Como a Tânia se tornou mãe graças ao seu grande coração…

Sabes, amiga, tenho de te contar como a Matilde acabou por se tornar mãe, tudo graças ao seu coração enorme

Um dia, a Matilde chegou a casa, naquele prédio antigo em Coimbra, e nem queria acreditar no que viu encostado à porta do apartamento: uma caixa de cartão. Ela ficou ali, a olhar, meio desconfiada, até que percebeu que dentro da caixa estavam dois bichos todos encolhidos, um cãozinho e um gato, ambos assustadíssimos, a tremer e a olhar para ela com uns olhos de partir o coração.

Mas o que é isto? Quem são vocês? perguntou, como se eles fossem responder.

De repente, a porta da vizinha abriu-se e apareceu a Dona Olívia, aquela senhora simpática mas sempre a par da vizinhança.

Olá, Matilde, boa noite! Nem imaginas A dona Alice do segundo esquerdo faleceu, e parece que a sobrinha não arranjou maneira de ficar com os animais dela.

A sobrinha ainda pediu a toda a gente, mas ninguém quis. Eu já tenho o meu próprio gato, ele não aguenta outro, e há quem tenha alergias Olha, tu e o Pedro não querem ficar com eles? São jovens, estão bem estabilizados, não têm filhos

Nós nunca pensámos ter animais, ainda por cima dois de uma vez respondeu Matilde, completamente apanhada de surpresa.

O pior é separá-los, dizem que são inseparáveis. Sempre dormiram juntos. A dona Alice levava o cão à rua e o gato era independente, lá se desenrascava. Dão pouco trabalho, acredita.

Pensa bem, filha pedia a Dona Olívia, num tom tão sentido que custava recusar.

E se não ficarmos com eles? perguntou Matilde. O que lhes acontece?

Falaram que iam levá-los ao canil, talvez até fazer-lhes uma eutanásia A caixa já está pronta para irem. O apartamento já está quase vendido, os próximos donos não querem animais explicou a senhora, baixando a voz.

Nisto, entrou o Tiago, um vizinho do prédio, e ao ver a situação, concordou logo com a Dona Olívia:

Se calhar faziam-vos boa companhia, são mansinhos, comem pouco e já são velhotes. Ninguém os quer E é uma pena. A dona Alice adorava-os.

Matilde olhou para os olhos tristes dos animais, nem conseguia imaginar a ideia de os levarem dali para serem abatidos.

Está bem, pronto. Não consigo permitir uma coisa dessas Como se chamam? Nós vivemos aqui só há dois anos e conhecemos pouca gente

Tiago sorriu, pegou na caixa e colocou-a no hall da Matilde.

O cão chama-se Zézinho, o gato é o Tobias. Obrigado, mesmo. Olha, deixo aqui um dinheiro e pôs uma nota de vinte euros e uma trela em cima do armário do hall , é para as primeiras necessidades deles. Obrigado, a sério

Matilde fechou a porta, tirou o casaco, sentou-se ao lado da caixa e falou baixinho com os novos inquilinos.

E agora, meninos? O Pedro vai ficar sem palavras. Vai ser um choque, mas ele é bondoso, de certeza que percebe Ninguém vos vai fazer mal aqui. Até custa acreditar que estavam prontos para vos sacrificar

O Tobias, como se percebesse tudo, saiu da caixa devagarinho, começou logo a explorar a casa. O Zézinho ficou sentado mais um bocado, só a ver como as coisas avançavam, antes de tomar coragem.

Matilde foi à cozinha, abriu o frigorífico e claro, não tinha ração. Fez uma panelinha com arroz e carne cortada aos bocadinhos. Pensou: Bem, isto serve para os dois!

Ao ver o gato curioso junto à tigela, chamou também o cão, que lá acabou por se aproximar, atraído pelo cheirinho. Primeiro estava desconfiado, mas quando viu o Tobias a comer com vontade, não resistiu foi logo atrás.

Quando o Pedro chegou do trabalho, nem queria acreditar quando abriu a porta e viu os dois bichos na sala. No início, os dois pensaram logo procurar se alguém com uma casa maior, idealmente com quintal, poderia ficar com os animais. Mas entretanto, a vida deles mudou.

A Matilde e o Pedro eram casados há quatro anos. Tinham comprado aquele apartamento há dois e viviam felizes, só lhes faltava um filho para completar a felicidade deles.

Tu és tão organizada, sempre disseste que não querias animais em casa estranhou o Pedro.

