A explosão… Um estrondo alto… Escuridão… Escuridão…
Finalmente, a escuridão começou a dissipar. Ouviu-se uma voz:
Dra. Inês, isto é o socorrista, houve uma explosão lá em cima.
Através da dor, senti o toque de uma mão no pescoço. Tentei entreabrir as pálpebras. Consegui com dificuldade. Diante dos olhos, um pingente em forma de retângulo com signos do zodíaco gravados nele… Os olhos da mulher de jaleco branco…
Para a sala de operações! soou a voz bem próximo.
Os pais voltaram do trabalho. A mãe foi imediatamente para a cozinha, espreitando o quarto onde o filho fazia os deveres. Carlos, ao entrar no quarto, reparou logo que o filho não estava com bom humor.
António, o que aconteceu? o pai deu-lhe uma palmadinha na cabeça.
Nada, resmungou o filho, aluno do quarto ano.
Vamos lá, conta!
O Dia 8 de Março está próximo. A professora hoje reteve-nos e disse que devíamos preparar presentes para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu o pai.
Temos o mesmo número de rapazes e raparigas. E ela distribuiu quem dá a quem, o filho suspirou pesadamente. Coube-me a feia, a Inês Ferreira.
Todas as raparigas querem um presente no Dia 8 de Março, incluindo as feias, o pai esforçava-se por falar com o filho como com um adulto. E como ela distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como? Carlos não se conteve e sorriu de novo.
Por compatibilidade. A Inês é Virgem, e às Virgens combina mais o Touro. E eu sou Touro.
Isso é bom, se combinam! Quando cresceres, talvez te apaixones por ela.
O pai não resistiu e riu-se. A mãe entrou logo no quarto:
O que está a acontecer aqui?
Rita, vai para a cozinha, o rosto do pai ficou sério. Nós temos uma conversa séria com o nosso filho.
Quando a mãe saiu, António perguntou com voz triste:
Pai, e agora o que é que eu faço?
Prepara o presente!
Qual?
Amanhã no trabalho faço eu o presente para a tua escolhida.
Pai, que presente podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Sim! Mas trabalho na galvanização. E lá fabricam todos os tipos de revestimentos metálicos.
Pai, não entendi.
Amanhã vês tu mesmo!
***
No dia seguinte o pai trouxe um pingente numa corrente em forma de retângulo, que parecia dourado. Num lado estavam gravados dois signos do zodíaco, o Touro e a Virgem, e no outro, escrito de forma pequena mas bonita:
«À minha colega Inês no 8 de Março! António».
Oh, como este pingente ficava bonito! E quando a mãe o embalou num saquinho de celofane, ficou a parecer verdadeiramente impressionante.
***
E chegou o sétimo de Março. A professora não pretendia dar aulas. Primeiro os alunos entregaram-lhe o presente. Ela agradeceu durante muito tempo. Depois anunciou que os rapazes deviam oferecer os presentes às raparigas.
Que confusão começou! Todos os rapazes correram para as suas “escolhidas”. António também se aproximou de Inês Ferreira e disse, como o pai lhe ensinou:
Inês, felicito-te pelo Dia 8 de Março! Talvez um dia o destino una o Touro e a Virgem.
Depois de proferir a frase decorada, António dirigiu-se para o seu lugar e, claro, não notou como o coração desta rapariga, feia na sua opinião, começou a bater.
Pouco tempo depois, os pais de Inês mudaram-se para outro bairro, e a Inês a partir do quinto ano começou a estudar noutra escola.
***
António abriu os olhos. O teto branco da enfermaria hospitalar. Tentou mexer as mãos e as pernas. Apenas a mão esquerda se mexia.
Onde estou? perguntou sem saber a quem.
Ouviu-se um som de muletas e um doente nas muletas aproximou-se da sua cama, olhou-o com atenção e perguntou:
Já recuperaste? Estás no serviço de cirurgia de emergência.
As minhas mãos e pernas estão todas inteiras? perguntou António com voz baixa.
Parece que sim, tudo no sítio, informou a boa notícia. Só estás todo enfaixado da cabeça aos pés.
Isso é bom, se está tudo inteiro.
Então aproximou-se a enfermeira e perguntou com solicitude:
– Como te sentes?
– O que foi que me aconteceu! respondeu António com outra pergunta.
– A tua vida não está em perigo. As mãos e as pernas vão funcionar. Só vão ficar muitas cicatrizes, entregou o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.
