— «Como é possível descer tão baixo? Filha, não tens vergonha? Tens mãos e pernas, porque não trabalhas?» — diziam à pedinte com uma criança

Como é possível chegares a este ponto? Filhinha, não te envergonhas? Tens as mãos e os pés em condições, porque não trabalhas? diziam à pedinte com a criança ao colo.

Dona Amélia Pereira caminhava devagar entre as prateleiras do grande hipermercado no centro de Lisboa, olhando demoradamente para os produtos nas embalagens coloridas. Ia ali todos os dias, como se fosse um ritual. Não precisava de comprar muito não tinha uma família grande para alimentar. Por isso, aquela senhora, já na sua solidão, encontrava naquele local luminoso uma fuga à tristeza do fim de tarde.

Nos dias quentes conseguia distrair-se, sentada nos bancos do jardim a conversar com as vizinhas. No inverno, não havia escolha: era o supermercado de luzes brilhantes que lhe amenizava o isolamento.

Ali, rodeada de tanta gente, podia-se sentir o cheiro intenso do café acabado de moer, ouvir músicas suaves pelos altifalantes, ver aquelas embalagens que faziam lembrar brinquedos e pequenas festas, e, por momentos, esquecia-se do vazio.

Rodou uma embalagem de iogurte de morango entre as mãos, apertando os olhos enquanto tentava ler o rótulo. Depois colocou-o de volta. Aqueles pequenos luxos já não cabiam na sua pensão, mas, observar, ainda ninguém lhe proibira.

Enquanto analisava aquela abundância, vieram-lhe à memória os tempos antigos: as longas filas nos mercados, as funcionárias maldispostas a controlar bens escassos, os sacos de papel grosseiro, dos quais só se tirava o essencial.

Sorriu sozinha. Lembrou-se de como dava tudo para alegrar a filha, mesmo ficando horas nas filas. O nome da filha, Andreia, fez-lhe o coração sacudir forte no peito. Parou junto ao frigorífico do peixe, amparando-se sobre ele enquanto sentia o peso da saudade.

Lembrava-se do rosto luminoso da sua Andreia, com os caracóis ruivos, os olhos de cinza enormes, o nariz salpicado de sardas e as covinhas da alegria.

Era tão bonita…, pensou Dona Amélia, mordendo o lábio.

Sob o olhar desconfiado da senhora da padaria, aproximou-se do balcão do pão.

A Andreia era o orgulho dela, a sua alegria. Cresceu esperta. Mas fez escolhas difíceis. Não encontrando felicidade no trabalho, decidiu tornar-se barriga de aluguer. Dona Amélia sempre avisou que aquilo não daria boas estradas. Mas quem ouve uma mãe aos vinte anos? Se ao menos o pai estivesse vivo…

Como pôde alguém ter-se aproveitado de uma jovem ingénua?

Andreia, grávida, ria-se, acariciando a barriga. Dona Amélia tentava demovê-la. Como se dá um filho que se trouxe dentro de nós?.

Ao que Andreia respondia, secamente: Agora já só penso no dinheiro, mãe.

Depois, tudo correu mal. O parto foi difícil, e Andreia partiu pouco depois de dar à luz uma menina. Não fizeram grande esforço para a salvar, pensava Dona Amélia, amargurada. Não recebeu nada, pois o contrato era com a filha, não com ela.

A bebé foi entregue imediatamente aos pais adotivos, e Dona Amélia ficou sozinha, sem família, mergulhada num vazio do qual não queria mais sair.

Agora caminhava para o pão, disfarçando o embaraço da sua visita diária. Contou as moedas antes de chegar à caixa, sorriu timidamente e afastou-se.

Foi nesse novo hipermercado, logo após a inauguração, que reparou pela primeira vez numa jovem pedinte com uma criança ao colo. Talvez fosse a juventude, ou a forma com que segurava o bebé, que lhe chamou a atenção. Aproximou-se, pousando discretamente umas moedas no frasco pousado à frente.

Filha, não tens vergonha? És tão nova, as tuas mãos e pernas estão boas, porque não vais trabalhar?

A jovem olhou para ela, cansada:

Obrigada pelas moedas, minha senhora, mas siga o seu caminho. Preciso destas moedas, senão é o fim.

Dona Amélia suspirou, afastando-se sem mais palavras. Desde o desaparecimento da filha, ninguém se preocupava com as pedintes eram parte da paisagem. Nem polícia, nem segurança social.

