Como a Andreia se tornou mãe graças ao seu coração bondoso…
Andreia entra no prédio e depara-se com uma caixa deixada mesmo à porta do seu apartamento, em Lisboa. A jovem olha para ela, surpreendida. Lá dentro, enroscados um ao outro, estavam um cãozinho e um gato. Olhavam para Andreia assustados e tremiam de ansiedade.
Quem são vocês? pergunta Andreia, como se os animais pudessem responder-lhe.
Nesse momento, abre-se a porta ao lado e a vizinha, Dona Rosa, espreita curiosa.
Ah, Andreia, boa tarde. Pode-se ver! A Dona Amália do segundo andar infelizmente partiu, e pelos vistos a sobrinha nunca chegou a encontrar um lar para os bichos dela.
Já propôs a toda a gente ninguém quis. Eu já tenho um gato, não aceita companhia e há quem tenha alergias Se calhar tu e o Rui podiam ficar com eles? Não têm filhos, são jovens, e felizmente não vos falta nada.
Nós nunca pensámos ter animais, quanto mais dois de uma vez… responde Andreia, hesitante.
Separá-los não é bom. Estão muito ligados um ao outro, ia custar-lhes. Até dormiam juntos A senhora Amália levava o cão à rua, o gato saía pelo quintal sozinho, não dão muito trabalho.
Se calhar, pensas nisso? pede Dona Rosa, de voz enternecida.
E se não ficarmos com eles? questiona Andreia O que lhes vai acontecer?
Ouvi dizer que iam ser levados ao veterinário para serem adormecidos. Já prepararam a caixa O apartamento foi vendido e os novos inquilinos não querem saber deles diz Dona Rosa.
Nesse instante, entra um vizinho e olha para Andreia. Ele também aponta para a caixa:
Não querem levá-los para vossa casa? São sossegados, comem pouco. Já são velhotes Não vão aguentar muito. Não têm ninguém… A senhora gostava deles.
Está bem, pronto. Só de pensar em serem adormecidos fico mal Como se chamam? Ainda nos conhecemos há pouco tempo aqui suspira Andreia. O homem sorri e coloca a caixa no hall de Andreia.
O cão chama-se Faísca, e o gato é o Simão. Muito obrigado ele pousa uma nota de vinte euros e a trela no móvel da entrada, para começarem. Obrigado mais uma vez
Andreia fecha a porta, pendura o casaco e agacha-se para falar com os novos inquilinos.
Então, malta? O Rui vai ficar espantado. É capaz de me mandar dar uma volta Mas ele é boa pessoa, no fundo vai aceitar esta surpresa… diz Andreia.
Não tenham medo, não deixo que ninguém vos faça mal. Imaginem, pô-los a dormir para sempre! Que horror…
O gato parece perceber e sai cauteloso da caixa, começando a explorar a casa. O cão ainda hesita, imóvel, só observando Andreia e o seu fiel amigo a percorrerem o novo território.
Andreia vai até à cozinha e espreita o frigorífico. Não tem nada para animais, claro. Mas põe água ao lume, faz arroz, junta uns pedaços de carne e decide que ambos vão comer aquilo.
Para sua alegria, o gato, depois de inspeccionar tudo, entra na cozinha e mostra interesse pela tigela de arroz. Andreia chama então o Faísca.
Ele demora a reagir, mas quando vê o Simão a comer com gosto, aproxima-se e olha com uns olhos tão tristes para Andreia, que ela não resiste e faz-lhe uma festa.
Rui chega do trabalho. Fica mesmo surpreendido, mas decidem tentar encontrar alguém com uma casa maior ou até um quintal, que pudesse acolher os animais.
Andreia e Rui estavam casados há quatro anos e tinham comprado aquele T2 há dois. Eram felizes juntos, só a ausência de filhos lhes pesava.
E tu que gostavas tanto de ter tudo arrumado, sempre disseste que não querias animais espanta-se Rui.
Eu pensei que teríamos um bebé, sabes? Mas eles iam ser postos a dormir, não consigo aceitar isso Desculpa-me diz Andreia já com lágrimas nos olhos.