– Filho, ouviu-se a voz da mãe através das lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, ele tentava falar o mais animado que podia. Disseram que só vão ficar umas pequenas cicatrizes. Em breve vão dar-me alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties demasiado!
Colocou o telefone ao lado, tentou sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te vão dar alta tão cedo, sorriu a enfermeira em resposta. Vais ficar deitado três semanas. Isso é certo!
– O que aconteceu contigo? perguntou o companheiro de quarto, quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica, os cilindros de oxigénio começaram a explodir, começou a recordar António. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. O espaço é enorme, dentro havia três feridos. Entrámos lá, os cilindros estavam espalhados, fogo em alguns lugares. Começámos a retirar os feridos… Eu saí por último… Quando já estava perto da porta, outro cilindro explodiu… Não me lembro de mais nada.
– Sim, apanhaste.
– António Gonçalves, soou a voz da enfermeira. Tens um colega do trabalho.
– Olá, António! Como estás?
– As mãos e as pernas estão inteiras! respondeu o ferido de forma otimista. Mas só posso dar a mão com a esquerda por agora!
– Deixa-te disso!
– O que aconteceu depois?
– Já estávamos a sair quando explodiu. Corremos logo de volta, tirámos-te… Estavas todo coberto de sangue… Os médicos já estavam por perto…
– Obrigado!
– António, do que estás a falar?! de repente apareceu um sorriso no rosto do amigo. – Parece que nos querem apresentar a medalhas.
– Até lá dão-me alta.
– Pronto, vou-me embora. Agora vai haver a ronda. A enfermeira disse para não demorar muito.
Não deu tempo ao amigo sair, quando entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da sua cama.
– Normal.
– Já estás a conversar, então vais viver. Vamos, vou examinar-te!
– Foi o senhor que me suturou? perguntou António.
– Não, foi a Dra. Inês Ferreira. Ela vem cá depois de amanhã.
***
Passaram dois dias. António já tentava levantar-se. Verdade seja dita, a dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava rasgada. E tinha pelo menos uma dezena de feridas por todo o corpo. Duas na cara, quando explodiu bateu no portão, bem que conseguiu esticar a mão direita para a frente. Olhou-se ao espelho. O rosto continuava inchado.
Hoje a ronda devia ser feita pelo médico que o suturou durante cinco horas seguidas na sala de operações. António até se sentiu um pouco nervoso.
E lá entrou ela. Jovem, esguia, verdade, com óculos, mas eles não a estragavam de todo, e o jaleco branco ficava-lhe bem. António com os seus vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas ao fim de seis meses separaram-se não se davam bem de caráter, como escreveram no requerimento, mas na realidade a ex-mulher não gostava do salário de socorrista.
– Bom dia! disse a médica e dirigiu-se para a sua cama.
– Bom dia! Foi a senhora que me suturou?
– Fui eu, sorriu. Há algum problema?
– Vamos, vou examinar-te!
E ela inclinou-se sobre ele… Diante dos olhos o pingente com signos do zodíaco, pendendo do seu pescoço:
– Inês Ferreira!!! exclamou ele.
Ela olhou atentamente para o seu rosto inchado.
– Desculpe! disse, sem o ter reconhecido.
– Eu sou Touro, e apontou para o pingente.
– António Gonçalves? os lábios dela tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Ora essa, Inês? vendo as lágrimas nos olhos da mulher, ele pousou a palma da mão na dela.
– Desculpa! ela tirou um lenço e secou os olhos. Nunca pensei que nos encontraríamos assim.
Mais nesse dia Inês não entrou no seu quarto. Mas António já percebeu que o horário dela era como o seu: turno de dia, de noite e dois dias de folga.
Ele não queria parecer indefeso diante dela. Durante todo o dia seguinte tentou andar pelo quarto apoiando-se nas camas, algumas vezes, segurando-se à parede, saiu para o corredor.
À noite. O médico do turno diurno saiu. Veio o novo turno notava-se pelas conversas no corredor. Agora a ronda…
E de repente gritos, passos apressados no corredor. Isso acontece quando trazem outro ferido.
Já eram dez horas. Entrou a enfermeira, apagou a luz no quarto. Mas não conseguia dormir. Já passava da meia-noite, ouviram-se passos no corredor, calaram-se, e nesse silêncio António mais sentiu do que ouviu que no corredor alguém chorava. Levantou-se e saiu cautelosamente para o corredor.
Atrás da mesa de serviço estava sentada e, com a cabeça caída nas mãos, chorava a sua antiga colega de turma. Aproximou-se e colocou a mão saudável no ombro dela:
– O que se passa, Inês!
