Oi, amiga, senta aí e escuta essa história que me vem na cabeça
Carlos, estás a brincar? Achas que eu te estou a convidar a viver comigo por dinheiro? Que pena, mas é assim.
O Carlos estava sentado na sua cadeira de rodas, a olhar pelos vidros empoeirados da enfermaria. O quarto dava para o pátio interno do hospital, aquele cantinho com lojinhas pequeninas e canteiros de flores, mas quase nunca via gente.
Era inverno e, por causa do frio, os pacientes raramente saíam para passear. O Carlos estava só. Há uma semana, o seu vizinho de quarto, o Rui Martins, recebeu alta e saiu a viver, e desde então o Carlos sentiu uma solidão profunda.
O Rui era um rapaz sociável, cheio de histórias, um verdadeiro contador, como quem se forma no terceiro ano de teatro. Era impossível ficar entediado ao lado dele. Além disso, a mãe do Rui aparecia todos os dias com pastéis quentinhos, fruta fresca e doces que partilhava generosamente com o Carlos.
Com a partida do Rui, o calor daquele cantinho desapareceu e o Carlos ficou a sentirse mais só e inútil do que nunca.
Nesse momento a enfermeira entrou. O Carlos, ao vêla, ficou ainda mais desanimado: em vez da simpática Diana, quem tinha de lhe dar as injeções era a sempre carrancuda e insatisfeita Lurdes Almeida.
Durante os dois meses que passou no hospital, o Carlos nunca a viu sorrir. A voz da Lurdes era áspera, rude, como se fosse a própria cara dela.
Então, por que estás a fazer a cara? Para a cama! gritou Lurdes, segurando o seringa cheio de medicamentos.
O Carlos suspirou, virou a cadeira e aproximouse da cama. Lurdes, ágil, ajudouo a deitarse e, num movimento rápido, virouo de bruços.
Tira as calças, ordenou ela. O Carlos obedeceu, mas não sentiu nada. Ela dava as injeções com maestria e, por isso, ele agradecialhe mentalmente a cada vez.
Quantos anos terá? pensou Carlos, observandoa enquanto ela localizava a veia fina no seu braço magro. Deve ser já aposentada, pensão pequena, por isso tão zangada.
Lurdes finalmente perfurou a veia azulclara, fazendo o Carlos franzirse levemente.
Pronto, acabou. O médico veio hoje? perguntoua, já a preparar a saída.
Não, ainda não, balançou a cabeça o Carlos. Talvez mais tarde
Então espera. E não te sentes à janela, está a entrar ar frio, seco como bacalhau, disse Lurdes e saiu da enfermaria.
O Carlos quase saiu a falar, mas a dureza da Lurdes vinha misturada com uma ternura inesperada que lhe fez sentir que, de alguma forma, ela se importava. Ele não tinha quem o ajudasse.
Carlos era órfão. Os pais morreram num incêndio quando ele tinha quatro anos, numa casa de campo. Ele foi o único a sobreviver; a mãe, numa tentativa desesperada de salvar o filho, lançouo pela janela antes do telhado cair em chamas, enterrando a família inteira. Acabou num orfanato. Os parentes existiam, mas ninguém se apressou em lhe dar um lar.
Da mãe herdara os olhos verdes e sonhadores, a suavidade; do pai ficou a estatura alta, o passo ligeiro e a aptidão para a matemática. Lembravase pouco deles, só fragmentos como cenas de um filme: estava numa festa da aldeia a agitar um balão colorido, ou no colo do pai a sentir o vento quente do verão. Também recordava um gato ruivo, chamado Mimos ou Bicho. As fotos de família foram consumidas pelo fogo.
Quando completou dezoito, o Estado ofereceulhe um quarto luminoso num alojamento estudantil, ao quarto andar. Gostava de viver sozinho, mas às vezes a saudade apertava o peito. Acostumouse à solidão e até encontrou algum conforto nela.
Ver as crianças com os pais nos parques, nos supermercados ou nas ruas da cidade ainda lhe trazia pensamentos amargos.
Queria entrar na universidade, mas faltaram pontos; acabou por ir para um ensino técnico, que gostou e onde a especialidade lhe agradou. Só que com os colegas não se ligava: era calado, reservado, e eles não tinham nada a dizer com ele. Preferia livros e revistas científicas a festas e videojogos. Quando falavam, era sempre sobre estudos.
Com as raparigas, a timidez também não o ajudava; sempre havia candidatos mais decididos e faladores. Aos dezoito e meio, ainda parecia ter dezesseis. Tornouse aquela pomba branca do grupo, mas isso não lhe incomodava.
Há dois meses, a caminho das aulas, escorregou no cimento congelado de um passeio subterrâneo e quebrou ambas as pernas. As fraturas foram difíceis de curar, dolorosas, mas nas últimas semanas já melhorava.
Esperava ser altaacasa logo, mas o prédio onde vivia não tinha elevador nem rampas. Continuar num cadeirão parecia um peso enorme.
Depois do almoço, entrou no quarto o Dr. Rui Mendes, traumatologista. Examinou as pernas, viu os raiosX e disse:
Carlos, boas notícias: os ossos já estão a crescer como devem. Daqui a algumas semanas devias estar em muletas. Não faz sentido ficar aqui; vais tratarte em ambulatório. Em uma hora entregamte a alta, e vais poder ir embora. Alguém vai encontrarte?
