A vida seguia seu compasso habitual: criar um filho, levantar paredes, estar ao lado do marido amado.Lurdes, com o coração apertado, escolhera Manuel dentre todos os rapazes, só ele lhe havia tocado a alma. Quando o soldado regressou da missão, uniramse em matrimônio. Pouco depois, no seio da casa, nasceu o menino Tiago. Ao crescer, Lurdes começou a sonhar com uma filha.
Meu amor, vamos terminar a obra da casa e então receberemos uma menina. Teremos um lar de verdade, um refúgio de família, dizia ela, com a voz a tremer de esperança.
Manuel apenas sorria, assentindo. Sentiase pronto para ser pai outra vez a qualquer instante. Levava Tiago nos ombros e desfilava pela aldeia, cumprimentando cada vizinho como quem desfilava num troféu de honra.
Mas o inverno chegou impiedoso. A neve cobriu as estradas, o vento uivou como lamento. Lurdes espiava pela janela, aguardando o retorno do marido, mas Manuel jamais apareceu. Um acidente fatal no canteiro de obras levouo embora naquele mesmo dia.
O tempo cura, murmuravam os vizinhos, não estás só. Chora se precisa, depois os anos passarão e quem sabe encontrarás alguém novamente.
Lurdes ouvia em silêncio; as lágrimas secaram, o que lhe doía ainda mais. O ano foi passando. Crise e desemprego apertaram até as famílias mais firmes; os salários desapareciam por meses. Só quem possuía terras e não temia o trabalho duro conseguia sobreviver.
Lurdes sentiu o peso daquele tempo esmagarse sobre os ombros. Tiago foi à escola; precisava de roupas, sapatos, alimento. Para isso, a horta tinha de ser plantada de corpo e alma, a fim de vender no mercado na colheita.
Trabalhava nos campos até altas horas. As mãos ficaram ásperas, o sorriso desapareceu, a alma parecia endurecer.
Pega o balde, seu preguiçoso!, vociferava Lurdes ao filho quando ele tentava fugir para brincar com os amigos. Fizeste os deveres?
Rui, calado, carregava o balde, mas na cabeça lembrava dos dias felizes ao lado do pai, quando a mãe era leve e cheia de riso.
À noite, Lurdes chorava, culpandose por ser dura com o filho. De manhã, tornavase ainda mais severa, o rosto grave como pedra.
Num sábado, apareceram as amigas Fátima e Rita. Antes, Lurdes quase não as tinha; Manuel preenchia toda a sua necessidade de companhia. Agora, as duas divorciadas chegavam como sombras de riso, trazendo chá que na verdade servia a outro propósito.
O dia começou como de costume. Lurdes levantouse sem se olhar no espelho, sabendo que o rosto apareceria amassado. Alimentou o porquinho, espalhou o milho às galinhas, colocou a louça suja na pia e ordenou a Rui que se lavasse e corresse para a escola.
Ao final da tarde, Lurdes não esperava visitas, mas sabia que um dos convidados habituais poderia aparecer. Ela encarava esses compromissos com indiferença: se o convidado vindo, bemvindos; se não, a porta fecharia de novo. Os homens, ao verem o filho, trocavam poucas palavras e partiam, como quem diz mulher com carga.
Olha, Lurdes, assim vais acabar com todos os rapazes, gargalhava Fátima. É difícil agradarte. Será que o teu colchão está na culpa? Compra um sofá novo?
Vou correr lá comprar um sofá, suspirou Lurdes. Mas com que dinheiro? Se eu perder, fica teu.
Não te zangues. Melhor ainda, põe a mesa e recebe o convidado, respondeu Fátima, ainda provocando.
Fátima irritavaa, mas Lurdes ainda assim dispunha picles salgados na mesa. Ao encarar uma foto de casamento, suspirou:
Desculpa, Manuel. Sem ti é duro.
Todos são iguais, respondeu Fátima, como se lesse a mente da amiga. Vamos, Lurdes, levantate! Somos as melhores!
Na manhã seguinte, Lurdes limpou os restos da ceia e saiu para o trabalho.
Então apareceu Nita, irmã da falecida esposa de Manuel.
Lurdes, és diferente sem o teu Manuel. E essas amigas só atrapalham.
Nita, achas que me vais ler moral? Pensam que sou uma fracassada? Tenho casa, tenho quinta, o filho estuda, corrijo as lições, Lurdes explodiu, lembrandose de que há mais de uma semana não havia verificado o caderno de Rui nem o diário. Há pouco, encontrou a professora que a convidara a conversar.