Ela levantou-se e encostou-se ao ombro dele:
– Operei uma mulher, ela foi atropelada por um carro, começou a contar sufocada pelas lágrimas. Fiz tudo o que era possível e impossível… Ela está agora na reanimação, mas não vai sobreviver. Tem dois filhos… o marido está agora com ela no quarto…
– Acalma-te, Inês!
– Já trabalho como cirurgiã há três anos e ainda não me consigo habituar a que as pessoas morrem.
– Acalma-te, acalma-te! São as nossas profissões. Em cinco anos também vi tantas mortes, mas também salvámos muitas vidas, António suspirou pesadamente. – Por isso é que a minha mulher me deixou. Diz que eu chego a casa não parecendo eu e ganho pouco dinheiro. Mas eu tenho sempre quarenta dá para viver.
– Comigo é a mesma coisa, ela olhou-o para o rosto. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Ainda não casei, vivo com os pais como se fosse uma adolescente.
– Deixa-te disso, nós dois temos só vinte e sete anos toda a vida pela frente.
– Não, António, já temos vinte e sete.
– Dra. Inês, o pulso dela está a desaparecer, gritou a enfermeira que saiu correndo.
– Desculpa! e Inês correu para a reanimação.
António não conseguiu dormir essa noite. De manhã veio a enfermeira, como habitualmente fez-lhe a injeção.
– A mulher a quem operaram hoje à noite está viva? perguntou ele inesperadamente até para si próprio.
– Está viva, mas o estado é extremamente grave.
***
Passaram três semanas. As feridas no corpo de António cicatrizaram. Com Inês viam-se quando eram os turnos dela, além disso sentia-se cada vez mais atraído por ela. Mas o serviço de cirurgia de emergência não é o lugar para falar de coisas muito pessoais.
E durante uma das rondas matinais o médico homem comunicou:
– Hoje dou-te alta, sorriu e acrescentou. Quero dizer, do hospital. Vais diretamente para a tua clínica, e lá decidem quanto tempo ainda ficas de baixa.
– Posso arrumar!
– Sim, sim! Não te apresses muito. Agora preparam a tua alta.
Quando o médico saiu, António barbeou-se. Olhando ao espelho, notou com satisfação que as duas cicatrizes que restaram não estragavam o rosto, antes acrescentavam masculinidade. Quanto às outras cicatrizes, não valia a pena prestar atenção.
Arrumou, saiu para o corredor. Ao encontro, segurando-se à parede, vinha uma doente.
«Ela conseguiu recuperar!» passou-lhe um pensamento alegre.
Saiu a enfermeira, entregou a alta:
– Adeus, António! Não voltes para cá!
***
Ele tinha o seu apartamento de um quarto, mas foi para casa dos pais. Afinal a mãe esperava-o tanto e estava preocupada. Até tirou férias.
– Filho! atirou-se aos braços dele.
– Pronto, mãe! Como vês, estou vivo e bem.
– Anda, preparei-te comida. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida caseira!
– Enquanto não recuperares e não casares vais viver em casa. O teu quarto ainda está vazio, e gritou como a uma criança. Anda, lava as mãos!
***
Até à noite António foi ao cabeleireiro. Entrou no seu apartamento. Buscou alguma roupa. A mãe logo começou a arrumar as coisas.
À noite chegou o pai do trabalho. Sentaram-se, como antigamente, todos juntos e conversaram até alta noite.
Foi deitar-se no seu quarto, onde passou a infância e a juventude, mas não adormeceu logo:
«Amanhã preciso ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite…»
Com esse pensamento no dia seguinte adormeceu… bem depois da meia-noite.
***
No dia seguinte, António de manhã foi à clínica. Até ao almoço passou por vários gabinetes. Depois do almoço foi ao trabalho, era precisamente o seu turno.
– Tu, para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muito tempo, quando eu ainda estava no quarto ano. Tu fizeste-me um pingente para dar de presente à colega?
– À feia Inês Ferreira? Lembro-me.
– Lembras-te, disseste ainda: «Quando cresceres, talvez te apaixones por ela».
– E isso lembro-me.
– Pai, a Inês agora é cirurgiã. Foi ela que me fez a operação. E ela ainda usa ao pescoço aquele pingente.
– Isso é que é!
– Pai, as tuas palavras concretizaram-se. Vou ter com ela!
