Casei há seis meses e, desde então, algo não me deixa em paz: o que vi entre a minha mulher e o meu …

Já lá vão seis meses desde o meu casamento, mas há algo desse dia que ainda hoje não me larga o pensamento.

A celebração foi num jardim bonito às portas de Lisboa. Música alta, luzes suaves, gente a rir e a dançar. Recordo-me de ter saído um pouco da tenda principal para respirar ar fresco. Ao longe, notei o meu melhor amigo, o Tomás, e a minha mulher, Mafalda, encostados junto aos lavabos exteriores. Não conversavam de forma habitual. Discutiam.

Os gestos dela estavam tensos, as mãos mexiam-se agitadas. No rosto dele via-se a mandíbula cerrada. A música não deixava perceber as palavras, mas a discussão era visível.

Aproximei-me devagar e eles ainda não me tinham percebido. Estando já suficientemente perto, ouvi Tomás dizer em voz baixa e cortante:

“Este assunto não volta a ser falado.”

O tom era mesmo firme, seco.

Foi então que deram conta da minha presença. Perguntei o que se passava, sobre que tema falavam.

Ambos se atrapalharam. Mafalda foi a primeira a reagir disse logo que não era nada, apenas parvoíces. Tomás acrescentou que estavam a discutir por causa de um jogo qualquer, uma aposta sem importância ele deve ter sugerido algo, ela não quis, e ficou por aí. A explicação saiu apressada, confusa, sem pormenores.

Mudaram logo de assunto e voltámos todos para o convívio como se nada tivesse acontecido.

O resto da noite foi passada a tentar manter o ambiente festivo. Dançámos, brindámos com vinho do Porto, demos abraços e beijos de parabéns. No entanto, quando os via juntos, notava um estranho silêncio entre eles e evitavam-se no olhar. Nunca mais trocaram nem palavra à minha frente.

Nessa noite calei o assunto.

Depois do casamento, a vida seguiu. Passei a viver com Mafalda. Continuámos a ver-nos com o Tomás e a namorada jantares, aniversários, fins-de-semana como sempre. Nenhum voltou a mencionar o que se passou naquele dia. Não houve mensagens estranhas, telefonemas suspeitos, nada de concreto onde pudesse pegar.

Apenas aquele momento.

Aquele instante não desapareceu. A frase exata. O tom de voz. A urgência em terminarem a conversa. O modo como reagiram ao ver-me.

Não tenho provas. Não há mensagens, nem cenas, nem confissões. Apenas aquela troca acesa no dia do meu casamento, e a sensação de ter interrompido algo destinado a ficar em segredo.

Já passaram seis meses e ainda carrego esta dúvida. Nunca acusei ninguém.

E hoje dou por mim a pensar:

O que se faz a uma suspeita destas, quando não há nada de firme apenas aquela sensação incómoda de que, naquele dia, se passou algo que nunca me foi contado?

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