Construi a minha casa no terreno da minha sogra. O meu marido faleceu e ela decidiu vendê-la à filha…

Sabes, construí a minha casa no terreno da minha sogra em Sintra. E foi ali que a minha vida mudou tantas vezes que perdi a conta. Quando conheci o António, éramos dois miúdos apaixonados e sem um tostão no bolso. Casámos sem pensar muito, mesmo com toda a gente a avisar. Mas quando se acredita no amor, parece sempre que tudo há de correr bem, não é?

A mãe dele, a Dona Graça, disse-nos logo no início:
Construam aqui, têm espaço de sobra. Não preciso disto tudo.
Olhei para o António e senti a esperança a acender-se nos olhos dele. Nem acreditávamos na sorte. Começámos logo a juntar cada cêntimo. Ele andava nas obras de manhã à noite, eu limpava casas, costurava, fazia de tudo. Ao fim de semana era dia de andarmos lado a lado, tijolo a tijolo, a construir o nosso sítio.

Nunca vou esquecer as mãos dele, cheias de calos do cimento, mas sempre com aquele sorriso cansado e feliz.
Vai ficar bonita, minha Rita dizia-me, beijando-me a testa. Vamos criar aqui os nossos filhos.

Levou-nos três anos a acabar tudo. Três anos a apertar o cinto, a fazer contas a cada euro, noites sem dormir. Mas conseguimos. Pusemos um telhado daqueles bons de chapa, janelas de alumínio, uma casa de banho com azulejos que escolhi um a um. E até fizemos um pequeno tanque no quintal.
Para os miúdos se refrescarem no verão dizia ele, todo orgulhoso.

A casa nunca foi luxo, mas era nossa. Cada parede cheirava a esforço, carinho e sonhos por cumprir. A Dona Graça aparecia muitas vezes, bebia connosco um café debaixo da latada, dizia sempre como estava feliz por nós. A outra filha dela, a Leonor, mal lá ia. E, quando ia, olhava com um ar estranho, meio invejosa, meio de quem não queria estar ali.

Até que um dia chegou aquela terça-feira do diabo. O António saiu cedo para mais um dia nas obras.
Até logo, amo-te foram as últimas palavras que me disse, com aquele abraço apertado à porta.
E foi a última vez que o vi. Um acidente, dizem que foi logo, uma viga. Ele não sofreu, mas eu eu sofri tudo.

Caí num buraco tão fundo que às vezes até me esquecia de respirar. Duas semanas depois do funeral, fiquei a saber que estava grávida. Quatro meses já ia. Uma menina. A nossa esperança, mas agora só minha.

Ao início a minha sogra vinha todos os dias. Trazia sopa, tentava animar-me. Achei mesmo que não estava sozinha. Só que, passado um mês, tudo se virou. Era domingo, nunca mais me esqueço. Estava no sofá, a fazer festas na barriga, quando ouvi o carro delas. Entraram sem bater. A Dona Graça nem para mim olhou.
Temos de conversar disse.
O que se passa? perguntei, já o coração a bater na boca.

A Leonor está mal, divorciou-se. Precisa de uma casa para viver.

Lamento muito respondi, a sério. Se ela quiser ficar aqui uns tempos
Não, interrompeu logo a sogra. Ela precisa desta casa.

O mundo parou.

Como? perguntei, nem percebia.
O terreno é meu respondeu seca a Dona Graça. Sempre foi. Vocês só construíram. Mas o António já cá não está.

Mas fomos nós que fizemos tudo isto disse-lhe a chorar. Cada euro, cada tijolo foi sacrifício nosso
A Leonor encolheu os ombros:
É triste, sim. Mas legalmente a casa está no terreno da família. O terreno é nosso.

Mas estou grávida da filha dele! gritei.
Pois, por isso mesmo disse a sogra. Não vais conseguir sozinha. Vais receber alguma coisa pelas obras.
Enfiou-me um envelope na mão. Ali dentro, pouco mais que trocos. Uma humilhação.

Isto é gozar comigo disse eu, a sentir uma raiva que nem sabia que tinha. Não aceito isto.
Então sais daqui sem nada devolveu ela. Está decidido.

Fiquei sozinha na casa onde cada canto tinha um pedaço de nós. Chorei por ele, pela nossa filha, pela vida que sonhámos e nunca mais ia acontecer.
Nessa noite não preguei olho. Fui de divisão em divisão, toquei nas paredes todas. E decidi ali mesmo.

Se não podia ser minha, não ia ser de mais ninguém.

No dia seguinte liguei a uns conhecidos que trabalham nessas coisas. Tiraram o telhado, as janelas, o tanque, tudo o que eu e o António tínhamos pago.
Tem a certeza, dona Rita? perguntou um deles, com pena.
Absoluta respondi.

A minha sogra apareceu à pressa, furiosa.
O que é que estás a fazer?
Estou só a levar a parte que é minha. Querem a terra? Fiquem com ela.

Não havia contrato, nada. Só nós e o nosso suor.

O último dia chegou com o camião e a máquina.
Tem mesmo a certeza? perguntou o operador.
Isto já não é uma casa disse-lhe. A casa morreu com o António.

As paredes caíram uma a uma. Dói, não vou mentir. Mas libertou-me.
Quando tudo acabou, ficou só o monte de restos.

Agora estou em casa da minha mãe, num quartinho pequeno em Almada. Vendi o telhado, as janelas. Com isso, vou vivendo até a minha filha nascer.
Havemos de ser felizes de outra maneira. Hei de contar-lhe tudo sobre o pai, sobre como levantámos um lar com as nossas mãos. E vou ensiná-la que, quando a vida te rouba tudo, o mais importante é nunca deixares que te tirem também o respeito próprio.

E tu? Achas que fiz bem em deitar a casa abaixo, ou devia ter ido embora em silêncio e deixado-lhes tudo?

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