***
Vinte e sete anos não são assim tão muitos para o começo da vida com a pessoa amada.A explosão… Um estrondo alto… Escuridão… Escuridão…
Finalmente, a escuridão começou a dissipar. Ouviu-se uma voz:
Dra. Inês, isto é o socorrista, houve uma explosão lá em cima.
Através da dor, senti o toque de uma mão no pescoço. Tentei entreabrir as pálpebras. Consegui com dificuldade. Diante dos olhos, um pingente em forma de retângulo com signos do zodíaco gravados nele… Os olhos da mulher de jaleco branco…
Para a sala de operações! soou a voz bem próximo.
Os pais voltaram do trabalho. A mãe foi imediatamente para a cozinha, espreitando o quarto onde o filho fazia os deveres. Carlos, ao entrar no quarto, reparou logo que o filho não estava com bom humor.
António, o que aconteceu? o pai deu-lhe uma palmadinha na cabeça.
Nada, resmungou o filho, aluno do quarto ano.
Vamos lá, conta!
O Dia 8 de Março está próximo. A professora hoje reteve-nos e disse que devíamos preparar presentes para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu o pai.
Temos o mesmo número de rapazes e raparigas. E ela distribuiu quem dá a quem, o filho suspirou pesadamente. Coube-me a feia, a Inês Ferreira.
Todas as raparigas querem um presente no Dia 8 de Março, incluindo as feias, o pai esforçava-se por falar com o filho como com um adulto. E como ela distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como? Carlos não se conteve e sorriu de novo.
Por compatibilidade. A Inês é Virgem, e às Virgens combina mais o Touro. E eu sou Touro.
Isso é bom, se combinam! Quando cresceres, talvez te apaixones por ela.
O pai não resistiu e riu-se. A mãe entrou logo no quarto:
O que está a acontecer aqui?
Rita, vai para a cozinha, o rosto do pai ficou sério. Nós temos uma conversa séria com o nosso filho.
Quando a mãe saiu, António perguntou com voz triste:
Pai, e agora o que é que eu faço?
Prepara o presente!
Qual?
Amanhã no trabalho faço eu o presente para a tua escolhida.
Pai, que presente podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Sim! Mas trabalho na galvanização. E lá fabricam todos os tipos de revestimentos metálicos.
Pai, não entendi.
Amanhã vês tu mesmo!
***
No dia seguinte o pai trouxe um pingente numa corrente em forma de retângulo, que parecia dourado. Num lado estavam gravados dois signos do zodíaco, o Touro e a Virgem, e no outro, escrito de forma pequena mas bonita:
«À minha colega Inês no 8 de Março! António».
Oh, como este pingente ficava bonito! E quando a mãe o embalou num saquinho de celofane, ficou a parecer verdadeiramente impressionante.
***
E chegou o sétimo de Março. A professora não pretendia dar aulas. Primeiro os alunos entregaram-lhe o presente. Ela agradeceu durante muito tempo. Depois anunciou que os rapazes deviam oferecer os presentes às raparigas.
Que confusão começou! Todos os rapazes correram para as suas “escolhidas”. António também se aproximou de Inês Ferreira e disse, como o pai lhe ensinou:
Inês, felicito-te pelo Dia 8 de Março! Talvez um dia o destino una o Touro e a Virgem.
Depois de proferir a frase decorada, António dirigiu-se para o seu lugar e, claro, não notou como o coração desta rapariga, feia na sua opinião, começou a bater.
Pouco tempo depois, os pais de Inês mudaram-se para outro bairro, e a Inês a partir do quinto ano começou a estudar noutra escola.
***
António abriu os olhos. O teto branco da enfermaria hospitalar. Tentou mexer as mãos e as pernas. Apenas a mão esquerda se mexia.
Onde estou? perguntou sem saber a quem.
Ouviu-se um som de muletas e um doente nas muletas aproximou-se da sua cama, olhou-o com atenção e perguntou:
Já recuperaste? Estás no serviço de cirurgia de emergência.
As minhas mãos e pernas estão todas inteiras? perguntou António com voz baixa.
Parece que sim, tudo no sítio, informou a boa notícia. Só estás todo enfaixado da cabeça aos pés.
Isso é bom, se está tudo inteiro.
Então aproximou-se a enfermeira e perguntou com solicitude:
– Como te sentes?
– O que foi que me aconteceu! respondeu António com outra pergunta.
– A tua vida não está em perigo. As mãos e as pernas vão funcionar. Só vão ficar muitas cicatrizes, entregou o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.
