Sabes, sempre que penso na minha vida com o Mário, parece que foi noutra existência. Éramos tão novos, apaixonados e completamente tontos, sem um cêntimo furado. Casámo-nos à pressa, apesar de todos os conselhos para irmos com calma. Mas quando se está apaixonado, achas mesmo que consegues vencer o mundo inteiro.
A mãe dele, a Dona Matilde, ofereceu-nos um pedaço do quintal dela lá em Vila Nova de Gaia. Construam aqui, meus filhos. Há espaço de sobra, não preciso disto tudo. Olhámos um para o outro e sentimos aquela esperança crescer no peito, sabes? Era a nossa oportunidade.
Começámos a guardar cada euro como se fossem pepitas de ouro. O Mário trabalhava nas obras de sol a sol e eu limpava casas, cosia, fazia uns biscates, tudo o que fosse. Ao fim de semana éramos os dois a levantar parede atrás de parede. Casa nossa, construída com o nosso suor.
Nunca me esqueço das mãos dele, sempre gretadas do cimento, e aquele sorriso cansadinho no fim do dia. Vai ficar linda, Rosinda, dizia-me enquanto me dava um beijinho na testa, é aqui que vamos criar os nossos filhos.
Demorámos três anos, acredita. Três anos de contas apertadas, noites em branco e muitas renúncias. Mas valeu cada esforço. O Mário fez questão de meter um telhado dos caros, janelas de alumínio, uma casa de banho com azulejos que eu própria escolhi um a um lá no mercado do Bolhão! Até construiu uma piscininha pequena no quintal. Para os miúdos se refrescarem no verão, dizia, todo orgulhoso.
A casa não era de luxo, mas era nossa. Cada parede tinha sonhos e amor metidos lá dentro.
A Dona Matilde vinha muitas vezes tomar café connosco no jardim e dizia sempre o quanto ficava feliz por nós. A filha dela, a Laurinda, quase nunca aparecia, mas quando vinha, notava-se logo aquele olhar, meio atravessado, meio invejoso.
Até que chegou aquele maldito dia.
O Mário saiu cedo, despediu-se com um abraço e um vemos-nos logo à noite, amo-te. Foram as últimas palavras dele. Disseram-me depois que foi um acidente no trabalho, uma viga… nem teve tempo de sofrer, mas eu fiquei a sofrer por nós os dois. Caí num buraco de tristeza tão fundo que por vezes esquecia-me quase de respirar.
Duas semanas depois do funeral fiquei a saber que estava grávida. Quatro meses já. Uma menina. Era o nosso sonho, mas agora só meu.
Durante um tempo, a Dona Matilde não me largava. Trazia sopa, fazia-me companhia. Cheguei a pensar que não ia ficar sozinha. Só que, passado pouco, tudo mudou.
Era domingo. Estava sentada a passar a mão pela barriga quando as ouvi chegar. Entraram sem bater. Nem me olharam nos olhos.
A Laurinda precisa desta casa, disse a Dona Matilde, com uma frieza… Expliquei que, se fosse por uns tempos, talvez arranjássemos maneira, mas ela cortou logo: Não, Rosinda, a casa tem de ser dela.
Fiquei sem chão. Não conseguia acreditar no que estava a ouvir. A terra é minha, disse ela. Sempre foi. Vocês podem ter construído, mas eu continuo a ser a única dona. E agora o Mário já cá não está.
Tentei argumentar cada cêntimo foi nosso, cada tijolo. Mas a Laurinda, que sempre olhou para nós com desdém, disse logo Legalmente, a casa está no nosso terreno. É nossa.
Mas vou ter uma filha do vosso filho! gritei.
Ainda bem, respondeu-me. Vais precisar de ajuda, não podes ficar sozinha. Vais receber um valor pelas melhorias.
Enfiou-me um envelope nas mãos, com uma miséria lá dentro. Foi uma afronta.
Recuso isto, respondi.
Então sais sem nada, atirou logo naquele tom frio.
Fiquei sozinha naquela casa que tanto nos custou. Chorei tudo: pelo Mário, por mim, pela nossa filha que ia nascer sem pai, por tudo.
Nessa noite, andei de divisão em divisão, toquei em todas as paredes. E decidi: se eu não posso ter esta casa… então ninguém vai tê-la.
No dia seguinte liguei para tudo o que era empreiteiro lá da zona. Vieram desmontar o telhado, retirar as janelas, arrancar a piscina, as canalizações, electricidade. Cada coisinha pela qual pagámos.
Tem a certeza disto, dona Rosinda? perguntaram.
Tenho, sim. É a minha parte.
A Dona Matilde apareceu em fúria.
O que estás a fazer?!
Vou levar aquilo que é meu. Queriam a terra, pois aí está.
Não havia papéis, não havia contratos, só mesmo o nosso esforço.
No último dia chegou a escavadora.
Tem mesmo a certeza?
Agora já não é casa. A casa morreu com o Mário.
Vi as paredes caírem, uma a uma. Doeu horrores, mas ao mesmo tempo senti-me livre.
Hoje moro com a minha mãe, num quartinho pequeno. Vendi o telhado, as janelas, tudo. Com esse dinheiro vou aguentando até nascer a minha menina.
Um dia vou contar-lhe tudo sobre o pai. Vou explicar-lhe como fizemos um lar com as mãos e o coração. E vou ensinar-lhe que, quando a vida nos tira tudo, o mais importante é não darmos também o nosso orgulho.
E tu, diz-me lá: achas que fiz bem em deitar a casa abaixo? Ou devia só ter-me ido embora e deixado tudo para trás?