A caminho de casa, não conseguia esquecer o olhar triste daquelas rapariga e o seu apelo. O tom, o olhar cinzento… onde é que já ouvira?

Em casa, fechou a porta. Tirou os sapatos, pôs água a aquecer para o chá. Sentada com o seu pãozinho centeio e uma fatia fina de chourição, deixou-se embalar nos pensamentos.

Deve ter fome, coitada. Como é que aguenta aquele frio?. Olhou pela janela. No passeio, viu ao longe dois homens a abordarem cruelmente a rapariga, empurrando-a para um carro velho.

Preparou-se para telefonar à polícia, mas parou. E se fosse pior?

Durante a noite sonhou com Andreia, à porta do supermercado, a segurar, gelada, uma menina de cobertor azul. Aproximou-se, abraçou-a, mas Andreia nem reagia.

Não tenho frio, mãe sussurrou-lhe a filha.

No sonho, Dona Amélia puxou o cobertor e viu, no pescoço da menina, um medalhão com um ursinho.

Acordou sobressaltada. Olhou o relógio já eram nove horas. Correu à janela.

A jovem pedinte estava de volta. Graças a Deus, murmurou, fazendo o sinal da cruz.

Na rua, tudo indicava mais um dia de Inverno cedo, véspera de Ano Novo. Aquela criança não podia resistir tanto frio até à noite.

Dona Amélia preparou rapidamente sandes de chourição, encheu um termo com chá doce e saiu apressada.

Ao ver a idosa aproximar-se, a jovem puxou o lenço para tapar uma nódoa negra no rosto.

Não te preocupes, querida. Trouxe-te isto. Não gosto de ver ninguém a passar fome.

A rapariga pegou nas sandes com gratidão, afastando-se para comer num banco. Tinha tanta fome que comia sofregamente, quase engasgando-se, lançando um olhar inquieto ao bebé que chorava. Num instante limpou tudo e correu de volta à senhora.

Muito obrigada. Com isto empurro o dia até à noite. Depois vêm buscar-nos

O resto do dia, Dona Amélia ia espreitando pela janela. O frio aumentava.

Antes do jantar preparou uma sopa quente e voltou ao hipermercado. Ao passar, pousou o frasco ao pé da jovem e deixou-lhe alguma moeda.

Dessa vez não quis demorar-se precisava de comprar os ingredientes para a salada russa de passagem de ano. Não tinha como fazer grandes festas, mas fome não ia passar.

Ao regressar, já não viu nem a jovem, nem a sopa. Deve estar a comer num cantinho, pensou a idosa, apressando-se para casa.

Agora ia preparar o arroz de forno e colocar umas entradas, à espera que alguma vizinha aparecesse para brindar.

Quando eram quase dez, decidiu espreitar a rua. Queria garantir que a jovem seguira para casa, que não passava frio.

Na luz dos candeeiros, viu-a sentada sob um foco, o corpo sacudido por soluços.

O coração da idosa disparou. Em chinelos e com o xale, desceu as escadas e sentou-se ao lado da rapariga, arfando.

Não tenho para onde ir murmurou a jovem, num fio de voz.

A esperança brilhou-lhe no olhar ao ouvir a voz da idosa.

Cuide dele, por favor. Entregou-lhe o bebé num embrulho surrado e afastou-se, arrastando-se para a estrada.

Dona Amélia, tomada pelo pânico, entendeu imediatamente o que a jovem planeava. Deu-lhe um safanão, fazendo-a virar-se.

Ó menina, estás maluca? Vem já comigo! E sem dar mais espaço para protestos, levou-a até ao prédio e subiu com ela.

Já em casa, aqueceu o bebé, colocou-o junto ao aquecedor e olhou atentamente para a rapariga.

Como te chamas? quis saber. Mas antes da resposta, reparou no medalhão familiar por entre as roupas do bebé.

A jovem percebeu o olhar e explicou:

Foi tudo o que ficou da minha mãe.

Dona Amélia quase teve um colapso. Aquele medalhão era inconfundível: tinha mandado fazê-lo quando Andreia completou 16 anos, vendendo um broche antigo para pagar o presente e a corrente de ouro.

A jovem tirou o casaco.

Posso tomar um duche?

Dona Amélia assentiu, trémula, servindo-se de umas gotas de valeriana.