– Filho, ouviu-se a voz da mãe através das lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, ele tentava falar o mais animado que podia. Disseram que só vão ficar umas pequenas cicatrizes. Em breve vão dar-me alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties demasiado!
Colocou o telefone ao lado, tentou sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te vão dar alta tão cedo, sorriu a enfermeira em resposta. Vais ficar deitado três semanas. Isso é certo!
– O que aconteceu contigo? perguntou o companheiro de quarto, quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica, os cilindros de oxigénio começaram a explodir, começou a recordar António. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. O espaço é enorme, dentro havia três feridos. Entrámos lá, os cilindros estavam espalhados, fogo em alguns lugares. Começámos a retirar os feridos… Eu saí por último… Quando já estava perto da porta, outro cilindro explodiu… Não me lembro de mais nada.
– Sim, apanhaste.
– António Gonçalves, soou a voz da enfermeira. Tens um colega do trabalho.
– Olá, António! Como estás?
– As mãos e as pernas estão inteiras! respondeu o ferido de forma otimista. Mas só posso dar a mão com a esquerda por agora!
– Deixa-te disso!
– O que aconteceu depois?
– Já estávamos a sair quando explodiu. Corremos logo de volta, tirámos-te… Estavas todo coberto de sangue… Os médicos já estavam por perto…
– Obrigado!
– António, do que estás a falar?! de repente apareceu um sorriso no rosto do amigo. – Parece que nos querem apresentar a medalhas.
– Até lá dão-me alta.
– Pronto, vou-me embora. Agora vai haver a ronda. A enfermeira disse para não demorar muito.
Não deu tempo ao amigo sair, quando entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da sua cama.
– Normal.
– Já estás a conversar, então vais viver. Vamos, vou examinar-te!
– Foi o senhor que me suturou? perguntou António.
– Não, foi a Dra. Inês Ferreira. Ela vem cá depois de amanhã.
***
Passaram dois dias. António já tentava levantar-se. Verdade seja dita, a dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava rasgada. E tinha pelo menos uma dezena de feridas por todo o corpo. Duas na cara, quando explodiu bateu no portão, bem que conseguiu esticar a mão direita para a frente. Olhou-se ao espelho. O rosto continuava inchado.
Hoje a ronda devia ser feita pelo médico que o suturou durante cinco horas seguidas na sala de operações. António até se sentiu um pouco nervoso.
E lá entrou ela. Jovem, esguia, verdade, com óculos, mas eles não a estragavam de todo, e o jaleco branco ficava-lhe bem. António com os seus vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas ao fim de seis meses separaram-se não se davam bem de caráter, como escreveram no requerimento, mas na realidade a ex-mulher não gostava do salário de socorrista.
– Bom dia! disse a médica e dirigiu-se para a sua cama.
– Bom dia! Foi a senhora que me suturou?
– Fui eu, sorriu. Há algum problema?
– Vamos, vou examinar-te!
E ela inclinou-se sobre ele… Diante dos olhos o pingente com signos do zodíaco, pendendo do seu pescoço:
– Inês Ferreira!!! exclamou ele.
Ela olhou atentamente para o seu rosto inchado.
– Desculpe! disse, sem o ter reconhecido.
– Eu sou Touro, e apontou para o pingente.
– António Gonçalves? os lábios dela tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Ora essa, Inês? vendo as lágrimas nos olhos da mulher, ele pousou a palma da mão na dela.
– Desculpa! ela tirou um lenço e secou os olhos. Nunca pensei que nos encontraríamos assim.
Mais nesse dia Inês não entrou no seu quarto. Mas António já percebeu que o horário dela era como o seu: turno de dia, de noite e dois dias de folga.
Ele não queria parecer indefeso diante dela. Durante todo o dia seguinte tentou andar pelo quarto apoiando-se nas camas, algumas vezes, segurando-se à parede, saiu para o corredor.
À noite. O médico do turno diurno saiu. Veio o novo turno notava-se pelas conversas no corredor. Agora a ronda…
E de repente gritos, passos apressados no corredor. Isso acontece quando trazem outro ferido.
Já eram dez horas. Entrou a enfermeira, apagou a luz no quarto. Mas não conseguia dormir. Já passava da meia-noite, ouviram-se passos no corredor, calaram-se, e nesse silêncio António mais sentiu do que ouviu que no corredor alguém chorava. Levantou-se e saiu cautelosamente para o corredor.
Atrás da mesa de serviço estava sentada e, com a cabeça caída nas mãos, chorava a sua antiga colega de turma. Aproximou-se e colocou a mão saudável no ombro dela:
– O que se passa, Inês!