Sem saber o que dizer, começou a empilhar a louça suja no tinaco.
Antes eras outra, continuava Nita. Bonita, trabalhadora, bondosa larga estas festas tolas.
Não estou a festejar, rebateu Lurdes. Só converso com amigas para esquecer um pouco. Tenho direito a descansar, não?
Claro que tens, concordou Nita, suspirando.
Então deixa de me dar moral. Não te metas nos meus assuntos. A porta está aberta, disse Lurdes, virandose para a mesa da cozinha.
Nita ajustou o lenço no pescoço e saiu silenciosa.
Lurdes suspirou, o rosto contorcido pela dor. Sentiu uma carga puxara. Correu até a varanda, onde Nita já se afastava.
Nita, espera, dáme umas cenouras, tenho muita sobra este ano.
Não, minha filha, abanou Nita, descendo a escada.
Mas eu insisto, de verdade.
Nita, experiente, reconheceu naquele gesto a súplica silenciosa de Lurdes. Sem palavras, aceitou o pequeno saco de cenouras.
Levoas, respondeu Nita, agradecendo.
Ao cair da noite de sextafeira, Lurdes recolheu cebolas e cenouras para levar ao mercado.
Se ao menos ganhar um tostão, porque o meu dinheiro parecese com os meus ouvidos, nunca os vejo, pensou, juntando os pacotes.
Onde vais com tantas sacolas? indagou a curiosa vizinha Zévia, espreitando a bolsa.
Ao mercado, levo legumes, respondeu Lurdes.
Arrastouse até à paragem de autocarros, onde já esperavam o avô Mário e a avó Glória, que também iam à cidade. Mas o autocarro não chegava.
Que desgraça! Deve ter avariado de novo, resmungou a avó.
O avô, irritado, xingava o serviço de transportes. Quando perceberam que o autocarro não viria, decidiram voltar a pé, tentando encontrar outro meio.
Lurdes não queria arrastar as sacas de volta para casa; decidiu apanhar uma carona.
Primeiro passou um Opel Astra, depois um Volkswagen Golf, mas todos estavam cheios. Por fim, avistou um Fiat Uno. Lurdes fitou o carro, esperando ver um lugar livre, quando o condutor já havia parado.
Era um homem um pouco mais velho, desconhecido, com chapéu de palha, evidentemente vindo da zona industrial. Olhou para as sacas de Lurdes e, com um sorriso cansado, disse:
O autocarro quebrou. Estou a caminho da cidade, posso levarte.
Se for assim, levame, por favor, suspirou Lurdes.
Combinado, respondeu ele, descendo do carro. Mesmo sendo magro e baixo, levantou a sacola pesada como se fosse leve.
Será que me podes levar até ao próprio mercado? perguntou Lurdes.
Posso sim.
Eu pago.
No caminho, Lurdes tirou um espelho pequeno e passou batom. Do assento de trás, observava o condutor.
Chamome Lurdes, quebrou o silêncio.
Eu sou José António.
Mas José, já parece nome de pai? É chefe ou?
Sou diretor de fábricas e dono de alguns barcos, brincou, apontando o chapéu. Na verdade, só sou chefe de obra.
José conduziua até o mercado e ajudou a descarregar as sacas, cobrando apenas metade do que Lurdes lhe deu.
O resto à noite. Eu volto da mesma forma, prometeu.
Que generoso, riu Lurdes, sentindose sortuda.
Ao cair da noite, José entregoua a chave da porta.
Entra, toma um chá, José António.
Sem formalidades, pode chamarme de Zé, respondeu ele, sorrindo.
Lurdes apressouse a pôr a mesa. O filho, Tiago, entrou na cozinha.
Não fiques a olhar! Vai para o quarto. Fizeste os deveres?
Quase, murmurou o rapaz.
Então termina! ordenou Lurdes.
José, sentado ao fundo, cruzou as pernas, e, com um ar de quem controla a cena, dirigiuse ao menino:
Prazer, sou José. E tu, como te chamas?
Rui, respondeu Tiago.
Arsenio?, indagou, lembrandose do nome antigo.
É o mesmo, assentiu o garoto.
E os estudos? Está difícil?
A matemática é um pesadelo, confessou.
Vamos ver então, disse José, chamando Rui a mostrar o caderno.
Em meia hora, o menino, satisfeito com a ajuda, foi para a cama.
Arruma tudo, pediu José, apontando a mesa. Só quero o chá.