É impossível. É mesmo a minha neta.

Depois de alimentar o bebé, convidou a jovem para a mesa.

Matilde. Lançou o nome como quem nunca o esqueceu.

Como sabe o meu nome?

A idosa disfarçou:

Talvez ouvi alguém chamar-te. Anda, come.

Os olhos dela eram demasiado familiares. Era a neta, não havia como negar o nome tinha sido escolhido pelos pais adotivos para a criança que Andreia nunca pôde criar.

Matilde sorriu, envergonhada com a comida, e esqueceu-se por momentos da miséria.

Conta-me, Matilde. O que te aconteceu?

A jovem, como se esperasse finalmente um ombro amigo, começou a falar de sopetão, libertando mágoas.

Vivia com os pais até aos cinco anos, tinha até um pónei seu. Mas depois os pais separaram-se, e ficou com a mãe, que um dia a deixou num lar de crianças sem explicações.

Nunca percebeu porquê: passou do conto de fadas para o esquecimento mais cruel. Doze anos no lar, e depois a empurraram para um sótão arrendado pela Câmara.

Lá conheceu o Rui, canalizador. Quando soube da gravidez, ele sumiu-se. Depois, um despejo: outra família ocupara o seu novo lar, ficou sem teto.

Sem saber onde ir com um bebé, rumou às estações e ao metro, pedindo esmola. Foi aí que lhe surgiram protetores homens que exploravam mendigos.

Com um bebé, dás lucro, disseram, e deram-lhe guarida num porão, a troco de entregar tudo o que conseguisse.

De manhã distribuíam pedintes pelos bairros, à noite recolhiam o dinheiro. Uns aldrabavam feridas e até barrigas; quem não fosse boa atriz, sofria.

Até que naquele dia ninguém veio buscá-la, deixaram-na ao frio à porta do hipermercado.

Matilde olhou para o prato quase vazio.

Obrigada. Nem sei como teria aguentado esta noite…

Deixou o garfo, bocejou.

Amanhã vamos embora. Só preciso dormir um bocadinho.

Dona Amélia preparou um canto no sofá, deitou a bebé no poltrona ao lado.

A idosa ficou diante da televisão, a sorrir para o discurso do Presidente da República. Nunca mais as deixaria sair: eram sua neta e bisneto, da carne dela, sangue do seu sangue.

Ia cuidar deles, ajudá-los a reerguer a vida, dar-lhes casa e conforto. Contaria a verdade no momento certo.

Quando soaram as doze badaladas, Dona Amélia ergueu um cálice de licor, brindou sozinha e viu, pela janela, as luzes da cidade e os flocos de neve suaves a cair sobre Lisboa.

Obrigado, meu Deus, por esta família devolvida. Adeus, solidão. Já não estou só. Tenho a minha família de volta.No silêncio acolhedor da sala, Matilde adormeceu profundamente, a respiração ritmada misturada com os pequenos barulhos do bebé embrulhado no cobertor azul. Dona Amélia cobriu-as melhor, deitou o olhar carinhoso sobre as duas e, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se inteira.

Na manhã seguinte, um raio de sol tímido atravessava a janela e desenhava manchas douradas no rosto de Matilde. Quando abriu os olhos, por um instante, esqueceu-se de tudo: não era uma sem-abrigo, nem uma mãe perdida. Era apenas uma neta, numa casa quente, com cheiro de café e promessas.

Dona Amélia aproximou-se, trazendo uma chávena fumegante.

Hoje não precisas de partir para a rua disse baixinho, com um sorriso sereno. Ficas aqui, minha querida. Vamos recomeçar.

Matilde chorou baixinho, presa entre gratidão e alívio. Nunca imaginou que entre moedas e dias duros, Deus lhe reservava um reencontro assim.

Dona Amélia enxugou-lhe as lágrimas com mãos trémulas mas firmes.

Tens o meu nome, o meu teto, e agora o teu futuro. Já não há solidão aqui susurrou.

Lá fora, as ruas enchiam-se de gente e esperança, anunciando o novo ano. Mas naquela casa singela, três gerações, separadas pelo tempo e pela dor, começavam a costurar uma família de novo ponto a ponto, gesto a gesto, cura a cura.

E assim, no quentinho daquela manhã, Dona Amélia, Matilde e o pequeno bebé descobriram: ainda havia lugar para milagres em Lisboa.

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