Ela levantou-se e encostou-se ao ombro dele:
– Operei uma mulher, ela foi atropelada por um carro, começou a contar sufocada pelas lágrimas. Fiz tudo o que era possível e impossível… Ela está agora na reanimação, mas não vai sobreviver. Tem dois filhos… o marido está agora com ela no quarto…
– Acalma-te, Inês!
– Já trabalho como cirurgiã há três anos e ainda não me consigo habituar a que as pessoas morrem.
– Acalma-te, acalma-te! São as nossas profissões. Em cinco anos também vi tantas mortes, mas também salvámos muitas vidas, António suspirou pesadamente. – Por isso é que a minha mulher me deixou. Diz que eu chego a casa não parecendo eu e ganho pouco dinheiro. Mas eu tenho sempre quarenta dá para viver.
– Comigo é a mesma coisa, ela olhou-o para o rosto. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Ainda não casei, vivo com os pais como se fosse uma adolescente.
– Deixa-te disso, nós dois temos só vinte e sete anos toda a vida pela frente.
– Não, António, já temos vinte e sete.
– Dra. Inês, o pulso dela está a desaparecer, gritou a enfermeira que saiu correndo.
– Desculpa! e Inês correu para a reanimação.
António não conseguiu dormir essa noite. De manhã veio a enfermeira, como habitualmente fez-lhe a injeção.
– A mulher a quem operaram hoje à noite está viva? perguntou ele inesperadamente até para si próprio.
– Está viva, mas o estado é extremamente grave.
***
Passaram três semanas. As feridas no corpo de António cicatrizaram. Com Inês viam-se quando eram os turnos dela, além disso sentia-se cada vez mais atraído por ela. Mas o serviço de cirurgia de emergência não é o lugar para falar de coisas muito pessoais.
E durante uma das rondas matinais o médico homem comunicou:
– Hoje dou-te alta, sorriu e acrescentou. Quero dizer, do hospital. Vais diretamente para a tua clínica, e lá decidem quanto tempo ainda ficas de baixa.
– Posso arrumar!
– Sim, sim! Não te apresses muito. Agora preparam a tua alta.
Quando o médico saiu, António barbeou-se. Olhando ao espelho, notou com satisfação que as duas cicatrizes que restaram não estragavam o rosto, antes acrescentavam masculinidade. Quanto às outras cicatrizes, não valia a pena prestar atenção.
Arrumou, saiu para o corredor. Ao encontro, segurando-se à parede, vinha uma doente.
«Ela conseguiu recuperar!» passou-lhe um pensamento alegre.
Saiu a enfermeira, entregou a alta:
– Adeus, António! Não voltes para cá!
***
Ele tinha o seu apartamento de um quarto, mas foi para casa dos pais. Afinal a mãe esperava-o tanto e estava preocupada. Até tirou férias.
– Filho! atirou-se aos braços dele.
– Pronto, mãe! Como vês, estou vivo e bem.
– Anda, preparei-te comida. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida caseira!
– Enquanto não recuperares e não casares vais viver em casa. O teu quarto ainda está vazio, e gritou como a uma criança. Anda, lava as mãos!
***
Até à noite António foi ao cabeleireiro. Entrou no seu apartamento. Buscou alguma roupa. A mãe logo começou a arrumar as coisas.
À noite chegou o pai do trabalho. Sentaram-se, como antigamente, todos juntos e conversaram até alta noite.
Foi deitar-se no seu quarto, onde passou a infância e a juventude, mas não adormeceu logo:
«Amanhã preciso ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite…»
Com esse pensamento no dia seguinte adormeceu… bem depois da meia-noite.
***
No dia seguinte, António de manhã foi à clínica. Até ao almoço passou por vários gabinetes. Depois do almoço foi ao trabalho, era precisamente o seu turno.
– Tu, para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muito tempo, quando eu ainda estava no quarto ano. Tu fizeste-me um pingente para dar de presente à colega?
– À feia Inês Ferreira? Lembro-me.
– Lembras-te, disseste ainda: «Quando cresceres, talvez te apaixones por ela».
– E isso lembro-me.
– Pai, a Inês agora é cirurgiã. Foi ela que me fez a operação. E ela ainda usa ao pescoço aquele pingente.
– Isso é que é!
– Pai, as tuas palavras concretizaram-se. Vou ter com ela!
***
Vinte e sete anos não são assim tão muitos para o começo da vida com a pessoa amada.
