Caramba, pai, olha a recepção que estás a ter! E para quê foste tu precisar desse spa, se em casa te…

Uau, pai, olha como és recebido. Para que precisavas desse spa, se em casa já tens tudo incluído?

Quando o Diogo me entregou as chaves do seu apartamento, percebi logo: jogo ganho. Nem o Di Caprio aguardava tanto pelo Óscar como eu esperava pelo meu Diogo, especialmente depois de conseguir o meu próprio ninho.

Desiludido, nos seus trinta e cinco, era cada vez mais comum eu lançar olhares solidários aos gatos de rua e às vitrines de “Tudo Para Artesanato”.

E foi aí que ele apareceu sozinho, jovem, investiu a juventude na carreira, comida saudável, ginásio e outras preocupações modernas, como procurar o seu lugar neste mundo. E sem filhos.

O presente que pedi aos vinte anos demorou, mas, pelos santos, lá em cima perceberam que eu não brincava.

Tenho a última viagem de trabalho do ano e depois sou só teu disse Diogo, estendendo-me as tão desejadas chaves. Mas não te assustes com a minha toca. Venho cá só mesmo para dormir avisou antes de sair novamente para outro fuso horário.

Peguei na escova de dentes, creme e fui ver que mistério era aquele. O desafio começou logo à entrada. Diogo já tinha avisado que a fechadura por vezes empacava, mas não pensei que fosse tanto.

Durante quase quarenta minutos destravei a porta com todas as forças: empurrava, puxava, enfiava a chave, tentava com jeitinho, mas aquilo parecia não querer aceitar a nova dona.

Comecei a pressionar psicologicamente, como me ensinaram os colegas da escola no recreio. Foi aí que uma vizinha abriu a porta do lado por causa do barulho.

Porque está a tentar entrar numa casa que não é sua? inquiriu, preocupada.

Não estou a arrombar! Tenho as chaves! respondi, já suada e um pouco irritada.

E quem é você mesmo? Nunca a vi por aqui teimava a vizinha.

Sou a namorada dele! desafiei, de mãos nas ancas, mas a conversa era só através da fresta da porta.

É você? questionou, com surpresa genuína.

Sim, sou. Algum problema?

Não, nenhum. Só que ele nunca trouxe ninguém aqui naquele momento passei a gostar ainda mais do Diogo. E agora isto…

Isto o quê? não puidei entender.

Nem é da minha conta. Peço desculpa e fechou a porta.

Percebendo que ou era eu ou ninguém, enfiei a chave com toda a força do desejo de pertencer àquela casa. Quase dei a volta ao puxador. E, finalmente, entrou.

Vi a alma do Diogo diante de mim, e o frio da solidão cobriu-me o peito. O espaço era modesto, cru, quase monástico. Sozinho há tempos, o aconchego parece nunca ter feito morada ali.

Coitado, o teu coração há muito esqueceu, ou talvez nunca soube, o que é um lar desabafei, explorando a vida simples de quem, ao que parece, só dormia ali.

Por outro lado, fiquei feliz. A vizinha tinha razão: ali, nem sinal de toque feminino. Primeira a entrar. Aproveitei e desci ao supermercado para comprar cortina bonita e tapete de banheiro, e aproveitei para o jogo completo: pega-panela, toalhas, sabonete artesanal e caixas para cosmética.

Adicionar uns mimos à casa alheia não é ousadia, convenci-me, enquanto enchia o segundo carrinho de compras.

A fechadura deixou de resistir; aliás, passou a não cumprir função alguma, parecendo um guarda-redes sem capacete. Foi preciso improvisar: com as facas da cozinha, desmontei tudo até à meia noite e, no dia seguinte, fui à loja buscar um novo. Facas novas, talheres, toalha de mesa, tábuas de cortar, tudo! E dali às cortinas foi um passo.

No domingo, ao almoço, ligou-me o Diogo precisava ficar mais uns dias fora.

Ainda bem que trazes calor e conforto à minha casa, faz como quiseres sorriu ele, ao saber que mudei algumas coisas no espaço.

A verdade é que já tinha tornado o apartamento num lar, com organização digna de plano técnico. Anos a acumular vontade de cuidar, que explodiu assim que me deram liberdade.

