A infância feliz do Tiago terminou quando ele ainda tinha cinco anos. Um dia, os pais não apareceram para buscálo na creche. Enquanto as outras crianças eram levadas, o menino ficou sentado à mesa a desenhar a si mesmo, a mãe e o pai. A cuidadora o observava e, sem motivo aparente, enxugava-lhe as bochechas. De repente, aproximouse, pegouo nos braços, apertouo contra o peito e disse:
O que acontecer, não tenhas medo, Tiaguinho. Agora tens de ser forte. Entendes? Entendes, miúdo?
Quero a mãe respondeu ele.
Logo chegam a tia e o tio. Vão levarte com eles, Tiaguinho. Lá haverá outras crianças, só não chores.
E ela beijouo com o rosto ainda molhado. Depois seguroulhe a mão e conduziuo até ao carro. Quando lhe perguntaram quando seria devolvido à mãe, disseramlhe que a mãe e o pai estavam longe e que naquele dia não podiam vir buscálo. Tiago foi colocado num quarto communal com outros rapazes da mesma idade. Mas os pais não voltaram nem no dia seguinte, nem no da seguinte. O menino ficou muito angustiado, chorava à noite e acabou por subir a temperatura.
Somente a tia de jaleco branco o consolou depois de recuperar. Ela explicou que os pais agora estavam bem longe, no céu, que não podiam descer, mas que estavam sempre a observaro. Todos sabem de ti, disse, por isso deves comportarte bem e não ficar doente, para que não se magoem. Tiago não acreditou. Olhava para o céu e só via pássaros e nuvens. Decidiu encontrar um caminho que os levasse até lá.
Começou a vasculhar o pátio da instituição. Encontrou, atrás de uma sebe, um pequeno buraco na cerca de ferro. Só conseguia entrar até à metade, mas cavou devagar, a terra era leve, com areia. Quando o espaço entre as barras ficou grande o bastante, abriuse um vão.
Escorregou por ele e ficou livre. Rapidamente fugiu do orfanato, que os outros rapazes chamavam de lar. Mas não conhecia a cidade e logo se perdeu. Precisava encontrar a casa, mas todas as casas lhe pareciam iguais.
Num cruzamento avistou uma mulher que se parecia muito com a mãe: vestido de bolinhas, coque de cabelos loiros.
Mãe! gritou Tiago correndo até ela.
Ela não o ouviu nem se virou. O menino a agarrou.
Mãe! insistiu.
A mulher virouse, ajoelhouse e fitouo nos olhos. Não era a sua mãe.
Ana, por sua vez, tinha vinte anos quando se apaixonou perdidamente por Vítor. Encontraramse por acaso numa pista de dança ao ar livre; Vítor aproximouse, tímido, e pediu-lhe um baile lento. Conversaram com facilidade e, a partir daí, não se deixavam mais. Casaramse três meses depois e viviam como uma só alma. Três anos depois, Ana descobriu que não podia ter filhos. Vítor não soube aceitar, e ela fez infinitos exames e curas em clínicas de reabilitação. Acabaram por aceitar que nunca teriam filhos. Vítor sugeriu que adotassem uma criança de um lar de menores.
Ana amava tanto o marido que, ao saber da sugestão de Vítor, propôs-lhe o divórcio. Ambos já tinham quase trinta, ainda eram jovens. Vítor pretendia casarse outra pessoa que lhe trouxesse felicidade, e Ana ficaria sozinha. Vítor recusouse a deixála. Então Ana armou um plano engenhoso: confessou que já não o amava e que tinha outro homem. Vítor não acreditou. Na noite seguinte, Ana não apareceu; retornou ao lar ao amanhecer, com cheiro de vinho e perfume masculino. Quando Vítor a interrogou, ela só dizia que tinha um amante. Vítor concordou com o divórcio.
Quando Tiago chamou Ana, ela já estava dois meses separada. Sentiase vazia, sentia muita falta do marido e inquietavase com a sua situação. O garoto, ao chamara mamã, fez-lhe o coração saltar ao peito.
