densa.

– Vieste cedo, disse António.

– Pois, respondi.

Deixei a mala no chão, fui tirar o casaco. Fiz tudo devagar, com passos controlados, porque só assim as mãos não tremiam.

– Olívia, isto é só um jantar, apressou-se a Mariana. Estávamos a conversar e

– Bem vejo que é só um jantar, intervim. Com velas.

Nova paragem.

– Que romântico, acrescentei, sem sarcasmo, com espanto de mim para mim.

O António levantou-se.

– Não faças disto um drama

– António cortei, baixinho , não me digas o que devo ou não devo fazer.

Ele calou. A Mariana olhava para a toalha.

Fui à cozinha. Bebi um copo de água devagar. Em cima do parapeito da janela, a planta de gerânios. Costumava regar todas as quartas. Lembrei-me: esta quarta não estive em casa. Estava intacta.

Foi a Mariana, pensei.

Voltei à sala.

– Mariana, amanhã arranjas onde ficar, não é?

Ela ergueu os olhos.

– Olívia, eu sei que isto parece

– Amanhã. Achas solução? repeti, sem elevar a voz.

– Arranjo, suspirou.

– Pronto.

Fui buscar a mala ao hall e entrei no quarto. Fechei a porta nem à chave, só encostada. Deitei-me vestida sobre a colcha, a olhar para o tecto. Do outro lado, ouvi o tinir de pratos, arrumavam coisas. Silêncio. A porta do quarto de hóspedes a fechar.

O António não entrou. Ouvia o colchão da sala ranger. Mais expressivo do que qualquer palavra.

No dia seguinte, acordei cedo. Fiz café e bebi à janela, a ver a cidade a ganhar luz devagar. Sexta-feira, rotina. Uma senhora a passear o cão, pombos no telhado em frente. Manhã igual.

Às oito o António apareceu na cozinha, parou à porta.

– Temos de conversar, disse ele.

– Sim, acenei.

– Olívia, não aconteceu nada entre mim e a Mariana.

– Pode ser.

– Pode ser, não. Não aconteceu.

– António, continuei a olhar pela janela , não percebes do que falo. Não é sobre o que aconteceu ou não. É sobre o que vi nos últimos meses.

– E viste o quê?

Virei-me.

– Vi alguém a transformar-se em mim na minha casa. O meu cabelo. O meu perfume. Os meus bolos. O casaco. Os gestos. E vi o meu marido a notar e a gostar. Porque era eu, mas sem o cansaço. Sem os hábitos de vinte e três anos.

Ele calou.

– Não estou a perguntar nada, acrescentei. Estou a dizer.

– Estás a exagerar, resmungou.

– Talvez. Vou trabalhar. Quando voltar quero o quarto de hóspedes vazio.

– Olívia

– E mais uma coisa, já vestia o casaco no hall. Ingenuidade ou cegueira é o que sou. Confiei demasiado. Em ambos.

Saí. Fechei a porta com calma.

No politécnico, dei as duas aulas, respondi a perguntas, fiz o ponto de presença. Bebi chá com a Nina no intervalo, ela falava de sangue frio e eu acenava no tempo certo, sem realmente ouvir. Não perguntou nada só olhou, do tipo de olhar que dispensa perguntas.

Às quatro, em casa, entrei no quarto de hóspedes. Estava impecável, como se nunca lá tivesse estado ninguém. Só uma escova minúscula ficou esquecida na casa de banho, de cabo branco. Peguei nela e deitei fora.

O António estava na sala, no telemóvel. Levantou a cabeça.

– Já foi embora.

– Já vi.

– E agora?

Pendurei o casaco, fui para a cozinha, comecei a mexer em tachos, sem ideia do que ia fazer.

– Olívia, estamos juntos há vinte e três anos. Não vai ser assim

– Vai, disse. Espera só. Dá-me tempo.

– Quanto?

– Não sei. Preciso de dias. Para pensar.

Dias viraram uma semana. Vivíamos na mesma casa, como dois estranhos ligados pelo mesmo tecto. Sem escândalos, com uma educação triste, cada um nas suas refeições. Dormíamos em quartos separados. O António tentava conversar, eu respondia curto. Não era pelo ressentimento só por não estar pronta a pôr em palavras tudo o que pensava. Era como se as palavras se amontoassem por dentro, e tivesse medo de dizer algo irremediável.

Não era a Mariana que me magoava mais. Era o António.

Ele podia ter ignorado, podia ter dito alguma coisa. Mas não. As reacções dele àquela cópia melhorada dilaceravam-me. O bolo, o jantar com velas talvez sem intenção consciente, mas não deixava de doer.

Na segunda semana, liguei à nossa filha.

– Mãe, parece que estás diferente.

– Diferente como?

– A voz. Está hesitou.

– Eu e o teu pai estamos a pensar separar-nos, disse pela primeira vez.

Longo silêncio.

– Por causa da Mariana?

– Não só. A Mariana mostrou aquilo que já lá estava.

– O quê?

– Não sei explicar. Sabes quando se habituam tanto, que já não se vêem? Ela chegou e foi como se eu de repente desaparecesse havia a cópia, melhor, mais leve, e ele gostou.

– Mamã

– Não digas nada. Não estou a chorar, só a explicar.

– Vais ficar sozinha?

– Por uns tempos sim. Não é o fim do mundo.

Quando disse isto, finalmente a palavra normal encaixou. Porque eu escolhi.

