Catarina já estava há duas horas na fila para ver a Dona Nina. Esta curandeira era a última esperança da jovem portuguesa. Há vários anos, Catarina tenta levar adiante uma gravidez, mas por razões desconhecidas ainda não conseguiu realizar o sonho de ser mãe.

Catarina já tinha passado das duas horas sentada numa fila improvável à porta da Dona Nazaré a famosa curandeira dos arredores de Santarém, último recurso para quem já tinha corrido toda a medicina moderna de Lisboa a Braga. Por mais que corresse bem a vida, Catarina sentia que nas gravidezes não tinha sorte: há anos que tentava, em vão, ter um filho.

Olhe, sinceramente… não sei que lhe diga. Está tudo ótimo nas análises, não vejo problema nenhum, suspirava a ginecologista, com aquele ar resignado de quem já desistiu. Mas tem de haver uma explicação… Se estou saudável, porque não consigo engravidar? balbuciava Catarina, já lançando olhares ansiosos à Nossa Senhora do consultório. Não sei, minha senhora. A medicina não resolve tudo. Se calhar vá à igreja dar uma palavrinha a Deus…, sugeriu a médica, baixando a voz como se fosse segredo de Estado.

***
Catarina e o marido, Tomás, estavam juntos há cinco anos e tinham todas as condições: casa ampla em Cascais, ordenados jeitosos, vida fácil e, pelo menos, até à data, amor a rodos. Faltava ali apenas uma coisa: o som de crianças a correr e a rir pelos corredores.

Por isso, quando ouviu a médica falar de igreja, Catarina só confirmou a teoria que já lhe martelava a cabeça: devia ser praga das fortes. Olha que, no teu caso, igreja não chega! Vais mas é à curandeira!, aconselhou a amiga Berta, enquanto lhe escrevia num papelinho o endereço da Dona Nazaré. Vá lá, despacha-te, que isso não melhora à espera!

Finalmente, chegou a sua vez. Catarina entrou na casa baixinha com algum receio, meio a temer uma bruxa com vassoura e um gato preto em cima do fogão. Mas só encontrou Dona Nazaré, uma velhinha de tranças brancas, avental colorido, e sorriso tão doce como pão de ló.

Vá, minha filha, senta-te aqui ao pé do Santo António, disse ela, apontando uma cadeira. Ao sentar-se, Catarina desatou num pranto e contou tudo, entre soluços. Eu já sei, querida. Ajudo no que posso, respondeu a velhota, em modo paz e amor.

Depois da habitual reza, com velinha a rodopiar em torno da sua cabeça, Dona Nazaré sentou-se à sua frente e pegou-lhe na mão. Não vais conseguir ter filhos, filha. Tens sobre ti uma maldição de infância, é preciso rezar para quebrar, anunciou, como quem comenta o tempo. Maldição? Mas quem havia de me rogar pragas? Se nunca fiz mal a ninguém! sussurrava Catarina, pasma.

Tu não, minha querida. Mas a tua mãe, sim. E agora pagas tu por ela, explicou a curandeira, impassível.
Mas isso é uma injustiça! A minha mãe já cá não está, porque hei de eu carregar os erros dela? protestou Catarina.

É a lei do universo, filha. Não se discute…

Pode ajudar-me? levantou a esperança.
Não, não posso. Isto não é coisa de magia de mau-olhado, é mais fundo. Tens de descobrir quem a tua mãe afrontou e pedir perdão por ela. E não te esqueças: reza por ti e por quem te fez mal. Sincera e de coração.

Ouvindo aquilo, Catarina saiu disparada para o carro e ligou ao marido: Tomás? Olha, não volto hoje a casa. Preciso ir ter com a tia Lurdes. Depois explico, tudo depois.

Entrou pelo portão da aldeia sem aviso, e a tia Lurdes apanhou um susto. Catarina! Avisava ao menos, assim nem tive tempo de aquecer a lareira! Mas Catarina vinha pouco virada para salamaleques: Tia, conta-me a verdade toda: que fez a minha mãe para eu estar a penar deste modo?

Depois de um teatrinho de não sei de nada, lá cedeu: Pronto… Ouve. E contou que a mãe, D. Zélia, fora a bela da aldeia e mais bela ainda a lata com que se meteu com o senhor António, casado e pai de um garoto. Separou o homem da mulher, deixou a pobre Maria abandonada, chorosa aos pés da Zélia, a pedir misericórdia. E, vendo a recusa e até troça da rival, Maria soltou-lhe uma praga digna de bruxa medieval: a dor que sentia, que a sentissem também os filhos e filhos dos filhos

E depois, tia? O que aconteceu?, perguntou Catarina, gelada.
A tua mãe casou com o António, tiveste tu. Mas entretanto tudo correu torto: morreram cedo, só sobraste tu. E depois… nunca mais houve felicidade naquela família, filha, é mesmo de bruxedo!

Tia, mas a Maria ainda vive aqui na aldeia? Preciso pedir-lhe desculpa, limpar tudo isto–
A vida dela também não foi melhor. Pior, se calhar Ficou meia perturbada, acabou num hospital, o filho, o Luís, foi para uma casa de acolhimento. Aquilo correu tudo mal.

