Chamo-me Benedita e tenho 49 anos. Sou enfermeira no turno da noite no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Trabalho lá há 20 anos, já vi de tudo.
Sou divorciada há 8 anos. Tenho um filho, o Tomás, que acabou de fazer 16 anos. Vive comigo. É um bom rapaz. Responsável, estudioso, nunca me deu problemas.
Bem, isso não é totalmente verdade. Deu-me um problema. O maior da minha vida. Mas não é culpa dele.
Há seis meses o Tomás começou a queixar-se de dores de cabeça. Ao início achei que era da vista, que precisava de óculos. Levei-o ao oftalmologista. A visão estava perfeita.
As dores continuaram. Depois começou a ter náuseas de manhã. Achei que era alguma coisa que andava a comer na escola. Passei a preparar-lhe lancheira com comida feita em casa. As náuseas não desapareceram.
Uma manhã encontrei-o na casa de banho a vomitar. Tinha o rosto pálido. Disse que se sentia tonto, que tudo girava.
Levei-o de imediato às urgências. Fizeram-lhe análises ao sangue. Estava tudo normal. O médico disse que provavelmente era stress, que os adolescentes às vezes somatizam a pressão escolar.
Mas eu sou enfermeira. Há 20 anos que trato pacientes. E algo no meu instinto dizia-me que aquilo não era stress.
Insisti em mais exames. O médico olhou para mim como se estivesse a exagerar, mas lá pediu uma TAC.
Lembro-me perfeitamente desse dia. Era terça-feira. Estava a trabalhar quando me ligaram do hospital onde o Tomás tinha feito o exame. Disseram que precisavam de falar comigo com urgência, que fosse o mais rápido possível.
Deixei o turno a meio. Conduzi como uma louca até ao hospital. Fizeram-me entrar num consultório. Estava lá um neurologista que não conhecia, um homem de cerca de 50 anos, rosto sério.
Senhora Benedita, encontrámos algo na tomografia do seu filho, disse-me. É um tumor cerebral. Precisamos de fazer mais exames para perceber que tipo de tumor é e qual a gravidade.
O mundo desabou naquele instante. Eu, que já dei tantas más notícias a famílias, que já vi pacientes morrerem, achei que estava preparada para tudo. Nada me preparou para ouvir aquelas palavras sobre o meu filho.
Os dias seguintes foram um inferno de exames. Ressonâncias magnéticas, biópsias, reuniões com oncologistas. Termos técnicos que conhecia de trás para a frente, mas que ali soavam a sentenças de morte.
Glioblastoma multiforme. Grau IV. Agresivo. Não operável pela localização. Tratamento: quimioterapia e radioterapia para tentar reduzir, mas o prognóstico era mau.
Quando o oncologista explicou tudo isto, o Tomás estava ao meu lado. O meu menino. Ouvir que tem um cancro terminal no cérebro.
Vou morrer?, perguntou ele, com uma voz tão calma que me partiu o coração.
O médico olhou para ele com aquela compaixão profissional que eu própria já usei tantas vezes. Vamos fazer tudo para te dar mais tempo, disse-lhe.
Mais tempo. Não vais ficar bem. Não vais curar-te. Apenas mais tempo.
Nessa noite, o Tomás abraçou-me e sussurrou: Mãe, não chores. Vamos lutar contra isto.
E começámos a lutar. Quimioterapia de duas em duas semanas. O Tomás perdeu o cabelo. Emagreceu. Vomitava quase todos os dias. Mas nunca se queixou. Nunca perguntou porquê eu?. Raramente deixou de sorrir.
Os amigos da escola vinham visitá-lo. No início iam lá com frequência. Com o tempo, cada vez menos. É difícil, aos 16 anos, olhar a mortalidade de frente.
Mas houve um amigo que nunca faltou. Chama-se Daniel. São amigos desde a primária. O Daniel aparecia todos os dias, depois das aulas. Levava-lhe os trabalhos de casa, contava-lhe tudo o que acontecia, ficavam a jogar consola juntos, mesmo quando o Tomás mal conseguia segurar no comando.
Uma tarde, estava eu a preparar o jantar quando ouvi os dois a falarem no quarto, com a porta entreaberta.
Assustado?, perguntou o Daniel.
Sempre, respondeu o Tomás. Mas não digo à minha mãe. Ela já tem muito com que se preocupar.
De quê que tens mais medo?
Que a minha mãe fique sozinha. Que sofra. Que não me consiga despedir dela, bem. Que ela se culpe por isto, que não é culpa dela.
Tive de me ir embora para o meu quarto, para eles não perceberem.
O tratamento não está a resultar. O tumor continua a crescer. Os médicos já falam de cuidados paliativos. Dizem para nos focarmos na qualidade de vida, nos dias que restam.
Quanto tempo? Ninguém sabe ao certo. Talvez três meses, talvez seis, talvez nem isso.
Esta manhã o Tomás pediu-me para o levar à escola. Há semanas que não ia, de tão cansado que estava. Mas disse que queria rever os colegas, sentir-se normal, nem que fosse só por umas horas.
Levei-o. Ajudei-o a descer do carro. Nota-se como emagreceu. Tão frágil, tão pequeno. Os amigos receberam-no com abraços. A professora preferida aproximou-se, deu-lhe um beijo. Vi-lhe o sorriso, a felicidade de se sentir, por um momento, só o Tomás e não o miúdo com cancro.
Quando o fui buscar, três horas depois, vinha exausto, mas genuinamente feliz.
Obrigado, mãe, disse no carro. Obrigado por tudo o que fazes por mim. Por seres a melhor mãe do mundo.
Tu é que és o melhor filho do mundo, respondi-lhe.
Mãe, quando eu já cá não estiver, quero que sejas feliz. Que vivas. Que não passes a vida a chorar por mim.
Tomás, não fales disso
Temos de falar disso, mãe. Ambos sabemos o que vai acontecer. Preciso que me prometas que vais ficar bem. Que vais seguir em frente. Que te vais lembrar de mim a sorrir e não só com tristeza.
Prometi-lhe. Sei que não sei se vou conseguir cumprir.
Esta noite dorme tranquilo no quarto. Fui vê-lo há pouco. Parece tão em paz. Ainda é o meu menino pequeno.
Amanhã vem a enfermeira de cuidados paliativos fazer a visita semanal. Depois de amanhã temos consulta com o oncologista, rever os últimos exames, mesmo sabendo o que vão dizer.
Sentei-me na sala, com uma chávena de café a arrefecer nas mãos. Olhei para as fotografias na parede. O Tomás em bebé, no primeiro dia de escola, nos anos, há seis meses, saudável, sorridente, sem saber o que se avizinhava.
Não sei como se sobrevive a isto. Não sei como se ultrapassa enterrar um filho aos 16 anos, com uma vida inteira ainda para viver.
Mas por ele vou tentar. Serei forte enquanto precisar de mim. Vou sorrir ao vê-lo. Vou fazer tudo para que os dias que restam sejam os melhores possíveis.
E quando ele partir, não sei o que farei. Mas isso ficará para depois. Agora importa estar aqui, presente, para ele.
Como se diz aos filhos que os amamos, sabendo que o tempo se esgota? Como se guarda uma vida inteira de amor nos dias que restam? No fim, aprendi que o mais importante é aproveitar cada momento com quem amamos, porque, na verdade, nunca sabemos quanto tempo nos resta.