O que aconteceu, menino, estás perdido? perguntou ela carinhosamente.
Procuro a minha mãe e o meu pai. Dizmeme disseram que estão no céu, mas eu não acredito soluçou Tiago.
Vamos, moro aqui perto. Quero oferecerte uns pastéis de nata, queres? pegouo na mão e levaramse.
Em casa, Tiago devorou os pastéis que Ana tinha comprado, acompanhados de um chá aromático de amora. Contoulhe tudo o que lhe tinha acontecido. Era evidente que não comia doce há muito tempo; outros rapazes mais velhos lhe tiravam os doces e às vezes o insultavam e lhe batiam.
Ana ficou com pena do menino e lhe perguntou:
Queres, Tiaguinho, que eu te adote e vivamos juntos? Quando cresceres entenderás tudo e, quem sabe, ainda conhecerás os teus pais. Mas isso ainda não acontecerá.
Tiago aceitou.
Ana telefonou ao lar de crianças e avisou da descoberta. Levouo pessoalmente, conversou com as cuidadoras para que vigiassem melhor os rapazes. Passava a visitaro todos os dias, mas não podia ficar com ele. Trabalhava, tinha apartamento, mas não tinha marido. Nenhum filho adotado seria concedido a uma mulher sozinha. Lamentou ter insistido no divórcio, mas não sabia como reconquistar Vítor.
Decidiu então fazer um casamento de conveniência com um colega de trabalho, Sérgio, que havia acabado de se divorciar. Era mulherengo, mas competente. Sérgio aceitou, porém ao custo de um pagamento. Ana gostava dele há tempo, mas ainda amava Vítor, o que a fez sentir-se ultrajada. Ainda assim, aceitou o acordo.
Na manhã seguinte, Sérgio levoua a jantar. Ana vestiu um vestido vermelho, como ele tinha pedido, acendeu velas e esperava o convidado com o coração pesado. Quando o sino da porta soou, levantouse e abriua lentamente. Para o seu espanto, encontrou Vítor ali, à porta.
Quero falar contigo, Nininho. Tenho estado a observarte o tempo todo. Nunca vi ninguém entrar ou sair da tua casa disse ele.
Nesse instante, o elevador abriuse e Sérgio saiu carregando um ramo de flores e uma garrafa de champanhe.
Nininho, aqui estou eu
Vítor ficou vermelho, os punhos cerrados, mas virouse e desceu rapidamente as escadas.
Vítor, espera, não é o que parece, deixame explicar! gritou Ana, tentando alcançaro.
Ele saltou num eléctrico e foi embora.
Ana ficou em lágrimas, despediuse de Sérgio e o coração apertouse ao pensar no futuro de Tiago.
Dois anos depois, Tiago desfila orgulhoso na cerimónia de formatura do primeiro ano, trajado de fato escuro e camisa branca, segurando um enorme buquê para a professora. Os pais e a irmã mais nova, Marinha, o trouxeram ao colégio. Marinha era engraçadinha, sempre a brincar nos braços do pai, e Ana, vestida com o vestido de bolinhas da infância de Tiago, estava ao lado deles.
Ana, Vítor e outra criança adotada viviam agora como uma família.
Sérgio revelouse menos vilão do que se pensava; encontrouse com Vítor e explicou tudo. No dia seguinte, Vítor correu até ao escritório de Ana, arrastoua para o registo civil e casaramse rapidamente para poder adotar Tiago.
Continuam a visitar o lar de crianças, a levar presentes e guloseimas. Marinha foi recolhida assim que chegou ao lar.
Mamã, papá, prometo estudar bem sussurrou Tiago, olhando ao céu. Não se magoem por eu ter outros pais. Eu os adoro, mas são temporários até eu reencontrar os meus.
Ele já sabia que os pais tinham morrido num acidente de carro; esteve presente no funeral. Aos domingos, frequentava a Escola Dominical da paróquia, onde aprendeu a queimar o céu é o lar dos anjos.
Ana inicialmente recusouse a entender o marido, mas o destino feza casarse novamente com Vítor. No fim, todos viveram felizes.