Então, ele é meu irmão de pai… O Luís ainda cá está?
Está, mas olha: a vida dele também foi só tropeço. Voltou para cá, meteu-se na bebida, acidentes e o diabo a sete. Até ficou numa cadeira de rodas…

Pronto, já percebi. A minha mãe não só levou o pai, ainda desgraçou toda a família.

Pois… é o que temos, respondeu a tia. Mas olha, não vás meter-te na toca do lobo. O rapaz é complicado.

Se não levares, alguém há de me dizer onde o encontro, respondeu Catarina, já de pé.

E lá foram as duas pela aldeia adentro um frio de rachar até ao casebre do Luís. Chamaram à janela e ouviram um Está aberta! rouco, quase de filme de terror.

O que viu, nem nos piores pesadelos: a casa aos pedaços, cheirava a tabaco, vinho barato e solidão. Luís, na cadeira de rodas, com um ar de fim do mundo, e uma gata branca, majestosa, que mandava ali mais que ele.

O seu gato está na mesa, arriscou Catarina.
Deixa-o, a Branquinha é a rainha cá do castelo, respondeu Luís, com sarcasmo. O que vens cá fazer? Se és dos serviços sociais, vou já avisando: daqui não saio!

Não, sou a tua irmã. Vim pedir desculpa.”

Ah, claro… a herdeira vem reclamar a fortuna, bufou Luís. Olha, queres mesmo alguma coisa? Dá-me cem euros. Catarina tirou quinhentos euros da carteira e pôs-lhe em cima da mesa.

Obrigada, estás perdoada, troçou. E se quiseres novo perdão, é vir cá deixar mais uns trocos! Catarina insistiu, mas ele não queria saber de médicos nem de conversas. Escorraçada, voltou para casa de Lurdes, de lágrimas nos olhos.

***
Os dias seguintes foram de azedume. A culpa, o desgosto pelo irmão, a tristeza, tudo lhe queimava o peito. Não sabia o que fazer, até que decidiu ir à igreja, despejar à Nossa Senhora e ao pároco toda a amargura.

Está a custar-lhe muito, filha? perguntou o padre Armando, ao vê-la sozinha e em lágrimas no banco.

Quer confessar-se? Fica mais leve na alma… E ali, entre soluços, Catarina contou tudo. O padre sorriu, paciente: A Dona Nazaré fez-lhe mal, desculpe que lhe diga. As más ações dos outros não têm de ser pagas pelos filhos. Mas fez bem em rezar isso sim é cura. Mantenha a oração, pelos seus e por quem a faz sofrer.

E quanto ao Luís? Siga o coração, filha. A sua bondade é que conta.

***
No dia seguinte, Catarina apareceu de novo à porta do irmão. Não venho dar-te mais dinheiro. Vim buscar-te. Vais comigo, para Lisboa. Basta de miséria! Preciso de ti, és a única família que tenho.

Luís ficou à nora. Só se a Branquinha for comigo… Catarina riu. Sonho com uma gata há anos!

***
E passam três meses. Luís adaptou-se ao novo lar como cão à caravana. Ri, mexe em computadores, está a aprender programação. O marido, Tomás, anima-o: Amanhã chegam as próteses da Alemanha. Vais voltar a andar, homem! Luís borra a pintura de lágrimas: Nunca pensei chegar aqui Obrigado, Catarina.

Meio ano depois, à porta da maternidade de Cascais, Tomás e Luís espreitam com sorrisos patéticos para a janela, onde Catarina exibe, orgulhosa, dois bebés ruivos.

Vamos ter uma casa animada, hein? ri Tomás.

Ó tio Luís, preparado para ser tio a dobrar?
Sempre! Agora vai ser só alegria.Luís não responde logo. Olha para Catarina, olha para os bebés, e a Branquinha espreguiça-se entre as pernas da cadeira. Uma golfada de sol entra pela porta automática. Luís, que nunca acreditou em milagres, sente qualquer coisa leve a despontar no peito como se pela primeira vez, em muito tempo, o peso tivesse dado lugar à esperança.

Catarina, diz ele, voz trémula mas firme, foi preciso a vida dar tantas voltas para percebermos que o perdão é o caminho. Não mudou o passado, mas abriu-nos presente. Olha só isto!

Os bebés, encavalitados no colo da mãe, bocejam em simultâneo. Tomás ri, e Luís, sem jeitos, aproxima-se, toca-lhes a mãozinha. De repente sente-se parte daquele milagre improvável não porque a maldição se quebrou, mas porque, juntos, conseguiram transformar a dor em algo novo.

Catarina sorri, lavada de cansaço e de luz. Agora, Luís, diz baixinho, começamos todos do zero. Nada de pragas. Só família.

Lá fora, a vida segue, as pessoas passam sem notar aquele pequeno renascimento. Mas ali, naquela janela, trocada em sorrisos e lágrimas, está tudo o que importa: o passado reconciliado, o presente cheio de riso e planos, e um futuro que, finalmente, volta a prometer esperança. E, no fundo do corredor, Dona Nazaré sorri como se soubesse que o amor, afinal, é o feitiço mais antigo e forte de todos.

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Catarina já estava há duas horas na fila para ver a Dona Nina. Esta curandeira era a última esperança da jovem portuguesa. Há vários anos, Catarina tenta levar adiante uma gravidez, mas por razões desconhecidas ainda não conseguiu realizar o sonho de ser mãe.