Eu gosto de animais, sabes bem. Agora já cá estão, temos de cuidar deles. Amanhã vou falar com os colegas, pode ser que alguém queira adotar consola Rui, abraçando-a.
A partir desse dia, a rotina muda. O gato e o cão ajustam-se depressa. Por acaso, o apartamento de Dona Amália era exatamente em cima do deles, com a mesma disposição, o mesmo quintal.
Portam-se tão bem, parecem sempre ter sido da casa diz Andreia, derretida.
Ela passeia o Faísca três vezes ao dia e o Simão continua a sair pelas traseiras e volta sempre, para felicidade da dona.
Dona Rosa fica satisfeita pelo desfecho e ajuda como pode: traz ossinhos do cozido para o Faísca e os restos do arroz para o Simão.
Ao serão, Rui e Andreia riem ao verem o Simão a brincar com bolas de lã, enquanto Faísca dorme feliz na sua nova caminha.
Os dois dormem sempre juntos. Perceberam que não deviam separá-los, pois eram mesmo como irmãos.
Uns meses depois, já ninguém pensa em procurar outra casa para os animais Andreia e Rui estão demasiado apegados.
A mãe de Andreia vai sempre lá nos fins de semana. Também ficou fã dos animais, embora ao início estivesse de pé atrás.
O gato ficava bem comigo, mas no meu terceiro andar ele não ia gostar, habituado a passear no quintal… comenta.
Mas Andreia recusa logo:
Não, mãe, tu cuidas deles se nós um dia formos de férias. Rega-me as flores, faz companhia aos bichos.
Chega o verão e vão até ao Algarve. Andreia liga quase todos os dias à mãe, preocupada com os seus bichinhos.
Tranquila, querida, eles estão ótimos, comem bem, dormem juntos, saímos todos os dias ao jardim do prédio. Aproveitem as férias! garante-lhe a mãe.
Quando regressam, Andreia emociona-se ao ver a festa genuína com que Faísca e Simão os recebem. Faísca salta, abana a cauda, late baixinho.
Já o gato, depois da agitação do Faísca, vai-se aninhar junto a Rui, ronronando e roçando-se-lhe nas pernas.
Temos mesmo sorte, os nossos patudos adoram-nos ri-se Rui. Andreia faz festas no Faísca e corre a preparar a comida de todos.
Agora até se levanta mais cedo para passear o Faísca e alimentar os seus amigos de barriga cheia antes do trabalho.
Uns meses passam e Andreia, emocionada, conta a Rui que finalmente está grávida. Uma alegria tão ansiada.
A mãe diz logo:
Sabes, filha, não foi por acaso que te apareceram o Faísca e o Simão. Era quase um teste do Céu, para veres se tinhas mesmo um grande coração. E agora foste recompensada. Prepara-te para ser mãe!
Se calhar tens razão, mãe. Não costumo acreditar em sinais, mas cuidar dos bichos foi o melhor treino para a maternidade.
Se quiseres, levo-os para tua casa quando nascer o bebé, só para te facilitar sugere ainda a mãe.
Não, mãe, nada disso. Vamos dar conta do recado. Preciso é que venhas passear cá com o neto quando ele nascer, enquanto o bebé dorme. Ou ficares com ele em casa se for preciso.
Aproximam-se e abraçam-se com ternura.
A gravidez corre bem e, na altura certa, nasce o filho tão desejado. Rui não cabe em si de felicidade, tal como Andreia e toda a família.
Faísca, já idoso e de feitio sereno, nunca ladra. Simão também só traz alegrias, nos dias quentes fica no jardim, dorme debaixo do limoeiro ou trepa para cima do velho muro.
Assim, todos vivem em harmonia: uma família finalmente completa.
As vizinhas, lideradas por Dona Rosa, contam agora em toda a rua a história de Andreia e de como ela se tornou mãe graças à sua bondade.
Ela repete sempre: “Vês, quando espalhas bondade pelo mundo, a vida responde-te sempre da melhor forma”.
E tu, achas que Dona Rosa tem razão? Partilha a tua opinião nos comentários e deixa um gosto!







