Chamo-me Mariana e tenho 49 anos. Sou enfermeira no turno da noite no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Há vinte anos que trabalho lá, já vi de tudo um pouco.
Sou divorciada há oito anos. Tenho um filho, o Tiago, que acabou de fazer 16. Vive comigo. É um bom rapaz. Responsável, dedicado aos estudos, nunca me deu chatices.
Bem, para ser sincera, deu-me sim um grande problema. O maior de todos. Mas, coitado, não foi culpa dele.
Há uns seis meses o Tiago começou a queixar-se de dores de cabeça. Pensei logo que pudesse ser dos olhos, talvez precisasse de óculos. Levei-o ao oftalmologista. A visão estava perfeita.
As dores continuaram. Depois começaram as náuseas de manhã. Achei que podia ser da comida da escola. Comecei a mandar-lhe marmita de casa. Não passou.
Uma manhã, encontrei-o na casa de banho a vomitar. Tinha uma cara tão branca. Disse-me que estava tonto. Que sentia tudo a rodar.
Levei-o de imediato ao hospital. Fizeram-lhe análises de sangue, exames. Tudo normal. O médico disse que, provavelmente, era stress. Que os adolescentes muitas vezes manifestam ansiedade assim, com sintomas físicos.
Mas eu sou enfermeira, sei o que é sentir quando algo não bate certo. Vinte anos a trabalhar com pessoas, há instintos que não falham. Pedi para fazer mais exames. O médico ficou a olhar para mim como se eu estivesse a exagerar, mas lá aceitou e passou uma TAC.
Lembro-me desse dia como se fosse agora. Era uma terça-feira. Estava a meio do meu turno quando me ligaram do hospital onde o Tiago tinha feito a TAC. Que precisava lá ir, com urgência.
Deixei o serviço, peguei no carro e fui, cheia de medo. Quando cheguei, fui chamada ao consultório. Estava lá um neurologista que nunca tinha visto, um homem de uns 50 anos, com ar sério.
Dona Mariana, encontramos algo na tomografia do seu filho, disse-me ele. É um tumor cerebral. Precisamos de fazer mais exames para perceber o tipo e o estágio.
O mundo caiu-me em cima, ali mesmo. Eu, que tantas vezes dei notícias más a famílias, que já vi tantos pacientes morrerem, achei que estava preparada para tudo. Não estava. Não para ouvir aquilo sobre o meu filho.
Seguiram-se dias de pesadelo ressonâncias magnéticas, biópsias, reuniões com oncologistas. Palavras técnicas, que eu conheço de cor, mas que ali pareciam sentença de morte.
Glioblastoma multiforme, grau IV. Muito agressivo. Inoperável devido à localização. Só havia hipótese de fazer quimioterapia e radioterapia para tentar atrasar a coisa. Prognóstico reservado.
Quando o oncologista explicou tudo, o Tiago estava sentado ao meu lado. O meu filho, o meu menino, a ouvir que tinha um cancro terminal.
Vou morrer, mãe? perguntou com uma calma que me partiu o coração.
O médico fitou-o com aquela compaixão profissional que eu própria usei tantas vezes. Vamos fazer tudo para te dar mais tempo, disse-lhe.
Mais tempo. Não era vais curar-te. Não era vai correr tudo bem. Era só mais algum tempo.
Nessa noite, o Tiago abraçou-me e disse: Mãe, não chores. Vamos lutar juntos contra isto.
E começámos a luta. Quimio de duas em duas semanas. O Tiago perdeu o cabelo. Perdeu peso. Estava sempre maldisposto. Mas nunca se queixou. Nunca perguntou porquê eu?. Nunca deixou de sorrir.
Ao início, os amigos da escola iam visitá-lo. Depois começaram a aparecer menos vezes é difícil para miúdos de 16 anos lidar com a ideia da morte.
Houve um amigo que nunca faltou: o David. São amigos desde a primária. O David começou a ir lá a casa todos os dias depois das aulas. Contava-lhe tudo o que se passava na escola, levava-lhe os trabalhos de casa e ficavam a jogar PlayStation, mesmo quando o Tiago já mal conseguia segurar o comando.
Um dia, enquanto preparava o jantar, ouvi-os a conversar no quarto. A porta estava entreaberta.
Tens medo? perguntou o David.
Sempre, respondeu o Tiago. Mas não digo à minha mãe. Ela já tem muito com que se preocupar.
Do que tens mais medo?
De a minha mãe ficar sozinha. De a ver sofrer. De não conseguir dizer-lhe adeus. De ela se culpar por algo que não é culpa dela.
Sai do corredor a correr para o meu quarto, para não ouvirem que estava a chorar.
O tratamento, infelizmente, não está a resultar. O tumor continua a crescer. Os médicos já nos começaram a preparar para os cuidados paliativos. Que o importante agora é a qualidade de vida, no tempo que resta.
Quanto tempo? Ninguém sabe ao certo. Talvez três meses. Talvez seis. Ou menos.
Hoje de manhã, o Tiago pediu-me para o levar à escola. Já não ia há semanas, porque se cansa muito. Mas disse que queria ver os colegas, sentir-se normal mais uma vez, nem que fosse só por umas horas.
Levei-o. Ajudei-o a sair do carro. Está tão magro, tão frágil. Mas foi recebido com abraços pelos amigos. A professora preferida veio falar-lhe. Fiquei a vê-lo sorrir. Por um bocadinho, voltou a ser só o Tiago, não o rapaz com cancro.
Quando o fui buscar, três horas depois, vinha exausto mas feliz.
Obrigado, mãe, disse ele no carro. Obrigado por tudo. Obrigado por seres a melhor mãe do mundo.
E tu és o melhor filho do mundo, respondi.
Passado um silêncio, disse-me: Mãe, quando eu já cá não estiver, quero que sejas feliz. Tenho medo que fiques presa no desgosto. Quero mesmo que vivas, que não fiques sempre a chorar por mim.
Oh Tiago, não faças disso…
Temos de falar disso, mãe. Os dois sabemos o que vai acontecer. Preciso que me prometas que vais ficar bem. Que vais continuar em frente. Que te vais lembrar de mim com sorrisos, não só com tristeza.
Prometi-lhe, mas sinceramente não sei se vou conseguir cumprir.
Esta noite está a dormir no quarto dele. Fui vê-lo há pouco. Dorme tão tranquilo. Parece tão pequeno, ainda. O meu menino.
Amanhã vem cá a enfermeira dos cuidados paliativos para a visita semanal. Depois de amanhã há consulta no IPO para ver os últimos exames mas, no fundo, todos já sabemos o que vêm dizer.
Sentei-me na sala com uma chávena de café a arrefecer nas mãos. Olho para as fotos na parede. O Tiago em bebé. O Tiago no primeiro dia de escola. O Tiago nos anos, há seis meses, com saúde, a sorrir, sem imaginar o que vinha aí.
Não sei como é que se sobrevive a isto. Não sei como se sobrevive a enterrar um filho. Aos 16 anos, com uma vida inteira pela frente, que não vai viver.
Mas, por ele, vou tentar. Vou aguentar-me enquanto me precisar. Vou sorrir quando ele olhar para mim. Vou tentar que os dias que lhe restam sejam felizes.
Quando ele já cá não estiver, não faço ideia do que vou ser. Mas isso fica para depois. Agora só importa estar presente. Por ele.
Como é que se diz a um filho que o amamos quando sabemos que o tempo está a acabar? Como se guarda uma vida inteira de amor para os dias que restam?
