Cavaleiro—empresário foi ao restaurante sem carteira para testar se sou interesseira. Não perdi a cabeça… Veja o que fiz…

Estou-te a mandar este áudio porque tenho de contar-te sobre o jantar surreal que tive com um empresário chamado Tomás. Olha, o restaurante para onde ele me convidou era daqueles onde só gente de alta roda frequenta: luz suave, empregados a deslizar silenciosamente entre as mesas feito sombras, e uma decoração que parecia querer mostrar riqueza em cada detalhe. O próprio Tomás encaixava-se na perfeição nesse cenário: terno caro, relógio chamativo, aquela meia-sorriso convencida de quem está habituado a ser o centro das atenções.

Mal sentei, ele atirou com aquela frase feita: Podes pedir o que quiseres, de verdade! Odeio quando uma mulher se priva de algo. Parecia uma cena de novela, até deixava qualquer um desconfiado. E eu, desde logo, senti aquele friozinho na barriga… talvez fosse o jeito como ele me olhava, ou então a forma como falava dos ex-namoradas: Só viam em mim uma carteira… repetia.

Escolhi uma salada de pato e um copo de vinho branco. Mas ele foi às grandes: pediu bife, tártar, uma garrafa de vinho tinto caro. Falava de negócios, criticava a superficialidade das pessoas, divagava sobre valores e intimidade. Eu ia assentindo, mas o ambiente era estranho em vez de um encontro, parecia uma prova, tipo aquelas em que perguntam de surpresa algo tramado.

Quando o empregado pousou o envelope preto com a conta, Tomás nem fez caso, continuou a falar sobre moral e valores. Devagar, foi à procura do seu carteiro num bolso, depois noutro, até a verificar as calças. De repente, fez aquela cara meia atrapalhada.

Bolas… soltou, olhando-me nos olhos. Acho que deixei a carteira no escritório ou no carro.

Abriu os braços a fingir desconcerto, mas medo não tinha. Não pediu ao empregado para esperar, nem tentou resolver com o telemóvel. Só ficou a olhar para mim.

Ora, que situação ridícula, continuou, encostando-se na cadeira. Talvez possas ajudar? Pagas agora, eu envio depois. Ou da próxima vez pago com juros.

Naquele instante ficou claro: não era esquecimento, era mesmo uma prova. Ele próprio tinha falado disso meia hora atrás, e agora estava a pôr-me à prova.

Já tinha lido histórias assim, visto em séries baratas, mas nunca pensei viver uma cena destas, ainda por cima com um homem adulto e tão aparentemente bem-sucedido.

A lógica dele era de rir: se a mulher paga sem hesitar é boa, útil, pronta a salvar e suportar. Se não paga é mercenária, atrás do dinheiro. Agora já não era um empresário diante de mim, mas sim um manipulador inseguro, a testar-me.

Tinha certeza de que ia conseguir o que queria. Achava que o privilégio de namorar tal partido me faria sacar o cartão da mala sem protesto.

Mas, com calma, abri a minha bolsa. Ele relaxou, convencido de que o plano tinha funcionado.

Sem problema, claro, disse eu e chamei o empregado.

Por favor, separe a conta, pedi firme. Pago o meu, e o senhor paga o seu: o bife, o vinho e a sobremesa são dele.

O sorriso dele evaporou imediatamente.

Como assim? sibilou, inclinando-se para mim. Não tenho carteira…

Pois, percebo, respondi, encostando o telemóvel ao terminal. Mas ainda nos estamos a conhecer. Cada um paga o seu, é o que faz sentido. Se um homem convida uma mulher a um restaurante de luxo e pede os pratos mais caros, não é minha obrigação cobrir isso. És adulto, vais encontrar uma solução.

O empregado ficou indeciso, a olhar de mim para ele. Tomás começou a avermelhar-se, aquela imagem polida caiu por terra, revelando apenas falta de educação.

Estás a falar a sério? Por causa de uns euros? Eu disse que devolveria! Só queria testar-te.

Testaste, respondi, levantando-me. Eu sou aquela pessoa que não se deixa manipular.

Ao sair, senti que faltava o toque final. Ele ficou a ver-me com a conta por pagar, irritado e perdido, sem carteira.

Voltei atrás, abri a carteira e, zangada mas divertida, deixei uns euros amarrotados e moedas, daquelas que andam no fundo da mala.

Ah, é verdade acrescentei. Se a carteira está no carro, também não tens dinheiro para o táxi, pois não?

Pousei o dinheiro ao lado do copo de vinho caro.

Isto é para o Metro. Não te afastes, vais chegar a casa. Considera como uma contribuição para os teus estudos da alma feminina.

As mesas ao lado olharam, e Tomás parecia ter levado um tapa.

Saí para a rua.

Esse jantar custou-me apenas uma salada e um copo de vinho nada comparado ao que seria perder anos da minha vida com alguém assim. Espero que ele tenha aprendido alguma coisa, mas duvido, pessoas destas raramente mudam.

Pergunto-te: e tu, o que farias nesta situação? Salvavas o esquecido ou fazias valer a tua posição honesta, mesmo que parecesse fria?

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