Cavaleiro-empresário levou-me a um restaurante em Lisboa sem carteira para testar se eu era interesseira. Não perdi a compostura… Veja o que fiz…

Então, olha só o que me aconteceu outro dia parece até história de novela, mas foi real. O Afonso, esse rapaz com quem estava a falar há pouco tempo, empresário daqueles super chiques, convidou-me para jantar num restaurante em Lisboa que é só luxo, tudo em meia-luz, os empregados andavam por lá feito sombras, ninguém faz barulho. Ele todo impecável, fato caro, relógio que até brilhou quando mexeu o braço, aquela postura de quem acha que o mundo gira mesmo à volta dele.

Pede o que quiseres disse-me ele logo de início, assim meio de lado, sem olhar para o menu. Não consigo ver uma mulher a privar-se de alguma coisa.

Soou bonito, até pensei que ele devia ser mesmo generoso, mas não sei, bateu logo aquela sensação estranha. Talvez fosse por causa do olhar dele, sempre a medir-me, ou então porque passava metade do tempo a falar das ex-namoradas e de como, segundo ele, só olhavam para ele como se fosse um multibanco.

Pedi uma salada de pato e um copo de vinho verde, só para não arranjar complicações. Mas o Afonso foi logo para coisas em grande: bife do lombo, tartaro, uma garrafa daquela reserva de vinho tinto caríssima. O tema era sempre o mesmo, negócios e mais negócios, queixava-se muito da superficialidade das pessoas, falava de valores, de ligação de alma, tudo muito filosófico. Eu lá fui ouvindo, a sorrir, mas tinha aquela sensação de que aquilo não era um primeiro encontro, mas sim uma espécie de entrevista como se estivesse à espera de ele me apanhar numa rasteira.

A certa altura, o empregado entrega a conta, assim numa capa preta de pele. E o Afonso, sem nunca perder o fio à conversa, começa a remexer nos bolsos do blazer, depois nas calças, depois faz aquela cara de quem não sabe se há de rir ou chorar. Muito teatral.

Que chatice diz ele, mesmo a olhar-me nos olhos. Acho que deixei a carteira no escritório. Ou então ficou no outro carro.

Abriu os braços, como se não tivesse hipótese nenhuma. Nem tentou resolver, não chamou ninguém, não pegou no telemóvel para fazer transferência, não nada. Limitou-se a olhar para mim, a ver o que eu fazia.

Olha que situação, continua ele, encostando-se para trás. Vá lá, podes safar-me? Pagas hoje e depois eu reembolso, ou compenso-te no próximo jantar com juros!

Nessa altura percebi perfeitamente que aquilo de esquecido não tinha nada. Era teste, igualzinho aos que ele tinha passado meia hora a comentar. Já conhecia histórias destas de conversas de amigas e fóruns na net, mas nunca pensei que me fosse acontecer, ainda por cima com um homem feito e supostamente bem-sucedido.

É aquela lógica básica, não é? Se eu aceitasse pagar sem questionar por tudo, era porque sou simpática e conveniente, pronta para resolver problemas. Se recusasse, era imediatamente rotulada de interesseira, de olho ao dinheiro dele. De repente, estava sentada à frente de um manipulador a fazer papel de senhor da verdade.

Ele achava que já tinha o jogo ganho. Na cabeça dele, namorar com alguém tão cobiçado devia ser privilégio suficiente para eu simplesmente abrir a carteira.

Pronto, abri calmamente a mala. Ele ficou logo mais descontraído, a pensar que já me tinha apanhado.

Claro, sem problema disse eu, tranquila, e chamei o empregado.

Se faz favor, divida a conta pedi diretamente. Eu pago o meu jantar. Ao senhor deixo o bife, o vinho e a sobremesa, que foi ele que pediu.

A cara dele mudou logo.

Mas estás a brincar? sussurrou ele, inclinando-se para mim. Já te disse que não tenho carteira aqui.

Pois, percebo disse eu, já com o telemóvel perto do terminal. Mas mal nos conhecemos. Acho perfeitamente normal eu pagar o meu prato. Agora, pagar pelo jantar inteiro do cavalheiro, que me convidou para um restaurante caro e pediu metade da lista, desculpa mas não é responsabilidade minha. Já és adulto, de certeza que vais saber resolver.

O empregado ficou ali meio aflito a olhar de um para o outro. O Afonso começou a corar, via-se ali as várias camadas de charme a caírem de uma vez, a revelar o que realmente estava por trás.

Isto é sério? Por causa de uns euros? Já te disse que devolvia depois. Só queria ver como reagias.

Já viste, não é? disse eu levantando-me. Sou alguém que não se deixa manipular.

Já ia a sair mas senti que faltava qualquer coisa. Ele lá ficou, de cara fechada, com a conta à frente e sem carteira.

Voltei à mesa, abri a carteira e tirei umas notas um bocado amachucadas e um punhado de moedas, das que ficam sempre perdidas no fundo da mala.

Olha, já agora, acrescentei. Se a tua carteira ficou no outro carro, também não tens dinheiro para o táxi, pois?

Deixei o dinheiro ao lado do copo do vinho dele.

Fica aí para o metro. Vais ver que chegas a casa sem problemas. Considera isto o meu contributo para os teus estudos sobre a alma feminina.

Alguns clientes das mesas do lado olharam de esguelha. O Afonso estava com cara de quem levou uma palmada.

Saí para a rua.

Aquele jantar ficou-me só por meia salada e um copo de vinho troco barato para perceber a tempo quem tenho à frente e poupar uns bons anos de dramas. Espero que ele tenha aprendido, mas duvido, homens assim raramente mudam, não é?

E tu, o que farias no meu lugar? Pagavas pelo esquecido ou mantinhas-te fiel a ti mesma, por mais desconfortável que fosse?

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