A conversa com o António aconteceu ao domingo.

– Acho que devíamos separar-nos, disse simplesmente.

Ele hesitou.

– É definitivo?

– Não sei. Preciso de espaço. Preciso de tempo para descobrir quem sou sem esta casa, sem ti, sem tudo o resto.

– É por causa daquele jantar?

– Não, António. Não é por causa das velas. Isso foi só o fim. Antes disso, eu vi, fui calando, convencendo-me de que era tudo normal e não era.

– Não percebo o que fiz mal.

– Não fizeste nada concreto. Só deixaste de me ver. Se visses mesmo, notavas que estava ali uma estranha a tornar-se tua mulher.

Ele não respondeu. Porque não havia resposta possível.

– Vamos vender a casa, ou compro a tua parte. Logo se vê.

– Vais para onde?

– Arrendo. Aqui ou noutro lado.

– Recomeçar aos cinquenta e dois anos, desabafou, com pena (não sabia se por mim, se por ele).

– Aos cinquenta e dois. Outros ainda começam mais tarde.

Fui até à casa de banho, abri o armário, peguei no frasco do Gardénia. Segurei-o um bocado, depois fui ao lixo e pus o frasco dentro, devagar. Não atirei só pousar, como quem deixa o que já não precisa.

Na cozinha pus a chaleira ao lume.

Nos dias seguintes fui objectiva: liguei à imobiliária, consultei advogada. Fui a casa da Nina, contei resumidamente. Ela não dramatizou, só ouvia, dizendo aquele sim compreensivo.

Na cozinha da Nina.

– Estás zangada com ela? perguntou.

– Com a Mariana? Não muito. Estou é zangada comigo, por não ver o óbvio. Por chamar normal ao que não era.

– Não é culpa tua, era confiança.

– Confiança cega. Sou assim.

– Não é cega. Só confiança. Há diferença.

– Talvez.

– E com o António?

– Com António a zanga é mais profunda. Vai passar.

– E agora?

– Arrendo casa. Mudo de corte de cabelo. Compro perfume novo. Sorri. De certeza já não Gardénia.

– Bem pensado, disse Nina.

– E vou descobrir do que gosto mesmo. O que é meu, não de hábito.

– Demora tempo.

– Tenho tempo.

Ela encheu a chávena. Lá fora um chuvisco ameno de outono, só cinzento. Eu olhava para ele e pensava que, há semanas, saberia de cor a minha vida: casa, António, emprego, receitas, o perfume na prateleira da casa de banho. E, agora, nada parecia tão garantido.

Mas também não sentia vazio. Nem perda do chão. Era uma estranheza. Como um casaco velho tirado, que já nem sentia a apertar.

– Sabes, disse eu, pela primeira vez em anos não faço ideia do que aí vem. E aguento bem.

– Aguentar. Boa palavra, sorriu a Nina.

Passou mais uma semana. Encontrei um T1, noutro bairro de Setúbal, luminoso, vista para o Parque. Caro, mas possível. Combinei visita, caminhei pelas divisões, o soalho rangendo um pouco. Dá para viver, pensei.

– Fico com ele, disse à senhoria, uma senhora velha, cansada.

– Por muito tempo?

– Não sei. Um ano, talvez.

Ela assentiu.

Na casa antiga, comecei a separar coisas. Sem pressa, nem espectáculo. Livros, louças, roupa. Alguma roupa foi para doar. Encontrei uma blusa que não vestia há três anos, mas guardava para um dia. Ficou para entregar.

O casaco cinzento, doei também. Comprei outro, azul escuro, corte diferente. Vesti, olhei ao espelho nada a ver com o da Mariana. Um alívio.

Da Mariana não soube mais. Escreveu uma mensagem: Olívia, sei que te magoei. Perdoa quando puderes. Li, arrumei o telemóvel, não respondi não por não perdoar, só porque não sabia se queria.

O António vivia no apartamento. Cumpríamos o protocolo, calmos. Tudo parecia um pouco amargo, mas também mais leve. Vê-lo sem saber como voltar atrás doía. Talvez porque nem ele notava a perda.

Na véspera da mudança fui comprar perfume. Fiquei uns bons minutos na loja, a experimentar. Não conseguia gostar de nada. Depois apareceu um: Cedro Prateado. Nada floral, antes lenhoso, quente. Nada como os anteriores. Por isso, escolhi.

– Boa opção, sorriu a empregada.

– Veremos, devolvi.

A mudança fez-se em meio dia. A Nina ajudou. O António também, e não recusei. Tudo decorreu em silêncio prático. Instalei-me. Alguns objectos ganharam novos lugares, escolhidos só por mim.

Ao cair da noite, sozinha, abri o Cedro Prateado, pus uma gota no pulso. O cheiro era estranho. Não desagradável. Só diferente. Levei o pulso ao nariz. Vou habituar-me. Ou não. Posso só aceitar.

Lá fora, as árvores já só tinham ramos, novembro levava as folhas de vez. Os candeeiros acenderam-se cedo, como no outono. Pus água no fervedor, vasculhei as caixas até achar uma caneca sem fendas , e fui até à janela.

O telemóvel vibrou. Era a filha.

– Então mãe, já te organizaste?

– Estou. A organizar-me.

– Tens medo?

Olhei pelas vidraças para as luzes, e respondi:

– Não, filha. Sabes, acho que não tenho medo.

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