Cometi o erro financeiro mais romântico da minha vida: construí o meu paraíso em terreno alheio. Qu…

Cometi o erro financeiro mais romântico da minha vida: construí o meu paraíso em terreno alheio.

Quando casei, a minha sogra sorriu com aquele ar de quem sabe tudo e atirou:
Minha querida, para quê pagar renda? Lá por cima ainda há espaço. Construam o vosso cantinho e vivem descansados!

Na altura, pareceu-me uma bênção.
Acreditei nela.
Acreditei também no amor (oh, juventude).

Juntei-me ao meu marido e começámos a investir cada euro que conseguíamos guardar naquele futuro lar.
Não comprámos carro.
Nem cheirámos uma praia que não fosse ao domingo e com sandes de casa.
Bónus de Natal, raspa, cofre, tudo ia para tijolos, pedreiros, caixilharia, azulejos.

Cinco anos a construir.
Devagarinho.
Sempre à espera do Está quase!.

Aquele espaço vazio transformou-se numa casa de verdade.
Cozinha à medida dos meus sonhos.
Janelas de assomar para ver o céu que é igual ao de metade da vizinhança.
Paredes com aquelas cores que eu achava perfeitas para o nosso lar.

E eu, toda orgulhosa, fazia questão de anunciar:
Esta é a nossa casa!

Pois, mas a vida essa não pede licença.

O casamento começou a rachar que nem reboco mal amassado.
Discussões.
Gritos.
Diferenças que nem o Espírito Santo aturava.

E no dia em que decidimos separar-nos, tive a licenciatura mais cara da minha existência.

Enquanto fazia a mala em lágrimas, olhei para as paredes que eu própria lixei e pintei (sem querer pintar o chão, atenção) e atirei:
Pelo menos devolvam-me parte do que investimos. Ou paguem-me a minha parte.

A sogra pois claro, a mesma senhora dos conselhos ficou à porta com os braços cruzados e o olhar mais frio que peixe de Matosinhos:
Aqui não tens nada. A casa é minha. Os papéis são meus. Se vais embora, vais só com o que trazes vestido. O resto fica.

É nessa altura que a ficha cai.

O amor não assina escritura.
A confiança não tem artigo registado.
E o trabalho posto sem um papel passado é só prejuízo sentimental e financeiro.

Sai para a rua com duas malas e cinco anos de vida transformados em betão que já não era meu.

Fiquei sem dinheiro.
Sem casa.
Mas ganhei clareza.

O dinheiro mais perdido não é o que gastamos em pastel de nata e francesinha.
O mais perdido é aquele que investimos em algo que nunca foi do nosso nome.

Tijolo não sente.
Palavra voa.
Mas escritura fica.

Por isso, se posso dar um conselho de amiga a cada mulher deste país: por mais amor que sintas, nunca construas o teu futuro num terreno que não é teu.
Porque às vezes o aluguer poupado custa-te a vida toda.

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