Eu pensei que íamos ter um bebé, sabes? E agora apareceram eles, prontos para irem para o canil ou pior Não consigo nem ouvir falar dessas coisas a Matilde encheu-se de lágrimas nos olhos.

Eu também adoro animais, podes crer! Olha, amanhã pergunto no trabalho se alguém os quer, mas entretanto ficam connosco respondeu o Pedro, a abraçá-la.

A verdade é que o Tobias e o Zézinho adaptaram-se num instante. Não era à toa a antiga casa deles era logo por cima, a disposição era quase a mesma, o prédio igual.

Vocês portam-se tão bem, até parece que sempre cá estiveram dizia-lhes, toda derretida.

Matilde começou a passear o Zézinho três vezes por dia, e o Tobias, muito esperto, ia para a rua pela janela da cozinha e voltava sempre à mesma hora. Era cómodo!

A Dona Olívia ficou tão feliz por saber que ficaram bem entregues. Levava ossinhos das sopas para o Zézinho e restinhos para o Tobias, sempre com um mimo.

À noite, a Matilde e o Pedro divertiam-se a ver o Tobias brincar com bolas de papel e o Zézinho a dormir descansado na caminha nova. Sempre juntos, é claro, não fazia sentido separá-los.

Os meses passaram e eles já não queriam sequer pensar em procurar novos donos para eles. Já não se imaginavam sem aqueles patudos.

Até a mãe da Matilde, a Dona Amélia, que morava perto, acabou por se encantar pelos bichos, embora tenha achado estranho ao início.

Eu até levava o gato, mas moro num terceiro andar sem elevador e ele gosta tanto de sair dizia-lhe.

Mas a Matilde foi perentória:

Nem pensar, mãe! Quando formos de férias és tu que ficas a tomar conta deles. Ainda regas as plantas e vigias tudo!

Chegou o verão e eles foram até à Nazaré passar uma semana de férias. Todos os dias a Matilde ligava à mãe, a perguntar pelos animais.

Está tudo ótimo, filha! Comem bem, dormem juntos, faço-lhes festinhas todos os dias. Aproveita as férias! dizia a mãe, cheia de carinho.

Quando voltaram, a alegria do Zézinho e do Tobias foi de partir o coração: o cão corria, abanava a cauda, quase chorava de felicidade. O gato, cheio de dignidade, foi roçar-se nas pernas do Pedro, a ronronar ruidosamente.

Viste, Matilde? Eles adoram-nos mesmo! disse o Pedro, enquanto a Matilde fazia logo festinhas no Zézinho e ia buscar a ração.

Agora, ela até se levantava mais cedo para os passear e alimentar, tudo certinho.

Uns meses depois, cheia de alegria e nervosismo, a Matilde contou ao Pedro que finalmente estava grávida. Foi como um milagre e toda a família ficou em festa.

Não foi por acaso que o Zézinho e o Tobias vieram para ti, minha filha dizia a mãe. Acho que foi um teste do destino à tua bondade, e agora tens a recompensa! Prepara-te para a maternidade!

Concordo, mãe, embora não acredite muito nessas coisas respondia a Matilde, a rir-se. Mas verdade seja dita, já tive um bom treino com estes dois pestinhas. Tratar, cuidar, limpar São quase como crianças!

Se quiseres, posso ficar com eles quando o bebé nascer, para ser mais fácil para ti, ofereceu-se a mãe.

Nem penses! Vamos dar conta do recado. E tu vens antes fazer-nos companhia, a passear o carrinho no jardim enquanto o bebé dorme!

Deram um abraço apertado.

A gravidez correu lindamente e o bebé nasceu a tempo e horas, um rapaz cheio de saúde. O Pedro parecia viver nas nuvens, tal era a felicidade deles.

O Zézinho, já mais velho e super tranquilo, nunca ladrou ou fez barulho. O Tobias também nunca deu problemas e, nos dias quentes, ficava no jardim da frente ou subia ao muro a apanhar sol. Viviam todos em perfeita harmonia.

Ali na rua, já toda a gente conhecia a história da Matilde, passada de boca em boca Aquela menina tornou-se mãe depois de salvar o cão e o gato da dona Alice dizia a Dona Olívia na mercearia.

Ela própria punha isso quase como uma lição de vida, uma resposta do universo para quem tem coração.

E tu, o que achas dessas coisas, minha amiga? Achas mesmo que existe essa justiça do céu? Conta-me tudo, adoro saber se também acreditas nestas coincidências que nos enchem o coração!

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