Carlos assentiu em silêncio.
Perfeito. Vou chamar a Lurdes, ela ajudate a arrumar as coisas. Cuidate, Carlos, e tenta não voltar mais aqui.
Vou fazer o possível.
O médico piscou e saiu, e o Carlos começou a imaginar o futuro. Foi interrompido pela Lurdes:
Então, por que estás aí parado? Já está a alta. entregoulhe uma mochila que estava debaixo da cama. Vem, arrumate. A Ana Sofia vai trocar a roupa de cama.
Ele começou a juntar as coisas e percebeu o olhar atento da enfermeira.
Por que mentiste ao médico? perguntou ela, inclinando a cabeça.
Do que estás a falar? fez o Carlos, surpreso.
Não te enganes, Carlos. Sei que ninguém vai ao teu encontro. Como é que vais voltar para casa?
Vou encontraruma saída, resmungou ele.
Ainda vais ficar pelo menos meio mês sem andar. Como vais viver?
Vou resolver, não sou criança.
De repente, Lurdes sentouse ao lado do leito e olhouo nos olhos.
Carlos, pode não ser da minha conta, mas com essas lesões precisas ajuda. Não vais conseguir sozinho. Não te irrites, falo a verdade.
Eu dou conta.
Não vais dar conta. Sou enfermeira há anos. Por que discutes como um miúdo?
E então? O que me queres dizer?
Que ainda te falta viver comigo. Morro numa casinha simples na periferia, duas escadinhas até ao alpendre, um quarto livre. Quando te recuperares, voltate a casa. Eu virome sozinha, o marido já se foi, não tive filhos.
Carlos ficou boquiaberto. Viver com ela? Eram duas pessoas estranhas e ele já não esperava mais ninguém além de si.
Por que calas? insistiu Lurdes, franzindo a testa.
É… um pouco incómodo murmurou Carlos.
Pára de fazer drama, Carlos. Viver num cadeirão numa casa sem elevador nem rampa é difícil, então vai até à minha casa?
Ele hesitou. Por um lado, mudar de casa era desconfortável; por outro, ainda não podia andar e Lurdes não parecia tão distante.
Com o tempo, ele percebeu que ela cuidava dele de um jeito todo especial: Hoje já tomaste o leite? Fecha a janela, está frio lá fora?, Come, o queijo tem cálcio, faz bem. Cada frase sua era como um apoio.
Concordo, disse ele por fim, só não tenho dinheiro a bolsa de estudo ainda não chegou.
Lurdes, cruzando os braços, respondeu com um tom ferido:
Carlos, estás a delirar? Pensas que te estou a convidar a viver aqui por dinheiro? Que pena, mas é assim.
Eu só começou Carlos, mas parou no meio da frase, pedindo desculpa por ter ofendido.
Não fico chateada. Vamos à enfermaria, sentate lá enquanto espero a minha mudança acabar, comandou ela.
Lurdes vivia numa casinha arrumadinha, com janelas estreitas. Dentro havia duas salas aconchegantes; numa delas Carlos instalouse. Nos primeiros dias, ficou tímido, quase não saía do quarto, tentando não incomodar a dona.
A enfermeira, percebendo, disse-lhe diretamente:
Para de ter vergonha. Se precisares de algo, pede, não és um hóspede.
Ele acabou por gostar do lugar: a neve lá fora, o estalo da lenha na lareira, o perfume da comida caseira, tudo lembrava a casa da infância, aquele tempo feliz.
Os dias foram passando. O cadeirão deulse lugar às muletas. Chegou a hora de regressar à cidade.
Numa visita à clínica, caminhando meio cambaleante ao lado de Lurdes, ele falava dos planos:
Tenho de fazer exames, provas Perdi tanto tempo, parece um pesadelo. E o estágio?
Não te preocupes, disse Lurdes, o teu curso técnico não vai desaparecer. Começa a correr agora, como quem foi queimado, e lembrate do que o médico disse: diminui a carga nas pernas!
Nas semanas que se seguiram, aproximaramse muito. Carlos sentiase cada vez mais relutante em deixar aquela casa acolhedora e aquela mulher tão boa. Ela tornouse, para ele, uma segunda mãe, embora ele ainda não tivesse coragem de admitir nem a ela nem a si próprio.
No dia seguinte, ao arrumar as coisas, procurou o carregador do telemóvel, virouse e ficou estupefato: Lurdes estava à porta, a chorar. Carlos, movido por um impulso desconhecido, abraçoua firmemente.
Ficas aqui, Carlos? sussurrou ela entre lágrimas, como é que vou viver sem ti
Ele ficou. Anos depois, Lurdes estava ao lado dele na mesa de casamento, ocupando o lugar de honra de mãe do noivo. Um ano depois, segurou nos braços do neto recémnascido, batizado em homenagem à avó, a pequena Ludmila.
É isso, amiga. Essa história me fez pensar em como a vida pode mudar quando alguém inesperado aparece e nos oferece um lar. Abraço grande!