Se está ao volante, só chá, concordou Lurdes, meio a contragosto.
Mesmo se não fosse ao volante, ainda assim seria chá. E ainda podemos servir compota, gelatina, sumo.
Lurdes, desconfiada, serviu água quente com um punhado de chá, colocando ao lado um prato de batatas.
Já era hora, disse José, levantandose. Pausou, depois acrescentou: Gostaste de mim, Lurdes Silva? Posso voltar na sextafeira?
Lurdes esboçou um leve sorriso; não era o que esperava, mas lhe agradava.
Vem quando quiseres.
Sou solteiro, respondeu ele, embora Lurdes não tivesse perguntado.
Vai esquecerse dentro de uma semana, pensou ela, sem esperança de continuidade.
Mas, ao fim do dia, quando Fátima e Rita chegaram, Lurdes despediuas cedo. A mente girava: E se ele realmente vier?.
Não, Lurdes, isso é injusto, protestou Fátima. Vamos ao clube!
Tenho de limpar, não vou ao clube.
Lurdes não terminou a limpeza. José chegou antes do previsto, entrou no quintal e foi conduzido à casa. Restavam vestígios da ceia na mesa, mas ele fingiu não notar.
Vou aquecer a sopa, está fria, explicou Lurdes.
José conversou um pouco com Rui, ajudouo em matemática e explicou o que são cavalospotência nos motores. Quando o menino foi dormir, Lurdes sentiuse leve, com vontade de brincar e rir.
José se levantou, aproximouse, pôs as mãos nos ombros dela e feza levantar. Então, envolveua num abraço firme ao redor da cintura. Lurdes ficou sem ar, surpresa.
Fico até ao amanhecer, afirmou ele simplesmente.
Quem te manda? Lurdes, finalmente recobrando o fôlego, recuou, respirando fundo. Já sabia que ele ficaria; as palavras pareciam supérfluas.
Ao amanhecer, enquanto Lurdes preparava ovos mexidos, José pegou baldes e foi buscar água.
Posso levarte à sauna? perguntou.
Leva, respondeu Lurdes, indiferente, nunca tendo pedido ajuda antes, pensando que nada desse tipo duraria.
Depois do pequenoalmoço, terminando o chá, José sussurrou:
Lurdes, se quiseres ficar comigo, esses copos que deixaste na mesa ontem têm de desaparecer.
Lurdes parou, a colher ainda na mão.
É condição? perguntou, surpresa mais que irritada.
Consideraa assim. Não suporto esse odor. E, a sério, sou um homem normal, tu já percebeste.
Sorriu e acrescentou:
Então, vem à sauna ao fim do dia?
Lurdes queria protestar, expulsálo, mas algo a impediu. De repente, sentiuse inclinada a aceitar.
Vem, respondeu brevemente.
Ao cair da noite, Fátima apareceu.
Disseram que tudo derramaste, Lurdes? É verdade?
É, Fátima. Não há mais nada.
Mas estás a perder a cabeça! Como pudeste fazer tal boa ação?
Que boa ação? É só uma desgraça. Vai, Fátima, não tenho tempo para ti, cortou Lurdes.
Lurdes lavou o chão, trocou a roupa de cama, que agora cheirava a frescor porque ainda a tinha enxaguado ao ar livre. O caldo de peixe ainda esperava no fogão, mas ela desejava preparar algo diferente, mais saboroso. Como não teria tempo para pastéis, fez massa e fritou panquecas. Rui tiravaas silenciosamente da mesa, acompanhandoas com sumo de uva.
O tempo passava. Lurdes ainda conseguiu visitar a sauna, mas o céu já escurecia. José ainda não aparecera.
Já três anos espero por uma promessa, suspirou Lurdes, amarga. Enganeime, tolo. Todos são iguais, exceto o meu Manuel. Talvez eu tenha desperdiçado tudo.
Um sorriso cruzou o rosto ao lembrarse. Olhou a cozinha iluminada, sentiu o aroma da comida recémfeita e, de repente, encontrou paz.
Não foi em vão, declarou firme. Chega de esperar.
Virouse para o filho:
Não esperes mais, Rui, o tio Zé talvez nunca chegue. Vamos ver os teus cadernos, estás a deixar os estudos de lado.
Nesse instante, o ronco de um motor ecoou pela janela. José entrou pela porta com uma pequena mala de viagem, tirandoa sEle sorriu, oferecendolhe um prato de bacalhau, e Lurdes, finalmente aliviada, aceitou a promessa de um futuro mais sereno.