Antes do regresso do Diogo, do antigo apartamento só restava uma aranha junto à saída de ar. Quis expulsá-la, mas ao ver aqueles oito olhos em choque com a mudança, deixei-a; símbolo de respeito pelo espaço alheio.

O apartamento parecia agora de alguém feliz há oito anos de casamento, que depois se desiludiu, e finalmente, encontrou felicidade à sua maneira.

Já não era só o apartamento: ocupei o lugar de dona do prédio, todos sabiam que perguntas sobre vizinhança eram comigo. O anel no dedo ainda não vinha, mas era mera formalidade.

Os vizinhos, ao início, desconfiados, depois renderam-se: Como quiser, menina, o apartamento é seu.

***

No dia da chegada de Diogo, preparei um jantar caseiro, vesti-me a rigor, dispus incensos nos cantos e, com a luz suave, esperei.

Diogo atrasava-se. Comecei a sentir os efeitos da roupa apertada e, até nos músculos do ginásio, o desconforto crescia. Foi então que ouvi a chave no novo trinco.

É nova, empurra para dentro! Não está trancada! disse, misturando nervos e expectativa. Não tinha medo do julgamento, trabalhara demais no apartamento para merecer só elogios.

Por um instante, recebi uma mensagem do Diogo: Onde estás? Estou em casa. Vejo tudo igual, nem o perfume mudou. Diziam que irias encher isto de cremes…

Só li a mensagem depois. Entraram cinco pessoas, desconhecidas: dois adultos, dois miúdos e um senhor idoso, que, ao ver-me, endireitou a postura e ajeitou o cabelo grisalho.

Ora bem, aqui recebeste em grande! Para que precisa o pai de termas, se em casa tem tudo incluído? brincou o rapaz, recebendo um olhar sério da esposa.

Fiquei estática, dois copos nas mãos. O pânico quis tomar conta de mim, mas a aranha, no canto, pareceu rir-se.

Desculpe, quem é você? balbuciei.

O dono da toca! E a senhora deve ser médica, veio tratar das feridas? Eu disse que me arranjo sozinho respondeu o velhote, confuso com a minha roupa de enfermeira.

Mmm pois, António Mateus, aqui está mesmo acolhedor comentou a mulher, espreitando por detrás de mim. Bem melhor que antes, parecia um túmulo. Como se chama, menina? Não será o António Mateus velho demais para si? Embora, claro, tem casa própria…

Em… É… Élia…

Ora bem! O António tem olho para escolher pessoas, sim senhor!

O idoso também parecia satisfeito com o acaso.

E o Diogo? murmurei. Da ansiedade, bebi ambos os copos.

Eu sou o Diogo! respondeu alegremente o miúdo de uns oito anos.

Calma, ainda não és Diogo a mãe riu e mandou os filhos e marido ao carro.

D-d-desculpem, entrei na casa errada comecei a recompor-me, recordando o problema da fechadura. Isto é Rua das Amendoeiras, dezoito, apartamento vinte e seis?

Não, é Rua das Oliveiras, dezoito disse o velhote, já de mãos abertas, pronto a aceitar o presente.

Pois… suspirei fatalista, enganei-me. Entrem à vontade, eu já telefono cá fora.

Peguei no telemóvel e refugiei-me na casa de banho, protegida por uma toalha. Foi aí que li a mensagem do Diogo.

“Diogo, chego já, demorei no supermercado”, respondi.

“Ótimo, espero por ti. Se puderes, traz uma garrafa de tinto”, deixou ele em áudio.

O tinto, estava a pensar trazer, mas já o tinha bebido. Deixei o tapete debaixo do braço, tirei a cortina, esperei que os estranhos fossem à cozinha e fugi.

***

Conto-te depois expliquei, assim que Diogo abriu a porta.

Atravessei o hall como se estivesse num nevoeiro, entrei na casa de banho, pendurei de novo a cortina, espalhei o tapete e afundei-me no sofá até ao dia seguinte, até o stress e o vinho se evaporarem.

Ao despertar, vi um jovem desconhecido a querer explicações.

Qual o endereço mesmo?

Rua das Amendoeiras, dezoito…

Hoje, percebo que na vida há portas difíceis de abrir, mas aprender a rir dos erros é essencial. Afinal, somos sempre principiantes onde há amor verdadeiro e uma casa por construir.

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