Como deixei a minha sogra em apuros perante todo o bairro – aposto que até hoje ela se lembra deste …

Como deixei a minha sogra envergonhada. Ainda hoje, ela deve lembrar-se desse momento.

Esta história remonta ao início do meu casamento, quando eu e o meu marido, António, ainda éramos recém-casados. Logo reparei num comportamento estranho que não vinha do António que continua a ser o meu exemplo de homem, mas sim da sua mãe, a minha sogra, Dona Matilde.

Tudo começou no nosso casamento, que se realizou em Lisboa: ela estava de cara fechada, tensa, como se estivesse a assistir a um velório e não à festa dos seus filhos. Depois das celebrações, as coisas pioraram, e como éramos jovens, ainda não tínhamos dinheiro suficiente para alugar o nosso próprio apartamento, tivemos de ir viver com ela, em Campo de Ourique.

Assim que cruzámos a porta, Dona Matilde mostrou uma cordialidade tão delicada, que acreditámos de verdade que estava feliz com a nossa nova vida, e que o seu mau humor durante o casamento era resultado de problemas de saúde. Mas por trás desse sorriso triste dela, escondia-se uma postura passivo-agressiva, embebida em ironia. Por vezes, fazia comentários só para me provocar, sempre às escondidas.

Por exemplo, às vezes levantava-se a meio da noite para lavar a loiça que eu já tinha lavado. Um dia, vi-a na cozinha e perguntei-lhe o que estava a fazer. Ela olhou-me com inocência e respondeu:
Estou a lavar a loiça suja.
Naquele instante, pensei: Então a minha loiça está suja? E desde aí, comecei a duvidar da sua bondade.

Durante algum tempo, tomei os seus reparos como conselhos maternais e cheguei a confiar-lhe questões íntimas, como as pequenas discussões que tinha com António. Nem imaginava o erro que cometia.

Acontece que uma grande amiga minha, Teresa, trabalhava como condutora para a empresa onde Dona Matilde era gerente. Através das colegas da sogra, a Teresa começou a ouvir rumores sobre a minha vida conjugal: que eu era interesseira, que António era ingénuo e que eu só queria ficar com a casa da sogra. As histórias corriam entre os funcionários e deixavam-me furiosa.

Foi então que percebi que a minha sogra era, afinal, minha inimiga secreta.

Dona Matilde tinha uma obsessão quase doentia por limpeza o seu apartamento parecia um bloco operatório. Queria que eu e António mantivéssemos a mesma disciplina. Por mais que nos esforçássemos, nunca conseguíamos agradá-la.

Um dia, disse-nos que ia estar fora em viagem de negócios para o Porto durante duas semanas, mas insistiu que mantivéssemos o apartamento impecável. O menor pedaço de lixo no tapete ou fios de cabelo na casa de banho eram motivo para ela ter um ataque de nervos, e a ideia de loiça suja era suficiente para fazê-la entrar em pânico. Quando ela estava em casa, vivíamos num ritual constante de arrumação.

Para essas duas semanas de ausência, planeei relaxar, limpo tudo apenas na véspera do seu regresso, como qualquer pessoa normal faria. Só que Dona Matilde, conhecendo-nos, disse-nos uma data de regresso falsa e preparou uma surpresa: ia voltar mais cedo, trazendo consigo um grupo de amigas para me apanhar desprevenida e mostrar-lhes o desmazelo da nora.

Por sorte, a Teresa descobriu o plano e avisou-me. Fiquei tão furiosa que decidi vingar-me: passei o dia anterior a limpar a casa com pormenor a casa brilhava.

Na tarde do seu regresso, Dona Matilde apareceu com as amigas e o motorista, todas a rir entre si, confiantes que iam assistir à humilhação da nora. Entraram sorrateiras, quase em procissão.

Mal abriram a porta, ficaram surpreendidas. O apartamento estava limpo, mais limpo do que nunca, com o chão a brilhar e tudo no seu lugar. As amigas dela começaram a olhar, a murmurar, e eu, ofegante (de tanto esfregar), guardei tranquilamente o aspirador e declarei, com um sorriso:
Dona Matilde, de onde veio um tapete tão impecável?

A sogra empalideceu. Olhou para cada canto da casa, franzindo o rosto, mas eu mantinha as mãos apertadas, repetindo para mim mesma: Não vais encontrar nada, não vais encontrar!

Matilde tornou-se alvo de conversas no trabalho. As suas histórias deixaram de ser ouvidas; os colegas passaram a apoiar-me. Feriu profundamente o seu orgulho e, depois de dezassete anos, aposto que ainda se recorda desse dia.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Como deixei a minha sogra em apuros perante todo o bairro – aposto que até hoje ela se lembra deste …